Todo mundo armado | Plural
15 maio 2019 - 9h43

Todo mundo armado

Como será a vida agora que todo mundo tem acesso a armas? Fagner Zadra responde

Assim que entrou em vigor a lei armamentista, todo mundo correu para comprar a sua arma, pelo menos em Curitiba, até porque o cidadão de bem já estava cansado de ser acuado pelo cidadão do mal. E não tô falando do mal, do tipo de pessoas que enviam no WhatsApp os  memes com gemidão, ou aquele meme do “Negão da Picona”, enviado no grupo da família, mas sim dos bandidos que assaltam ou cometem crimes até piores, como matar algum cidadão de bem. E a solução encontrada foi se armar. Se bem que até dá vontade de matar quem manda esse tipo de mensagem.

Naquela segunda feira, dezoito horas da tarde, o trânsito estava um inferno, caótico como sempre, mas a situação estava muito pior no cruzamento da rua Lamenha Lins com a rua Dr. Pedrosa, e piorou muito naquele fatídico dia.

Um cidadão de bem cortou a frente de outro cidadão de bem, mas com o nervosismo, um pensava que o outro era um cidadão do mal, aí deu merda.

– Olha por onde anda com essa porcaria de carro!

– Você é que tem que se ligar, não viu que a preferencial é minha?

– A preferencial é minha! Seu babaca!

– Babaca é a tua mãe, que fez um filho imbecil e cego no trânsito como você!

– Não fala da minha mãe!

– E se eu falar, você vai fazer o quê? Imbecil! Seu filho de uma P…

– Seu merda! Eu te avisei!!!

E um deles sacou uma pistola que até brilhava de tão nova. O outro fez a mesma coisa, e a pistola era igualzinha. Os dois tremiam apontando a arma um para o outro, foi aí que uma moça que via tudo ali, desceu do carro para acalmar os ânimos.

– Calma, calma gente, abaixem as armas, vamos conversar como gente civilizada.

– Eu sou civilizado, quem não é, é este babaca aí!

– Olha como fala, te dou um tiro bem no meio da testa!

– Calma gente, vocês vão acabar fazendo cagada por causa de uma fechada no trânsito, não sejam tongos!

– Tongo? Quem é tongo aqui, hein sua vadia???

– Ei, só quero ajudar, cuidado como fala comigo, mal educado!

– E o quê? O que você vai fazer?

Aí ela sacou um revólver da bolsa

– Vai acontecer isso aqui ó, um tiro nos teus cornos!!!

Disse ela apontando a arma para ele. Foi aí que um gari, que assistia à confusão enquanto varria a calçada, entrou na discussão e para terminar de vez com a briga antes que acontecesse uma tragédia por bobagem, tirou uma espingarda calibre 12 de dentro do carrinho de lixo, e balançando a arma de um lado para outro, deu a ordem.

– Vamo pará com essa putaria aqui! Todo mundo abaixando as armas agora!!!

Com isso, todos pararam por um instante e logo em seguida, como se tivessem combinado uma coreografia, de forma sincronizada, apontaram suas armas para o gari, e de forma uníssona, bradaram em coro:

– E você vai fazer o quê???

Vendo que a arapuca da desgraça estava armada, uma senhorinha que estava saindo da panificadora, tirou a dentadura da boca, guardou na sacolinha e rapidamente desmontou sua bengala, remontando ela como uma arma, que era um tipo de fuzil de uso militar, no caso, de uso geriátrico. Apontou para o tumulto e gritou.

– Chega, putada!!!

Um mendigo fez o mesmo, e como o Zorro jogando sua capa para o lado, jogou seu cobertor por cima do ombro, revelando estar com duas pistolas. Parecia um mexicano em um filme de bangue-bangue.

Um cadeirante que passava por ali e que via tudo, acionou um botão, fazendo com que sua cadeira virasse um tipo de transformer, com duas metralhadoras, uma bazuca, um lança-chamas e uma balestra atiradora de dardos com tranquilizante. Esta última ele usava para conter sua sogra no almoço de domingo.

– Parado aí!!! Gritou um deles, apontando a arma para o cadeirante, que ficou confuso, pois não sabia se isso era uma ordem, ou apenas uma colocação retórica.

Aparentemente, todo mundo alí tinha razão, e uma arma. A tensão havia tomado conta daquela encruzilhada curitibana e quando parecia que iriam entrar em um acordo, já abaixando as armas, ouve-se um tiro. (PÁ!!!), Aí começou um grande tiroteio.

Quando abriram os olhos, Estavam todos no purgatório, haviam se matado atirando uns nos outros. Estavam ali e ainda com arma em punho, os dois caras que começaram toda a confusão, a moça, o gari, a senhorinha que aparentemente em breve já estaria por ali mesmo, o mendigo, o cadeirante e um gordo careca, único desarmado e que ninguém lembrava dele na confusão, mas que também havia sido baleado por algum deles.

Depois de aguardarem um tempo, uma porta se abriu, e dela vinha uma luz branca muito forte, por onde saiu um anjo vestido de azul. O anjo pegou na mão do gordo careca.

– Vem comigo, Tião, você vai ficar bem.

– Mas e a gente? (Perguntou um deles)

– Vocês não sei, devem ficar aí um tempo, eu vim buscar só o Tião, que por enquanto, é o único que vai para o céu.

O Anjo pegou no ombro do Tião e foram conversando e caminhando em direção à porta aberta.

– Mas eu tô morto, mesmo?

– Sim, infelizmente você foi baleado no tiroteio e não resistiu, não lembra de nada?

– Na verdade disso não, só lembro que eu estava dirigindo meu fusca, levando ele para a oficina, pois tá com problema, aí só lembro de estar entrando no cruzamento da Lamenha Lins com a Doutor Pedrosa, bem na hora que meu fusca começou a falhar e a descarga começou a dar uns estouros, daqueles que parecem um tiro, não sei aqui, mas na terra todo mundo já ouviu um destes, enfim, a descarga do fusca estourou e quando vi, eu já estava aqui.

– Na verdade você entrou bem no meio de um tiroteio e acabou sendo baleado. Como você é o único que não matou ninguém, é o único que por enquanto vai para o céu.

– Sério?

– Sim, que merda isso que aconteceu com você hein!

– Pois é, é o que eu estava pensando nesse exato momento.

– No quê?

– Nesta coisa toda, Pqp, perdi! Se eu tivesse visto a briga antes, aí eu poderia…

– Ter desviado o caminho né?

– Não, não, aí eu poderia ter usado o revólver 38 novinho que estava no meu porta-luvas.  Perdi a chance! Perdi a chance! Pqp!!!

Aí o Tião pôs as mãos na cabeça, enquanto era reconduzido para a salinha do purgatório.

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