8 jun 2022 - 20h00

Mortalidade

Eu luto para encontrar as palavras para descrever adequadamente como é voltar para casa de férias. Para passar anos longe de pessoas que você costumava ver todos os dias

Nunca imaginei que fosse possível esquecer os nomes das ruas que tatuei na memória por vinte e quatro anos, mas quando me vi evitando buracos no asfalto percebi que minhas voltas e retornos não eram mais naturais. O lar não parecia tão familiar mais. Os braços de minha mãe sim, quando sai do elevador para o abraço dela. Ela parecia igual, o que me fez pensar que o tempo parecia parar enquanto estive longe.

O céu lá fora era cinza e as nuvens cuspiam chuva na calçada que aceitei completamente enquanto andávamos do terminal até o estacionamento. Minha mãe corria, a bolsa sobre a cabeça, reclamando que era feita de açúcar e a chuva a derreteria. Ela então me amaldiçoou por trazer o clima irlandês para casa comigo. Sorri enquanto meus cabelos grudavam em minhas bochechas.

Meu quarto na casa de minha mãe estava intocado, como uma espécie de santuário, ou talvez uma tumba. Tudo exatamente como deixei, exceto, claro, a minha cama arrumada que certamente não era como eu havia deixado. Os quadros nas paredes estavam empoeirados e enquanto os limpava deixei a nostalgia me envolver e me levar ao passado. Eu me senti mergulhando nas memórias que este lugar contém. Aprender a andar, andar de bicicleta e dirigir. Fazer amigos, perder alguns, fazer outros. Anos de escola e algumas formaturas. Meu próprio livro de história pessoal.

A casa estava igual também, com a adição de algumas plantas mais que minha mãe de alguma forma nunca matou, uma habilidade que queria ter herdado dela. Nós nos sentamos na mesa da cozinha e jogamos cartas, bebemos vinho e contamos uma para outra as novidades de nossas vidas. Sentávamos lá fora quando o sol finalmente ganhava a guerra contra as nuvens. Os coelhos haviam comido os pés das árvores dela de novo, vovô e vovó ainda estavam bem, ela e meu padrasto se divertiram no México. É um sentimento estranho ser informada de coisas tão mundanas quando estas costumavam ser conversas diárias durante o café da manhã.

Ver meus avós foi o mais difícil. Diferente de minha mãe, pude ver os sinais de envelhecimento em seus rostos. Pude ver minha avó andando com uma bengala e perceber a incapacidade de meu avô de ouvir. Suas mentes estavam bastante intactas, mas é a percepção saber que enquanto você envelhece, também envelhecem todos em torno de você. Não estou ainda pronta para aceitar isto.

Conversamos sobre hockey, qual time meu avô acha que irá ganhar a copa e sobre meus primos distantes que estão se casando e quanto tempo minha avó acha que cada casamento irá durar. Olhamos fotos de bebê que não consigo aceitar que tenham vinte e cinco anos.

“Lembra quando tiramos essa?”

“Não, não lembro.”

Era como se tivéssemos vivido mil vidas nos últimos anos e minha mente parece estar perdendo o frescor. Nunca havia pensado muito sobre mortalidade.

Ver meus amigos era mais fácil. Houve formaturas, separações e novos lares, mas todos pareciam iguais. Eles sentiam o mesmo. Sentar ao redor de uma mesa com eles depois de anos sem ver alguns, era como se o tempo não tivesse passado. Por um momento, tinha dezenove anos novamente, sem contas e responsabilidades. Acolhi o sentimento, pisando nele. Jogamos beer pong, tomamos shots, comemos petiscos e eu fumei cigarros mesmo tendo parado pela centésima vez. Foi o mais jovem que me senti em muito tempo.

Fui a um casamento de um amigo com quem me formei na universidade. Um grupo de nós se encontrou e tomou uma bebida ou duas antes de sairmos para a cerimônia. Todos formados em educação, todos passaram a ocupar cargos permanentes. Eles passaram a vida fazendo o que passaram anos estudando na escola.

“Você já pensou em usar seu diploma de professor por lá?” um deles perguntou.

“Talvez um dia, mas ainda não. Ainda estou tentando me estabelecer como escritora.”

Mas eu não estava escrevendo. Eu estava trabalhando tarde da noite em um bar servindo cervejas para pessoas que mal diziam obrigado. Passava meu tempo livre tão exausta que não conseguia encontrar coragem nem motivação para sentar no meu laptop e criar. Sempre achei que estava tudo bem, ainda sou jovem, tenho muito tempo para alcançar tudo o que desejo. Eu não queria dizer a eles que tinha começado a me corroer como vermes na carne. Que eu podia sentir o tempo se movendo enquanto eu permanecia completamente imóvel. Todo mundo sabia que o motivo de eu ter ido embora era para passar meus dias escrevendo, e eu não podia suportar dizer a eles que temia ter perdido essa parte de mim. Então eu sentei e os ouvi falar sobre boletins e reuniões de professores e alunos e tentei não me sentir deixada para trás.

