Ana Motosserra e o Bandido da Cueca Amarela | Jornal Plural
20 fev 2019 - 0h00

Ana Motosserra e o Bandido da Cueca Amarela

Fagner Zadra conta como uma aventura sexual terminou virando lenda numa cidadezinha do interior

Esta história é do tempo em que celular era apenas um telefone móvel e pouca gente tinha. O celular  só servia para telefonar, para enviar mensagem de texto curta – o que era caríssimo – e para jogar Snake. Não existia ainda WhatsApp, nem Facebook ou Instagram. Não tinha nem Orkut para deixar um depoimento na página inicial de um amigo. Um ponto de Internet era raro. Sim, ponto de Internet, para pôr o cabo, pois tô falando do tempo da internet discada.

Na cidadezinha onde aconteceu esta história absurda, mas real, nem havia ainda torre de celular e quem tinha um aparelho destes, só conseguia sinal se fosse no cemitério, que incorretamente ficava localizado no alto da cidade (hoje não pode mais).

Cidade pequena só é cidade se tiver pelo menos, além da prefeitura e de um cemitério, uma escola, uma igreja e um puteiro. Essa tem isso e fica no interior do interior e todo mundo sabe da vida de todo mundo por lá, e quem não sabe é só ir no boteco da esquina que vai ficar sabendo.

O personagem principal disso tudo fui eu mesmo.

Eu era um cara magro, com 19 anos à época, com bem mais cabelo loiro do que agora e para quem nunca me viu em pé, sou alto, e até que tinha uma boa aparência, me vestia bem e me dava bem com todo mundo ali naquela cidadezinha que, mesmo minúscula, não era erma, mas quase, inclusive, na época, 50% da cidade era asfaltada e os outros 50% eram de estradas de pedra solta e terrão, a tal “Estrada de Chão”. Guarde esse último detalhe, pois é importante nesta história, a história que gerou a lenda do Bandido da Cueca Amarela.

Ana, a outra personagem pivô desta história, também com 19 anos, tinha cabelos pretos, olhos claros, estatura mediana, corpão “de capa de revista” e comportamento libidinoso, fazendo jus ao seu apelido, que é, ou pelo menos era, “Ana Motosserra”, pois não podia ver um pau em pé que já queria derrubar. Ela era uma versão sulista da Tieta do Agreste, pois essa história se passa no interior do interiorzão do interior do Rio Grande do Sul.

Toda noite, a prefeitura da cidade levava e trazia o pessoal que estudava na universidade, que ficava numa cidade maior, a uns cinquenta quilômetros dali. O horário de chegada do retorno era 23h30.

Pois bem, eis que uma noite, vi a Ana Motosserra descendo deste ônibus. Como já eramos conhecidos um do outro – todo mundo lá era conhecido um do outro – trocamos uma ideia rapidamente, fazia tempo que estava de olho nela.

– Hoje não vai dar, no caso, quem não vai dar sou eu, pois agora, por causa da faculdade, estou ficando na casa dos meus avós e tenho que chegar logo.
(Ela morava mais longe ainda, num distrito dali).

– Não dá nada, vou lá, eu pulo a janela.

– Ficou louco? Não sabe da fama de matador que o vovô tem? Hoje não vai rolar.

– Juro que não faço barulho.

– Se o vovô te pegar lá dentro, ele te mata! Literalmente! Ele é paranoico porque já invadiram e roubaram a casa. Agora ele dorme com a espingarda do lado da cama.

– Ele não vai me pegar entrando, vou ser cuidadoso e silencioso, fica tranquila.

Falei isso dando uma piscadela, com um sorrisinho no canto da boca.

– Bem capaz! Não dá! E tem cachorro também, os vizinhos, não dá!

– Deixa a janela entreaberta, vou passar em frente, se estiver assim, já sei que posso tentar entrar.

– Eu disse que não!

Uma hora depois, passei em frente à casa e a janela estava entreaberta. Eu disse que ela fazia jus ao apelido. Estacionei meu Kadett 97 na rua de baixo, para “desbaratinar” a vizinhança.

Ahhh meu Kadett 97 prateado, teve tanta história com ele, que  ele mesmo é digno de uma biografia. Um dia ainda vou escrever o “Se Meu Kadett Falasse”.

