Por influência da Laerte | Jornal Plural
17 abr 2019 - 6h00

Por influência da Laerte

Zadra narra a história de Adamastor, ou melhor, Carmem. Ou será Adamastor mesmo?

Toda sexta-feira, sempre às 20h30 em ponto, tinha jantar em família na casa do Adamastor. Já eram 20h30 e o patriarca da família ainda não havia chego em casa, o que era estranho, pois religiosamente ele batia o ponto às 18 horas no escritório de contabilidade, dirigia por 12 quadras e ia direto para casa, o Adamastor nunca se atrasava. De qualquer forma, todos já estavam à mesa, menos o Adamastor. Quando o relógio marcou 20h45, a família começou a se preocupar, será que fora sequestrado? Será que bateu o carro? Tentaram ligar no celular, mas dava fora de área. Mas quem iria se interessar em sequestrar um funcionário de contabilidade? Um indivíduo notavelmente comum, que usava um blazer barato, cabelo lambido, óculos bifocal do tipo “fundo de garrafa”? O máximo de bem material que deixava à mostra era uma caneta no bolso, e mesmo assim era uma caneta Bic, que aparentemente tinha mais valor monetário do que o seu carro, um Ford Del Rey 86 marrom, que precisava de uma reforma, de novo. Não, sequestrado não, mas onde se enfiou o Adamastor?

Quando o relógio marcava 21 horas, todos ainda estavam na mesa, inclusive a comida que àquelas alturas já havia esfriado.

“Vou ligar para os hospitais!”

Disse dona Lurdes, esposa do Adamastor, que já tinha falado à mesa sobre sua preocupação com relação à segurança no bairro, pois naquela semana já haviam lhe roubado um vestido e roupas íntimas que estavam no varal.

Da direita para a esquerda, na mesa estavam dona Lurdes, a filha adolescente e caçula, Aninha, André que era o filho do meio, a filha mais velha Aline, ao lado dela e segurando o netinho no colo estava o genro Bruno e ao lado dele, na ponta da mesa estava a cadeira vazia que era o lugar sagrado do seu Adamastor. Que acabara de estacionar o Del Rey, fazendo a Dona Lurdes desistir da ligação e largar o telefone.

Quando ele entrou em casa, todos ficaram mudos, não era o Adamastor, na verdade era, mas não aquele que eles conheciam, ele estava totalmente diferente. Ele não estava usando seu terno batido, mas sim uma saia, sutiã com seios postiços, uma peruca que parecia cabelo natural que ia até a cintura (era até mais bonito do que o da Lurdes), brincos de argola, batom vermelho, cílios postiços e todo maquiado. Ah, e o vestido era aquele da sua esposa, o que havia sumido do varal, assim como o sutiã que ele estava usando.

E não era só a aparência, estava de mão dadas com o Sebastião, manobrista de carros do estacionamento ao lado do escritório.

Todos estavam boquiabertos e o silêncio predominava no ambiente, até que dona Lurdes, que nunca falava palavrão, quebrou o silêncio.

“Puta que o pariu! Mas que merda é essa?!!!”

“Ué, não tá vendo?”, disse o Adamastor, como se fosse algo normal.

Todos começaram a rir pensando que era brincadeira, menos o Adamastor, que continuava sério, e o Sebastião, que nitidamente estava envergonhado. Mas logo foram parando de rir, quando perceberam que era sério mesmo.

“Sogro, é sério isso?”

“Sim, agora você tem duas sogras.”

“Pai, como assim? E quem é este cara.”

“Isso mesmo que você está vendo minha filha, me descobri mulher e este é o Sebastião, meu namorado. Desculpe Lurdes, eu iria te contar antes, mas criei coragem só hoje.”

“Adamastor, nós somos casados há trinta anos! Como assim?”

“Chega de tanto ‘como assim’, não estão vendo? E parem de me chamar de Adamastor, agora meu nome é Carmem. Mas Lurdes, pode continuar me chamando de Dama, este apelido vou manter.”

“Mas querido, sempre achei que Dama fosse a abreviação de Adamastor!”