No dia seguinte eu era uma turista na minha própria cidade. Ela havia mudado na minha ausência e eu queria experimentar a novidade. Desci as ruas laterais até me perder e bebi nas novas cervejarias. Andei pelos mercados e percorri o perímetro, como já havia feito milhares de vezes. Eu cantava porque estava sozinha no meu carro e podia. Abri o teto solar e dirigi mais rápido do que deveria. Fiquei maravilhada com a escala dos prédios que não existiam quando morei lá alguns anos atrás e não conseguia entender como eles surgiram tão rapidamente. Era um verdadeiro marcador do que poderia ser realizado em um determinado período de tempo, e eu não tinha certeza se isso me assustava ou me acalmava.

Eu luto para encontrar as palavras para descrever adequadamente como é voltar para casa de férias. Para passar anos longe de pessoas que você costumava ver todos os dias. Passar os dias vagando e vagando porque todo mundo ainda está trabalhando nos mesmos empregos de antes. Todos eles têm suas vidas diárias regulares para viver e eu estrangeira. Eu sou a peça que mudou enquanto todo o resto permaneceu o mesmo.

Visitar meu pai foi tranquilo, pois nunca fomos próximos; o tempo que passávamos juntos com conversa fiada na garagem, fumando cigarros e cerveja enlatada. Ele vendeu seu apartamento e vai acampar neste fim de semana. Estou escrevendo contos e voando para Londres. Parecia um pouco mais natural ser uma estranha com ele. O cabelo loiro que ele estava tão orgulhoso de manter com a idade finalmente começou a ficar grisalho, e eu podia ver as linhas em seu rosto se aprofundando. Essa é a coisa com a idade, você não percebe isso acontecendo no dia a dia tão facilmente quanto ano após ano. O tempo parece passar mais rápido quando você não quer também. Eu sempre soube que o universo pode ser cruel.

No penúltimo dia fiz pierogis com minha avó. Vi suas mãos tremerem enquanto seus dedos as fechavam. Eu a ajudava quando precisava descansar e tentava não pensar no fato de que ela costumava fazer isso por horas a fio, pelo menos uma vez por semana. Sua respiração ficou pesada e eu sabia que ela estava lidando com uma dor que eu não conseguia entender. Meu avô ficou ao lado do fogão encarregado de cozinhar. Ele se mexeu enquanto conversávamos e notei que sorriu e acenou com a cabeça quando não conseguiu ouvir o que eu estava dizendo e não queria me pedir para repetir. Minha avó me deu sua receita para ter certeza de que eu tinha. Ela caiu em prantos enquanto eu a abraçava e meu avô mantinha um rosto corajoso. Rezei para que não fosse a última vez que os visse.

Enquanto minha mãe me levava de carro para o aeroporto, senti o peso de uma forte sensação de finalidade. A viagem acabou e eu não sabia quando voltaria, ou quem ainda estaria lá quando eu voltasse. Tentei memorizar cada rua que passamos e olhei para minha mãe o máximo que pude. Ela me deixou no aeroporto, tirou minha mala do porta-malas e me deu um abraço de despedida. Quando ela sorriu para mim, notei as rugas fracas ao redor de seus olhos.

“Eu te amo.”

“Eu também te amo docinho.”

Fui à mercearia comprar farinha, queijo e batatas após o desembarque. Peguei a folha de papel manchada de óleo e li as letras cursivas que a cobriam. Enquanto minhas mãos começaram a amassar a massa, li a página várias vezes, tentando memorizá-la para que não se perdesse, pelo menos não por um tempo.

Tradução: Rosiane Correia de Freitas


Mortality

I never imagined it possible to forget the street names I had tattooed in my memory for twenty four years, but as I found myself dodging potholes in pavement I realized my twists and turns were no longer second nature. Home didn’t feel so familiar anymore. My mothers arms did though, as I stepped from the escalator into her embrace. She looked the same, which made me think that time seemed to stop while I was away.

The sky outside was grey and the clouds spit rain on the sidewalk that I fully embraced as we walked from the terminal to the parking lot. My mother ran, purse over head, complaining that she was sweet as sugar and the rain would make her melt. She then cursed me for bringing the Irish weather home with me. I smiled as hair clung to my cheeks.

My room in my mothers house laid untouched, like a sort of shrine, or maybe a tomb. Everything exactly as I had left it, except of course for my bed being made which most definitely wasn’t my doing. The pictures on the walls were dusty and as I cleaned them off I let nostalgia wrap its fingers around me and pull me into the past. I felt myself drown in the memories that this place held. Learning to walk, ride a bike, and drive. Making friends, losing some, making more. Years of school and a few graduations. My own personal history book.