Pois bem, com o carro devidamente escondido, agora era só pular a cerca, atravessar o quintal e literalmente partir para o abraço. O problema era o cachorro solto. Nunca fui bobo e naquele intervalo de hora, eu já tinha elaborado o meu estratagema. Passei em casa e peguei umas linguiças assadas, sobra de um churrasco. Joguei as linguiças para o cachorro, que parou de latir e ficou feliz, assim como eu, pois o latido já denunciava a minha presença na frente da casa que ficava de frente para rua. Todo mundo poderia me ver ali, tentando invadir a residência.

Com o cachorro dominado, pulei a cerca que era daquelas com grade lisa de ferro, mas era baixa, batendo na altura da minha cintura.

Fui pé por pé, até chegar próximo à janela, onde dei um assovio e o cachorro voltou achando que era mais linguiça para ele, mas o que eu tinha de linguiça não era mais para ele.

A Ana abriu a janela e, preocupada, mas feliz por eu estar ali, me ajudou a subir e entrar na casa, pois a janela era um pouco alta, porque a casa era de madeira e um tanto elevada do solo, daquelas que ficam com um vazio aparente de uns 50 cm entre o solo e o assoalho.

Entrei com tudo, na casa, é claro, aí fiz o que tinha que fazer ali, inclusive, algumas vezes, até porque eu tinha 19 anos, disposição e não tinha nada de calvície ou sinais da idade. Se fosse hoje, metade da minha energia seria gasta só na subida da janela. Se bem que se fosse hoje, por causa do deficiência, teriam que me jogar pela janela para dentro da casa, tipo um saco de batata.

Enfim, faceiro ao lado da Ana Motosserra, que insistentemente pedia desculpas porque o quarto que ela dormia ainda era provisório, pois ainda servindo como deposito, onde a avó dela guardava seus utensílios, como panelas, tachos e até uma velha máquina de costura. As vovós do interior sempre têm um quarto destes, onde acomodam os netos quando vão “posar” lá.

Lá estava eu, faceiro e pelado, no meio de um monte de utensílios domésticos.

Sou um sujeito corajoso, nunca tive medo de morrer, até aquele dia. Ouvindo o murmúrio, o avô dela acordou, e começou a andar em direção ao quarto. Eu sabia disso por dois motivos, primeiro porque a casa era de madeira e dava para ouvir os passos do velho vindo, depois, porque ela disse que era o avô certamente armado, vindo em nossa direção, e por fim, porque ele gritou:

– Quem tá aí???

O cara tinha fama de já ter matado alguns indivíduos que se atreveram a discutir com ele, e por motivos fúteis, Imagine o que ele faria se encontrasse um cara pelado dentro de casa, no meio da madrugada!

Quando ouvi o “Quem tá aí?”, meu coração veio parar na boca e meu espírito saiu do meu corpo, igual quando alguém toma um susto num desenho animado.

– Meu avô tá vindo, meu Deus, você precisa fugir.

– Não vai dar tempo nem de pôr a roupa, como vou fugir sem roupa? Faz assim, quando ele bater na porta, diga que era você ajustando o Walkman, sei lá.

– Mas o quarto não tem tranca!!!

– Nem uma tramelinha?

– Não!!!

– Quem tá aí??? (gritou o avô mais alto, dando inclusive para ouvir ele engatilhando a espingarda).

– Meu Deus, vai me matar. Até seria um herói entre os amigos, mas não quero partir desta vida tão jovem assim!

– Corre, se esconde dentro do armário.

Abri o armário e estava cheio de coisas perigosas, tipo vários facões e facas de tudo quanto é tamanho. Não dava para entrar lá daquele jeito, nu, e arriscar ser castrado dentro de um armário, pelas facas da vovó. E até hoje não sei porque aquela velha tinha tanta variedade de faca dentro de casa. Nem no filme Jogos Mortais, vi tanto tipo de objeto cortante assim.

O desespero tomava conta de nós dois a cada passo que o avô dela dava naquele piso de madeira, fazendo ranger.

– Corre, se esconde embaixo da cama!

