Orgulho | Jornal Plural
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29 jan 2020 - 23h42

Orgulho

A filha de Rosa, nascida e criada num quilombo, se formou em Direito na UFPR e agora se prepara para o mestrado

Conheci Rosa numa visita ao núcleo Assentamento Paiol de Telha, um dos quatro que compõe a Invernada Paiol de Telha, o primeiro quilombola titulado do Paraná. O quilombo tem uma história de luta e resistência que impressiona. Embora reconhecido pela Fundação Palmares em 2004, somente no ano passado o quilombo conseguiu, junto ao Incra, a titularidade de 225 alqueires, dos cerca de 2.900 a qual tem direito.

Rosa me explicava o significado da palavra Kolofe, escrita soberanamente numa faixa estendida em frente ao barracão Paiol das Artes, já tão surrado pelo tempo. A faixa é a primeira coisa que se vê logo quando se desembarca do carro. A segunda é um tronco de árvore, de uns dois metros, personificando, com vestes vermelha, espada e joias, a figura de Iansã, uma das divindades da religião africana. Kolofe, explicou-me Rosa, significa boas-vindas em Iorubá, um dos dialetos africanos. As boas-vindas dadas por uma mulher guerreira, que movimenta o vento, postada ao lado da faixa. Senti-me forte.

Durante a conversa, com direito a um bom café acompanhado por bolinhos de vinagre, fritados na hora pela tia de Rosa, ia conhecendo um pouco do quilombo e suas conquistas, assim como as particularidades de sua família. Em dezembro passado, Rosa esteve na formatura da filha, em Direito, pela UFPR, um curso praticamente dominado por uma sociedade branca de poder aquisitivo alto. Curso escolhido pelo filho do pai que se formou pela mesma universidade, e hoje tem uma carreira bem sucedida. A filha de Rosa, nascida e criada num quilombo, colou grau e agora se prepara para o mestrado.

Rosa exalava orgulho ao me contar sobre isso. “Não liga, não, eu tenho o maior orgulho dos meus filhos e adoro falar sobre eles. Eles são demais!”. Abracei-a e respondi: “eu sei bem como é, Rosa. Tenho dois filhos e eles me enchem de orgulho também”. Sorrimos em cumplicidade.

O que não disse para Rosa foi que a luta pelas conquistas dos meus filhos sempre foi fácil: brancos, sendo um de olhos azuis, estudaram a vida inteira em uma boa escola particular, que pode ser paga por seus pais, formados por uma boa universidade, o que lhe asseguram o ingresso à – no mínimo – classe média. Os meninos brancos tinham acesso a livros e sempre foram ouvidos. Nunca precisaram mudar de lado na rua por medo de reações alheias. Não precisam de tanto tempo pra explicarem que não tinham nada a ver com confusões, que por ventura ocorriam por perto, e tinham sempre a certeza de que encontrariam os pais ao final do dia.

Situação muito diferente dos filhos da Rosa. Negros e vivendo numa comunidade quilombola, acompanharam do barraco de lona preta, à beira de um barranco muito próximo a uma rodovia, a luta dos pais e de toda comunidade por terras que por direito lhes pertenciam. Nunca sabiam como seria o dia seguinte. Diariamente percorriam cerca de 18 km para chegarem até a escola e outros 18 km para voltarem. Aprenderam a se proteger de olhares tortos e gestos suspeitos, e dificilmente eram ouvidos, mesmo que gritassem. Representavam no silêncio as suas desconfianças à pessoas estranhas.

Entre o tempo dos nossos sorrisos cúmplices e o momento em que ela me contava da emoção da filha ao receber o diploma, analisei os dois casos antagônicos de orgulho de mãe. Eu devia ter falado pra Rosa tudo isso, mas não disse. Apenas a abracei mais forte e guardei o meu orgulho por vergonha da minha raça. A partir dali, o orgulho de Rosa passou a ser o meu também.

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