6 set 2021 - 9h00

D de dedo no gatilho

São milhares de milicianos, policiais, guardas municipais, seguranças privados e parte das Forças Armadas armados e dispostos a tudo e o tudo é derrotar – mesmo que não saibam o que é e quem é – o comunismo e os comunistas

Escrevo esta crônica – publicada em 06/09 – durante a sexta-feira, dia 3 de setembro. Aqui onde moro o dia transcorreu normal como tantos outros cotidianos: motores de carros e motos, latidos, às vezes irritantes, de alguns cachorros, esparsos cantos de alguns pássaros e algumas vozes e barulho pela reforma de um barracão aqui perto.

Temperatura, para mim que sou friorento, agradável com a maior parte do dia ensolarado e o céu com poucas nuvens. Infelizmente sem sinais de chuva.

Com esta calma cotidiana e clima ameno poderia estar tranquilo. Não estou. Estou apreensivo como que sentado na sala de espera de um consultório médico aguardando pela consulta e esperando o pior dos diagnósticos.

Não estou sozinho nesta antessala e o ambiente é pesado, sombrio, poucas falas. Somos muitos na espera do que pode acontecer com a nossa “democracia” e os nossos direitos a partir do dia 7 de setembro.

Sete de setembro, segundo Bolsonaro e sua turma, será o dia-D?

Dia-D hora-H.

Pazuello disse que teríamos vacinas contra a Covid-19 no dia-D hora-H. As vacinas, obedeceram – afinal era uma ordem –   o jargão militar, até por que ninguém a não ser ele sabia qual era o dia-D e a hora-H. As vacinas chegaram e Pazuello não é mais ministro.

Agora é o Bolsonaro que vê o dia 7 de setembro como o dia-D. No governo dele todos os dias são dias-D. Todos os dias há – houve quem conseguiu contar – 5 novas mentiras.

Ao escrever o D tremi, me veio a imagem do D de dedo no gatilho. A imagem não surge do nada, é fruto do discurso que Bolsonaro e a maioria de seus seguidores construíram.

Cada dia que passa pesquisas mostram que Bolsonaro está perdendo apoio e, para não ficar sozinho, resolveu chamar o povo para ir à rua para lutar por liberdade.

Liberdade!?

Este grito por “liberdade” não é o mesmo grito que damos. Bolsonaro e seus seguidores clamam por liberdade quando são os próprios obstáculos a ela.

Só e isolado pede apoio. Alguns apoiam-no e, armados, gritam liberdade e ameaçam atirar e matar os comunistas, mesmo que não saibam o que é comunismo e o que seja ser comunista.

Mas acho que devem se preocupar sim e muito, porque, se o dia 7 e os imediatamente posteriores não forem o que esperam, pode ser o tiro de misericórdia de seu governo. Não, ninguém está ameaçando o Bolsonaro: “tiro de misericórdia” é força de expressão, tem o significado de que este governo pode acabar.

Os organizadores do ato pró Bolsonaro e contra o STF e a democracia creem na presença de um grande público e provavelmente terá, afinal é tudo – viagem, hospedagem e comida – grátis e ainda pode rolar alguma grana por fora.

Na sala de espera ouço Bolsonaro declarando que “quem quer paz se prepare para a guerra”. Penso com meu botões: mais guerra?

Desde que aqui chegaram, os europeus declararam guerra permanente contra o povo originário, mesmo não sabendo quem eram os que aqui viviam. Não satisfeitos foram à África e trouxeram, na marra, negros e negras, os escravizaram e até hoje fazem guerra contra eles.

São 521 anos de guerra e Bolsonaro ainda quer intensificá-la

São milhares de milicianos, policiais, guardas municipais, seguranças privados e parte das Forças Armadas armados e dispostos a tudo e o tudo é derrotar – mesmo que não saibam o que é e quem é – o comunismo e os comunistas.

No olhar dele comunistas somos todos que pensamos diferente deles, que se autoconsideram homens de bem.

Dentro da guerra que já dura 521 anos – esses homens de bem – preparam um massacre que poderá ser durante o dia 7 e a noite de 7 para 8 de setembro. Ou nos dias subsequentes.

Seria a noite de cristal de Bolsonaro?

Estes homens de bem, em nome de Deus, estão predispostos e propensos a cometerem crimes.

Afinal não serão os primeiros. Muitos já morreram em nome de Deus e de deuses.

Delírio?

Há tempos Bolsonaro nos ameaça com a ditadura. As ameaças são tantas e há tanto tempo que me faz lembrar “A Crônica de Uma Morte Anunciada”, Gabriel Garcia Márquez: No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã…

Na primeira frase do livro tomamos conhecimento de que o personagem principal do romance já estava morto.

Este 7 de Setembro será, como o anunciado, a morte da “democracia” – que vem agonizando desde o golpe de 2016 –, ou será o “tiro de misericórdia” no governo Bolsonaro?

Ah, quanto à dedicatória, dedico a quem luta pela democracia.

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