A Terra é redonda | Jornal Plural
22 fev 2021 - 1h17

A Terra é redonda

Antes da era dos computadores as pessoas rasgavam fotos ou cortava-as. Stalin e os stalinistas russos tinham fama de fazer isso. Suas vítimas eram obrigadas a fazerem isto. Hoje Luciano Huck apaga fotos na internet: apaga-as, não quer mostra o que é e onde sempre esteve: ao lado dos trogloditas, fascistas, hipócritas, canalhas…

Os livros e LPs por si só têm histórias. Os comprados em sebos têm mais e variadas histórias: mesmo que não as conhecemos.

A história que cada um contém é individual e diferente, mas a pergunta que dá o enredo é a mesma: qual a razão para este “objeto” ir parar num sebo?

A mim, como a tantas outras pessoas, ao entender que aquele “objeto” – encontrado no sebo – é útil e bom, e que pelo ano da produção ou publicação já faz parte da história cultural do país, gera-se mais interrogações do por que foi parar ali. Interrogações que não vou colocar no papel.

Nestes tempos “modernos” ou como chamam pós-moderno está certo dizer “colocar no papel”?

Tenho a impressão que hoje a maioria lê nas telas e telinhas de computadores e celulares e que o papel tornou-se obsoleto. Não mais se usa sequer jornal para enrolar peixes.

Muitos “objetos” que estão nos sebos têm dedicatórias, acredito feitas de coração. As dedicatórias com a assinatura dos/as autores/as são mais simples e pode ser feito mais com o caráter comercial e/ou de marketing, que com o coração.

Mas tanto num caso como no outro quem recebe o livro ou o LP tem alguma relação de afeto, amor, admiração ou amizade com o/a autor/a ou com quem lhe deu, naquele momento, o presente. Presente que ao ser vendido para um sebo transformou-se num objeto.

Aquele que já foi livro ou LP virou objeto comercial. Nas minhas mãos e na de muita gente, voltam ser novamente LP ou livro. O objeto que acabou de virar livro que tenho em mãos é o mundo não é redondo, Antonio Cescatto.

Além de usado está todo “enrugado” e com algumas manchas resultantes de um banho. Foi chuva, inundação da casa, caiu debaixo do chuveiro, ou pior: caiu dentro da privada. Não sei.

Além de uma dedicatória, ao folheá-lo, ainda no sebo, constatei que dentro havia o pedaço de uma foto que foi rasgada.

Antes da era dos computadores as pessoas rasgavam fotos ou cortava-as. Stalin e os stalinistas russos tinham fama de fazer isso. Suas vítimas eram obrigadas a fazerem isto ou a desaparecerem com as fotos para sobreviverem ou viverem.

Hoje tem muita gente – como o Luciano Huck que quer ser candidato a presidente – apagando fotos na internet. Está dando um enorme trabalho à sua equipe de marketing. Huck quer criar a imagem de um homem inteligente, de centro – para mim na política, quem se diz de centro é de direita – e que nunca apoiou ou esteve ao lado dos trogloditas, fascistas, hipócritas, canalhas… como, por exemplo, este deputado federal Daniel Silveira (PSL), preso na semana passada.

Fotos também foram e são rasgadas por ruptura amorosa, amizade ou mesmo por desgosto.

Com o pedaço do que restou da foto – nas mãos – fico alguns segundos buscando – mesmo sabendo que não vou encontrar – a explicação que levou alguém a rasga-la.

Será que foi uma crise de raiva?

Apesar que o ciúme acompanha pessoas em todas as idades, creio que não foi essa a razão. Será que o Cescatto sabe?

A curiosidade levou-me a medir o tamanho do pedaço de foto: 3,5cm x 10 cm. Olhando de frente se vê que é o pedaço da lateral direita de uma foto retangular.

A foto, em preto e branco, aparenta ser de uns cerca 50 anos atrás ou mais. Retrata uma senhora de casaco, com uma bolsinha pendurada no braço e com um lenço branco amarado na cabeça. Pela roupa era inverno. O fundo da foto retrata umas grades, que parece ser de uma cerca ou um muro.

Lembrou um pouco a roupa que a minha avó espanhola – nascida no final do século XIX – vestia. E ela tinha uma bolsinha semelhante e usava-a como a senhora da foto: o braço dobrado e a bolsinha pendurada.

Ver uma foto ou um fragmento de foto – de uma pessoa que não se conhece – dentro de um livro é intrigante: libera um instinto investigativo.

Investigação que não farei.

Vá que me leve a desvendar algum crime. Mesmo que seja só o crime do por que de ter rasgado a foto: rasgar fotos é crime contra a memória.

Antonio Cescatto, autor do livro dá o título, o mundo não é redondo – tenho certeza que não é para agradar os terraplanistas – e a capa é uma foto de Juliana Stein.

Em todas as crônicas anteriores, li o livro para buscar uma explicação pelo “abandono” do mesmo. Este não li: só folheei. E ao não lê-lo fica sem a explicação para o “abandono” e sem compreender a foto da capa, que me impactou.

A foto, num colorido sem cor, da pata pesada de um elefante, me pisou no peito e senti a dor dos que não conseguem respirar, ou pelo Covid-19 ou pelo sentimento de opressão politica que vivemos.

A primeira parte do livro O Mar Dentro de Nós deve ter transbordado e afogado o – mundo – livro. Neste afogamento pode estar a razão de J. – antiga dona – vende-lo. Outra razão pode ser por ter sentido o – mesmo que eu – peso da pata pesada sobre a alma. Ou quem sabe a resposta está na foto rasgada que pode ser de alguma parenta de J., antiga dona do livro a qual tinha a dedicatória:

PARA A J.
COM UM BEIJO
DO CESCATTO

A foto da capa desde o primeiro momento me trouxe a mente a música “Sólo le Pido a Dios”, do argentino León Gieco:

Sólo le pido a Dios / Que la guerra no me sea indiferente / Es un monstruo grande y pisa fuerte / Toda la pobre inocencia de la gente / …

Sólo le pido a Dios que el monstruo grande y pisa fuerte del fascismo no pise sobre nosotros y sobre la gente.


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