Fui com toda a velocidade e vontade do mundo, me esconder debaixo da cama, onde estava cheio de panelas. Me “embolei” com as panelas, fez um barulhão e o velho gritou querendo saber o que era aquilo. Aí quando vi que ele se aproximou do quarto, com medo de ele entrar e me pegar daquele jeito, não pensei duas vezes, pulei pela janela absolutamente nu e me enfiei embaixo da casa, naquele espacinho. Fiquei imóvel, vai que o velho ouvisse minha movimentação e resolvesse olhar embaixo da casa. Eu não iria arriscar tomar um tiro na bunda, no mínimo na bunda, que de tão branca, dava para ver ela no escuro mesmo, não tinha como errar!

Nesse centésimo de segundo, ela escondeu as minhas roupas embaixo do edredom, para não dar flagrante.

O velho entrou com tudo no quarto.

– Quem tá aqui?

– Baixa esta arma vovô!

– Quem tá aqui?

– Não tem ninguém aqui vô!

– E a barulheira? E porque essa janela tá aberta?

– Não sei vovô, quando eu dormi estava trancada. Só acordei agora porque o senhor entrou aqui deste jeito. Não sei o que está acontecendo.

– Então com certeza era ladrão, deve ter corrido para os fundos do terreno, vou pegar!

Só que durante a conversa deles eu já tinha ido engatinhando, por debaixo da casa, justamente para os fundos dela. Ouvi tudo de lá. Aquele senhor falava gritando.

E eu tava lá, peladão, em pé, do ladinho da porta dos fundos, acho que era da lavanderia. Nesta porta, tinha uma foice pendurada, aparentemente bem afiada. Até pensei em usar ela como defesa, mas quem, em sã consciência, arriscaria enfrentar uma espingarda com uma foice?

Não dava, até porque não fiz nenhum curso no MST, e também porque, no caso de eu me dar bem no confronto, eu não iria querer ser preso por assassinato, pelo menos não pelado.

Mas o velho era corajoso e estava decidido à dar um tiro no tal ladrão.

Aí fui voltar engatinhando por debaixo da casa, até chegar na frente, para poder fugir. Quando fiquei de cócoras para entrar em baixo da casa, dei de cara com o cachorro, que estava bem bravo querendo mais linguiça, mas aquela que a lua estava mostrando não era para ele.

Eu de cócoras, cara a cara com o cachorro que estava babando e rosnando, o velho armado vindo e a vizinhança abrindo as janelas, pois naquela altura a avó também já havia acordado, assim como a tia da guria, e estava todo mundo gritando “pega ladrão!” Menos a Ana, que desesperada me chamava sussurrando pela janela do quarto, querendo me dar minhas roupas.

Não deu tempo, ouvi o velho correndo e quando fiquei em pé para sair correndo dele e do cachorro, ele chutou a porta que estava do meu ladinho. Com o chute, a foice se desprendeu da porta e caiu na minha direção, rente ao meu corpo, quase me castrando ali mesmo, na foiçada, ou no chutão de uma porta. Aquilo foi um prelúdio do que poderia acontecer em instantes, se o velho me pegasse. Eu gosto de ter meus órgãos genitais no lugar, então fugi.

Restavam poucas opções. Se eu ficasse, levaria um tiro, ou seria castrado por aquele velho maluco. Se me escondesse embaixo da casa, seria castrado pelo cachorro. Se fugisse pelos fundos do terreno, provavelmente não daria certo, pois lá estava cheio de implementos agrícolas, e um cara pelado, no escuro, no meio de um monte de implementos agrícolas, não dá certo. Restou apenas fugir por onde começou tudo isso, ou seja, correndo pela lateral da casa, onde tinha a janela do quarto, e correr para a frente da casa em direção ao carro. E foi o que fiz.

Saí correndo, a Ana Motosserra estava com as minhas coisas na janela, tentando me alcançar tudo, mas na passada e na corrida, só consegui pegar a cueca, uma cueca amarela quadriculada, mais nada. No meio da gritaria e na tentativa de voltar uns metros e pegar as roupas, vi o velho já apontando a espingarda na minha direção, não teve jeito, desisti das roupas e saí correndo só com a cueca na mão.

