O velório do Nestor | Plural
6 ago 2019 - 23h43

O velório do Nestor

Com o velório ainda lotado e a Sônia debruçada em cima do caixão fechado, o inesperado aconteceu

No velório do Nestor ninguém falava outra coisa, “como o Nestor, atento como era, não havia visto o caminhão?”. É que naquela mesma manhã, ao sair para trabalhar, Nestor fora atropelado na frente de casa, de tal forma trágica que ficou irreconhecível, tanto que foi reconhecido pela viúva, apenas por suas vestes, conforme relatado pela Sônia, a viúva.

No relatório da polícia estava lá: Nestor Gonçalves Ribeiro, casado, 43 anos, vestindo sapato, calça jeans e camisa polo verde, foi atropelado por um caminhão em frente a sua residência e reconhecido apenas por suas vestes, conforme relato de sua esposa, devido ao estado em que a vítima foi encontrada in loco.

O Nestor era bastante querido no bairro, por isso o velório estava lotado, mesmo tendo sido preparado às pressas e iniciado naquela mesma manhã.

– Que coisa trágica!

– Nem fale, logo o Nestor, tão atento como era.

– Pois é, pobre Nestor.

Outros até contavam histórias sobre a visão aguçada dele e como ele reparava em tudo, mesmo nas coisas pequenas.

– Lembra daquela vez que só ele viu a nota de dez reais no chão?

– Sim, isso que estava a trinta e cinco metros de distância!

– Como ele não viu o caminhão sem freio?

– Não sei, e dizem que o caminhão vinha buzinando de longe.

– Coitado do Nestor!

Várias hipóteses começaram a surgir.

– Dizem que ele tinha dívidas de jogo.

– Será que cometeu suicídio?

– É o que estão dizendo, e é bem possível que sim.

Outros já iam até mais além.

– Aposto que foi a Sônia que empurrou ele na frente do caminhão.

– Ué, e porque ela faria isso?

– Dizem que ela estava traindo ele com o Mariano.

– O mecânico da outra quadra?

– Não, não, o vizinho.

Mas uma coisa era unânime, todos ali gostavam do Nestor, que a única coisa que fazia era trabalhar e trabalhar, salvo às quartas-feiras, quando saia direto do escritório para jogar baralho com o pessoal do trabalho e voltava só tarde da noite.

– Sônia, desculpe a pergunta, mas os colegas de trabalho do Nestor não vão vir no velório?

– Acho que não, hoje é dia de jogar baralho.

– Mas nem pra virem no enterro de um amigo?

– A culpa é minha. É que com toda essa correria, só lembrei de avisar eles agora à noite. Hoje é quarta, é dia de jogatina e eles levam tão à serio o pôquer, que deixam os celulares desligados.

Mais tarde, com o velório ainda lotado e a Sônia debruçada em cima do caixão fechado, o inesperado aconteceu. O Nestor entrou pela porta da frente, e como todos os dias, falou em voz alta:

– Amor, voltei!

Nisso, o entrevero tomou conta do velório. Isso porque o Nestor estava parado bem na porta e ninguém conseguiu sair correndo e acabaram se e aglomerando no outro extremo da sala. Só que ele estava vestindo uma camisa polo vermelha, foi aí que todos entenderam que havia tido um engano por parte da Sônia, que jurava que ele tinha saído com uma camisa verde.

Enquanto as pessoas tentavam reanimar a Sônia para dar a boa notícia, pois essa havia desmaiado com o susto, o Mariano entrou pela mesma porta, passou pelo Nestor sem perceber quem era e já foi logo falando com as mãos na cabeça:

– Não aguento mais! Não aguento mais! Eu preciso confessar! Eu e a Sônia temos um caso há dois anos e todas as quartas à noite viemos traindo o pobre Nestor, que me considerava como amigo e agora está aí morto! Me perdoe vizinho! Me perdoe meu amigo!

Quando Mariano se deu conta, em meio ao silêncio, todos, inclusive o Nestor, estavam olhando pra ele com os olhos arregalados.

Muita gente ali já desconfiava que a Sônia vinha traindo o Nestor, o que ninguém imaginava, era que além de infiel, ela também era daltônica.

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