Com afeto e gratidão | Jornal Plural
20 out 2020 - 18h04

Com afeto e gratidão

De mãos limpas, sem luvas e bisturi, abro a pele e vejo a primeira “cicatriz”, uma dedicatória

“A capa é a pele daquele corpo que é o livro”.

                                                Roberto Calasso

Em qualquer livraria e/ou sebo que se visite a primeira coisa que nos chama a atenção é a – capa – pele do livro, depois é que conhecemos as entranhas do corpo.

A pele de Velório sem Defunto, Mario Quintana, é simples: toda branca. No branco está “tatuado” nome do livro, a assinatura de Mario Quintana e o nome da editora, tudo em preto.

Seria a palidez e o luto?

A pele é “tatuada” por Leonardo Menna Barreto Gomes sobre a concepção de Mario Quintana.

Quintana concebeu uma pele toda branca para e por lembrar a palidez dos defuntos, mesmo que ele não exista neste velório?

No sebo com o corpo na mão, olhando aquela pele branca, tatuada na cor preta, tento decifrar a razão do nome: Velório sem Defunto. Para buscar a resposta inicio uma autopsia.

De mãos limpas, sem luvas e bisturi, abro a pele e vejo a primeira “cicatriz”, uma dedicatória:

A amiga R.,

Com afeto e gratidão.

        M. H.

                13.11.90

Antes de aprofundar a autópsia do livro, que nasceu no mesmo ano da dedicatória, a orelha do mesmo me sussurra: “Lembrar de um Velório sem Defunto é, mesmo exprimir uma sensação de difícil alcance para o mortal comum”.

O objetivo de uma autópsia é fazer uma “análise minuciosa; crítica severa” (Houaiss) para formular perguntas e buscar respostas. E o objetivo aqui é encontrar a resposta: por que R. se desfez do – livro – corpo.

Trato como autópsia e não por necropsia por uma simples razão: um livro nunca morre. Se queimado entra na história coletiva de destruição de livros.

Autopsiar um livro é visitar o íntimo, o pensamento, às vezes da própria alma.

Através daquele corpo – poderei – poderá (re)nascer, ganhar outra vida, outra visão da vida. No caso, com este corpo – poderei – poderá sentir afeto ou mesmo gratidão à poesia de Quintana ou a qualquer outra poesia ou pessoa.

Será que R. não sentiu este afeto e gratidão em M. H. ou mesmo ao corpo que tinha nas mãos e, esta foi a razão para desfez-se dele?

Continuo a autópsia formulando novas perguntas e buscando as respostas.

Este corpo contém um único poema em página de número par (página 6), as demais páginas pares estão todas em branco. Todos os demais poemas estão gravados em páginas impares e impressos na vertical, que para lê-los precisa-se virar o corpo.

Creio que isto não é razão para desfazer-se do mesmo. Ou é?

Busco nos poemas a razão para desfazer-se do corpo.

O poema ENCONTRO MÁGICO, pode ser um indicio:

Eis que encontro na rua uma das moças mais lindas do mundo. / Vestida simplesmente, parecia no entanto uma princesa / Um meigo olhar, um sorriso que parecia uma aurora dentro de nós. / Não pude, não pude mais e lhe indaguei de súbito: / “como é teu nome, minha querida”? / E ela respondeu-me simplesmente: AUSÊNCIA.

Talvez R. e M.H. tenham se encontrado poucas vezes e ser destes encontros que a primeira vista te leva a chamar a pessoa de amiga e, não ocorrendo outros, ficou a AUSÊNCIA.

Tamanha ausência que achou melhor desfazer-se do corpo. Ou a razão pode estar explicada no poema AS DESPEDIDAS:

Nas despedidas / O mais doloroso é que / – tanto o que fica como o que vai embora – / Põem-se os dois a pensar: / “Meu Deus! quando é que parte o raio deste trem!”

Será que foi numa destas partidas que M. H. ofereceu este livro com “afeto e gratidão” à amiga R e por não mais se encontrarem resolveu desfazer-se do livro?

Minha autópsia chega ao fim sem conclusão: o que levou R. a desfazer-se do corpo?

Mas, através da autopsia obtive uma resposta: o poema INQUIETUDE responde a origem do título do livro:

… / Sou desse jeito… Vivo cercado de interrogações. / … / Sinto-me assim, sem motivo algum, / Como alguém que estivesse comendo uma empada de camarão sem / camarões / Num velório sem defunto…

Livros não morrem e podem ensinar A ARTE DE VIVER:

A arte de viver / É simplesmente a arte de conviver… / Simplesmente, disse eu? / Mas como é difícil!

Sim, como é difícil viver nestes tempos de ignorância. Nestes tempos de negacionismo: nega-se a pandemia de Covid-19 e, mesmo antes de estar disponível, nega-se a vacina. Nega-se a vida.

Difícil viver nestes tempos em que diagnósticos são negados e medicamentos – como a cloroquina – receitados por beócios.

Para não chegar ao diagnóstico correto e poder negar as mortes por covid-19, nega-se também as necropsias.

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