Como os vizinhos já estavam abrindo as janelas e poderiam me reconhecer – como eu disse, todo mundo conhecia todo mundo – ao invés de vestir a cueca, coloquei na cabeça, para tapar meu rosto. Muita gente conhecia o meu rosto, e pouca gente conhecia meus genitais, então, entre os dois, preferi esconder o rosto. E saí desesperado correndo completamente nu, com a cueca amarela na cabeça, como se fosse um herói mascarado pervertido.

Só que esqueci de um detalhe importante para a fuga, lembra da cerca de metal que batia na cintura? Então…

Uma fuga incrível. Eu pelado, com uma cueca amarela na cabeça, um cachorro correndo atrás, um idoso assassino e armado correndo atrás, e a vizinhança e os moradores gritando “pega ladrão”. A essa altura, até a Ana já estava gritando isso para não se complicar.

Mas qual é o maior problema disso tudo? Na correria esqueci da maldita cerca e bati com o quadril nela com tanta violência, que dei um rodopio no ar, tipo um mortal, e me estatelei no chão. Quase fiquei aleijado já naquela ocasião! Aleijado por “peladês”, existe isso? Quase existiu.

Não deu nem tempo de doer, quando ouvi o tiro, pois eu já estava na mira do velho, saí “catando cavaco”. Sorte que o velho estava sem óculos. Nunca corri tanto na minha vida, pelo menos não pelado e descalço na estrada de chão.

Corri para o meu carro, mas lembrei que eu não tinha a chave, tentei arrombar, não deu certo e eu precisava de mais tempo para o arrombamento, mas não tinha, pois já haviam chamado a polícia e já dava para ouvir a sirene. Então, respirei fundo, e saí correndo, agora também fugindo da polícia. Eu iria explicar o que, se até a guria que poderia me ajudar a explicar também já estava me chamando de ladrão, para não se complicar! Fugi pulando de terreno em terreno até chegar na casa de um amigo, só que este amigo havia alugado um quarto para o novo gerente do único banco da cidade, e foi justamente na janela deste quarto, que acabei batendo desesperadamente.

Depois de muita insistência pedindo para o meu amigo abrir a janela, de ter insistentemente chamado por ele, o cara abriu a janela. Aí descobri que não era o meu amigo e que eu não fazia ideia de quem era aquela pessoa. E o cara descobriu o que tinha ali fora, um indivíduo completamente nu, usando uma cueca na cabeça, todo sujo de terra e também todo cortado. Não é uma boa rolar nas pedras de uma estrada de chão, pelo menos, não pelado, machuca, não recomendo, a gente fica assim.

Depois de ficarmos nos encarando por um curto espaço de tempo, no desespero, rapidamente resumi para ele tudo o que aconteceu, a verdade toda, e por incrível que pareça, o cara acreditou. Pelo menos, deixou o peladão entrar para explicar melhor a situação. Até porque, convenhamos, que perigo ofereceria um sujeito naquela condição?

E depois de muito papo, de ter posto roupas emprestadas por ele e já estarmos dando risada da situação…

– Mais uma vez, mil desculpas, pois não sabia que o Márcio havia alugado o quarto e nem sabia que ele estava viajando. Os únicos caras que haviam me visto sem roupa eram os médicos e alguns amigos, como o Márcio, quando perdi minha sunga, num mergulho na piscina, esses dias atrás. Parabéns, agora você faz parte deste seleto grupo (risos) E obrigado por ter acreditado em mim, sem nem me conhecer.

– Eu sei quem você é, te reconheci na hora.

– Mas como, se você nunca me viu, e mesmo se já tivesse visto, eu estava com a cueca escondendo o rosto, como saberia?

– É que o Márcio me falou que tinha um amigo chamado Fagner.

– Tá, mas eu poderia ter mentido que meu nome é Fagner.

– Impossível.

– Como você tem certeza?

– É que ele me disse que esse amigo tinha a bunda mais branca que ele já tinha visto na vida.

Com isso, fui salvo pela falta de bronzeado.

E as minhas roupas, meus sapatos, minha carteira e a chave do carro? No dia seguinte estavam bem organizados na porta da minha casa.

Nunca mais passei em frente a casa dos avós da Ana Motosserra. A casa onde uma lenda foi criada. A lenda do Bandido da Cueca Amarela, que a partir de agora, quem ler isso aqui, vai saber quem era.

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