Recordação de novembro | Jornal Plural
28 dez 2020 - 17h27

Recordação de novembro

Pus-me a imaginar como é a “cabeça de um grifo”. Nem te conto, mas faça este exercício.

Não é vergonhoso confessar: consultei o Houaiss para saber o que é hipogrifo, e me ensinou que é um “animal mitológico representado com asas, garras e cabeça de um grifo e corpo e patas traseiras iguais às de um cavalo”.

Cabeça de um grifo?

Pus-me a imaginar como é a “cabeça de um grifo”. Nem te conto, mas faça este exercício.

Razão da curiosidade em saber o que é hipogrifo: encontrei – num sebo – um livro do Mario Quintana com o seguinte nome: A VACA E O HIPOGRIFO.

Sempre gostei do Mário – olha a intimidade –, portanto compraria o livro de qualquer maneira, mas este em especial: tem uma dedicatória.

Ao C.,
uma recordação de novembro de 77
F.

Assim curta e simples, mas provavelmente fruto de um grande evento – ocorrido entre os dois – no sentido emotivo.

Faz 43 anos que C. e F. guardam “uma recordação de novembro”.

C. não guarda mais o livro. Será que ainda guarda – se vivo – a recordação?

Pus-me novamente a imaginar: o que aconteceu de especial – na vida de C. e F. – neste novembro [de 1977]: pode ter sido um fortuito beijo ou uma longa amizade concretizada num presente: o livro. Só C. e F. sabem.

Eles sabem e eu imagino.

O livro foi impresso pela Êpece Gráfica em outubro de 1977 e publicado pela Editora garatuja. Em novembro – um mês depois – o livro já foi presenteado como fruto de uma recordação.

No livro há poucas anotações e há sinais que foi lido. Na última página há uma assinatura do C. e o local em que a fez:

Palegre, novembro de 1977.

No interior da capa posterior – capa posterior: está certo? – também há anotações:

Veja:
Sabotagem = ps 78/79
Os Invasores = p. 95

Há também uma assinatura do C., que não confere com as letras das observações: será que o livro já foi para o sebo já de um segundo dono?

Assim que manipulei o livro e vi as observações fui às páginas citadas, cujos títulos estão sublinhados.

SABOTAGEM

Estragaram o Grande Espetáculo do Juízo final / porque / antes do veredito / fizeram tudo quanto era bomba H / e apenas ficou no meio do deserto / – misteriosamente sorrindo – / a dentadura postiça de Jeová.

OS INVASORES

Há muito que os marcianos invadiram o mundo: / São os poetas / (…) / Eles não sabem nada de nada / – e só por isso é que descobrem tudo.

Imaginei que a partir destes dois poemas desvendaria os enigmas: i) qual era o fato ou o ato de novembro que recordavam; ii) e, qual a razão para se desfazer o livro.

Não desvendei. Só imaginei que C. poderia ser Testemunha de Jeová e se sentiu ofendido ou afrontado por Quintana. Seria esta a razão para desfazer-se de um livro?

Dos OS INVASORES nenhuma imaginação/conclusão consegui. Em busca da resposta – com atenção – li e preenchi de anotações todo o livro. Na leitura vários poemas me chamaram a atenção, entre ele O NARIZ E NARIZES:

O segredo da arte – e o segredo da vida – é seguir o seu próprio nariz

Não deixes que os outros lhe ponham argola.

Não me deu a resposta, mas me levou ao Futebol ao Sol e Sombra de Eduardo Galeano. No texto os anúncios ambulantes, Galeano informa que em meados dos anos 50 – do século passado – o Peñarol assinou o primeiro contrato para estampar publicidade nas camisas dos jogadores. No jogo dez jogadores entraram em campo com a camisa estampando o nome de uma empresa no peito.

Um – Obdulio Varela – negou-se a usar e justificou:

_ Antes, nós os negros, éramos puxados por uma argola no nariz. Esse tempo já passou.

Hoje há muitas pessoas – não só nos campos de futebol – com argola no nariz. Muitos a colocaram – quando votaram em Bolsonaro – por vontade própria e outros são subjugados e obrigados a colocarem.

Mas talvez a resposta esteja no poema PODER DE SÍNTESE:

…(Eu amava até as suas lágrimas, que eu fazia correrem!)

Sim, porque o verdadeiro sádico ama verdadeiramente a quem faz sofrer. Que o digam esses pretensos casais desunidos, que jamais conseguem separar-se. Só os sádicos, pergunto eu? Recordemos aquelas palavras de Oscar Wilde, na Balada do Cárcere: “A gente sempre mata aquilo a que ama: os fortes com um punhal, os covardes com um sorriso”.

Espero que não seja a morte por um punhal ou mesmo por um sorriso que levou este livro a ser vendido num sebo.

Ou será que C. entendia que este livro lhe recordava uma argola no nariz?

Convido a todos e todas para que em 2021 nos libertemos das argolas postas – pelo capital, os capitalistas, os machistas, os homofóbicos, os racistas, os governantes, enfim qualquer argola não importando quem as coloquem – nos nossos narizes.

Esta é minha maneira de desejar bom 2021, já que de 2020 é difícil levar boa recordação.

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