The house looked the same as well, give or take a few more plants that my mother somehow never killed, a skill I wish I inherited from her. We sat at the kitchen table and played cards, drank wine, and informed each other on everything new in our lives. We sat outside when the sun finally won the war with the clouds. The rabbits had eaten the bottom of her trees again, grandma and grandpa were still doing well, her and my step dad had a lovely time in Mexico. It’s the strangest feeling catching up on such mundane things when these used to be everyday conversations had over a morning cup of coffee.

Seeing my grandparents was the hardest. Unlike my mother, I could see the signs of age in their features. I could see my grandmother walk with a cane and notice my grandfathers inability to hear. Their minds were still very much intact, but it’s the hardest realization that as you grow older, so does everyone else around you. I’m still not quite ready to accept that.

We spoke about hockey, which team my grandfather thought would win the cup, and about my distant cousins getting married, and how long my grandmother thought each of them would last. We looked at baby pictures that I couldn’t fathom were over twenty five years old.

“Do you remember when this was taken?”

“No, I don’t.”

It was as if I’d lived a thousand lives over the years and my mind seemed to be losing it’s freshness. I’d never thought so much about mortality.

Seeing my friends was the easiest. There had been graduations and break ups and new homes, but everyone looked the same. They felt the same. Sitting around a table with them after not seeing some for years, it was as if no time had passed. For a moment, I was nineteen again, with no bills and responsibilities. I welcomed the feeling, treading in it. We played beer pong, took shots, ate snacks and I smoked cigarettes even though I quit for the hundredth time. I felt the youngest I had in a while.

I went to a wedding for a friend I graduated university with. A group of us met up and had a drink or two before we left for the ceremony. All having degrees in education, every one of them went on to get permanent positions. They spent their lives doing what they spent years in school studying.

“Do you ever think about using your teaching degree over there?” One of them asked.

“Maybe one day, but not yet. I’m still trying to make it as a writer.”

But I wasn’t writing. I was working late nights in a bar pouring pints for people who barely said thank you. I spent my free time so exhausted that I couldn’t find the courage nor the motivation to actually sit down on my laptop and create. I always thought it was fine, I’m still young, I have so much time to achieve everything I yearn for. I didn’t want to tell them that it had started to eat away at me like worms in flesh. That I could feel time moving while I stayed completely still. Everyone knew the reason I left was to spend my days writing, and I couldn’t bear to tell them I feared I had lost that part of myself. So I sat and listened to them speak about report cards and student teacher meetings and tried not to feel left behind.

The next day I was a tourist in my own town. It had changed in my absence and I wanted to experience the newness. I drove down side streets until I was lost and drank in the new breweries. I walked around markets and travelled the perimeter, as I had thousands of times. I sang because I was alone in my car and I could. I opened the sunroof and drove faster than I should have. I marvelled at the scale of the buildings that didn’t exist when I lived there a few short years ago and couldn’t fathom how they came to be so quickly. It was at true marker of what could be accomplished in a certain amount of time, and I wasn’t sure if that scared or calmed me.

I struggle to find the words to properly describe what it’s like to come back home on holiday. To spend years away from people you used to see everyday. To spend the days drifting and wandering because everyone else is still working the same jobs they used to. They all have their regular every day lives to live and I’m what’s foreign. I am the piece that changed while everything else stayed the same.

Visiting my father was uneventful as we were never the closest; our time together spent with small talk in the garage over cigarettes and canned beer. He sold his condo and is going camping this weekend, I’m writing short stories and flying to London. It felt a little more natural being strangers with him. The blonde hair that he was so proud of keeping with age had finally started to grey, and I could see the lines in his face deepening. That’s the thing with age, you don’t notice it happening day by day as easily as you do year by year. Time seems to move fastest when you don’t want it too. I’ve always known the universe could be cruel.

On the second to last day I made perogies with my grandmother. I watched her hands shake as her fingers pinched them shut. I helped when she needed to rest and tried not to think about the fact that she used to be able to do this for hours at a time, at least once a week. Her breathing grew heavy and I knew she was working through pain I couldn’t understand. My grandfather stood by the stove and was in charge of boiling. He stirred as we spoke and I noticed that he smiled and nodded when he couldn’t hear what I was saying and didn’t want to ask me to repeat myself. My grandmother gave me her recipe to make sure I had it. She broke down in tears as I hugged her goodbye while my grandfather kept a brave face. I prayed that wouldn’t be the last time I saw them.

As my mother drove me to the airport I felt weighed down by a heavy sense of finality. The trip was over and I didn’t know when I’d be back, or who would still be there when I was. I tried to memorize every street that we drove down and I looked at my mother as much as I could. She dropped me at the airport, got my suitcase out of the trunk, and hugged me goodbye. When she smiled at me, I noticed the faint wrinkles around her eyes.

“I love you.”

“I love you too, sweetie.”

I went to the grocery shop to buy flour, cheese and potatoes after landing. I pulled out the oil stained sheet of paper and read the cursive letters covering it. As my hands began to knead the dough I read the page over and over again, trying to commit it to memory so it wouldn’t be lost, at least not for a little while.

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