“É querida, não querido, e é Dama, porque sou Carmem, a dama da noite, pois uma vez por semana, de noite, saio escondido, me monto de Carmen e vou na Cats Club, uma balada LGBT que é o babado! Foi lá que conheci o Sebastião.”

“Balada? Babado? Em trinta anos de casados você nunca disse coisas deste tipo!”

O filho do meio se intrometeu:

“Pai, digo, Carmem, você tá usando drogas?”

“Se adesivo de progesterona for droga, sim meu filho, faz um tempo.”

A filha mais nova achou o máximo:

“Gente, se o papai quer ser mamãe, deixa ele! Olha a Laerte, fez isso e é feliz! Tem todo o meu apoio papai, digo, mamãe!!!”

Dona Lurdes ainda estava em pé e abismada.

“Então é por isso que você mija sentado?”

“Não, isso é por causa da próstata.”

“Eu tô vendo que você tá usando o meu vestido e meu sutiã, você também está usando a minha calcinha que sumiu?”

“Não, na verdade não tô usando nada por baixo, e nossa, que alívio, cueca aperra tudo, estrangula! Usar saia sem nada por baixo é incrível! Principalmente quando bate um ventinho, nunca mais vou usar aquele terno abafado! Me sinto livre!

“E este cara Adamastor??? Vocês está me traindo com este cara? Você está apaixonado?”

“Nada!”

“Ufa, por um instante achei que estava.”

“Não, nada porque é apaixoNADA que se fala e não apaixoNADO, ok Baby?”

“Baby é o cacete! Eu vou é te quebrar de pau seu filho de uma p…”

“É filha! Filha de uma …”

“Calma gente! Vamos nos acalmar.”, disse o genro,

O filho do meio, que era o mais cético dali, fez um desafio.

“Então tá, ‘dona Carmem’, se tudo isso não é uma piada e é verdade mesmo, então dê um beijo no teu ‘suposto namorado’.”

O Adamastor e o Sebastião se olharam, o silêncio e a tensão tomaram conta do ambiente, até que o Adamastor agarrou o Sebastião pelo colarinho e deu um beijo na boca dele, daqueles de tirar o fôlego, borrando todo o batom. Todos ficaram de boca aberta.

Dona Lurdes ficou ensandecida e começou a chorar.

“Eu vou embora Adamastor! Vou para a casa da mamãe! Eu quero o divórcio! Fica aí com seu namoradinho!!!”

E saiu batendo a porta.

“Já disse que não é Adamastor, é Carmen! Carmen! O Adamastor não existe mais, aceite!”

“Também tô fora, não vou fazer parte desta insanidade. Vem amor, pega o nosso filho, já chega, vamos embora agora!”

“Ok, ok. Foi mal aí sogrão, digo, sogrona. Tchau.”

O filho mais velho também saiu, mas sem falar nada. Sobrou só a filha mais nova que era a única que morava com eles.

“Papai, digo, Carmem, vou acalmar a mamãe lá na vovó. Segunda-feira eu volto. Prometo que vou passar o final de semana inteiro tentando convencer a mamãe a te aceitar como você é, tá bom? Te amo.”

Ela lhe deu um beijo, pôs de volta o fone de ouvido e saiu.

E assim, um por um foram embora, ficando no apartamento apenas o Adamastor, que agora era Carmem, e o Sebastião. Assim que todos saíram, os dois rapidamente largaram as mãos e limparam o batom borrado da boca. O Adamastor tirou a peruca e suspirou, tirou 100 reais do bolso e deu para o Sebastião, que questionou.

“Cara, eles foram embora! E agora?”

“Calma, segunda-feira eu desminto tudo.”

“Este beijo não era combinado, quero mais cinquentão. Precisava disso?”

“Desculpe, tive que improvisar.”

“Mas precisava ser de língua?”

“Tinha que convencer. E meu amigo, pra ficar o final de semana em paz e assistir meu time na final do campeonato de futebol, sem ninguém me enchendo o saco, vale qualquer coisa!”

“E se eles fossem mais além, tipo, se ao invés do beijo, eles pedissem que eu te comesse???”

“Meu amigo, eu disse qualquer coisa. Qualquer coisa!”

Na segunda, tudo voltou ao normal, menos uma coisa, o Adamastor nunca mais usou cueca.

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