LIA | Jornal Plural
Clube Kotter
15 jan 2019 - 0h00

LIA

Tradutor e contista premiado, Caetano Galindo encara um novo desafio: escrever um romance publicado em capítulos semanais. O livro conta a história de uma mulher, Lia, em cenas isoladas, como fotos de um álbum. Hoje, o Plural publica o primeiro capítulo.

Cada um de nós é tanto impossível quanto inevitável

Hope Jahren

All are heartily welcome to the feasting of the brave

Romances podem ser como filmes. Este é como um álbum de fotografias.
Como fotos, os capítulos podem ser lido por si sós. Como álbum, o romance pode ser lido em qualquer ordem: o que lhe dá sentido (nos dois sentidos) é a vida que registra.
Lucília Paula Kappelhoff, a Lia.

Capítulo 1

Veja bem. 

Você olha só o que te cabe, e vai enxergar apenas o que puder. É sempre agora, veja bem.

Mas a datação dessa cena é imprecisa. Pode provir do final dos anos 20, de meados dos 60, começo dos 70 ou mesmo do século 21. Pouca coisa ajuda a definir. O casal está sentado à mesa da cozinha, mas casais, cozinhas e mesas são coisas de certa estabilidade. Houve e haverá  casais. E mesas, cozinhas. E o restante do ambiente não ajudaria a identificar um período. Você está vendo apenas o que interessa, e vai ficar sabendo somente o que precisa ver.

De início estão sentados. Mais ou menos de frente um para o outro, malgrado o redondo da mesa. Não parece que se trate ou se tenha tratado de uma refeição. Nada sobre a mesa. Nada na pia logo ao lado.

Mesmo o horário do dia é incerto. Luz interna. Interior.

De início estão os dois sentados e ela fala alguma coisa em voz mansa. Fala contida, sem praticamente erguer os olhos da toalha. Sem se dirigir a ele. Marido. 

É o marido. 

As alianças iguais, curiosamente usadas no dedo ‘errado’, bastariam para deixar clara a ligação dos dois, não fosse o fato de que toda a linguagem corporal ali delata corpos cujas linguagens são mutuamente conhecidas há não pouco. Casal. A aliança fica devidamente estabelecida.

Ela fala por alguns minutos. Sem quase erguer os olhos. Quase. Contida. Mandíbula travada, queixo no peito. Quase.

Ele, enquanto isso, irrequieta-se. Começou com expressão curiosa. Que passou a apreensiva e se mudou em chocada. E agora parece beirar a raiva. Ele não parece saber lidar com o que ela está dizendo. Aquela mão no cabelo o tempo todo. 

E abriu mais um botão da camisa. 

Arregaçando agora as mangas. Ele parece, melhor dizendo, parece não saber lidar com o mero fato de ela estar falando. O que está dizendo talvez lhe seja de menor importância. Não é nem mesmo simples garantir que depois de alguns minutos esteja ainda ouvindo realmente o que a mulher lhe diz. Ele agora vive a fúria.

Ela terminou. 

Pronto. Disse o que tinha a dizer. Enxugou uma única lágrima no canto do olho esquerdo com aquele dedo errado de levar uma aliança. Engoliu duro. Pesado. E lenta levantou os olhos da toalha.

Ele, nesse momento, tinha as duas mãos como que cravadas na cabeça, unhas perdidas entre os cabelos, veias, nervos saltando nos braços que a camisa arregaçada punha expostos. Veias saltadas na testa entre os dedos nervosos.

A cadeira, o encosto do cadeira bateu no balcão que ficava a quase um metro, tamanho o empurrão que ele lhe deu ao levantar bruscamente e bater com as duas mãos espalmadas na mesa. Uma, duas três vezes, ainda sem dizer palavra.

Olhos cravados na esposa, começou a estender o braço direito e se conteve, segurando-o com a mão esquerda crispada, e levando de novo os dedos à cabeça. Agora ao rosto. Fez meia-volta, deu-lhe as costas, gritou para o teto. Nenhuma palavra articulada. Mero grito. Uma boca escancarada, uns olhos apertados e um pescoço… um pescoço que era apenas veias, cabos, tendões e nervos, tensão.

Ela ficou legitimamente assustada. Quase deu um salto para trás, mas sua cadeira estava contra o canto da cozinha. Ela estava como presa, o que pelo menos evitou, naquele momento, que caísse. Mas restava presa.

Os próximos poucos minutos foram muitos. Ele andava pela cozinha, ainda gritando, batendo portas, chutando móveis. Entre ela e a porta: única saída. Mas agora os gritos diziam coisas. E as coisas eram contra ela. Arremessadas contra ela. Que restava de olhos imensos, queixo caído.

Só que à medida que aquilo se prolongava, seu olhos, sua boca se recompuseram. E no lugar do choque, no lugar do pasmo ela foi sendo tomada por uma gigantesca tristeza. Decepção. Frustração. Sua cabeça, enquanto ele batia a mão aberta nos azulejos, ou fechada, nas portas dos armários (que saltavam novamente abertas assim que fechavam com estrondo), sua cabeça foi começando, foi começando a oscilar, a oscilar de um lado a outro, de um lado a outro, lentamente. Lentamente dizendo que não.

Com clareza.

Muda, mas Não.

E quando ele voltou à mesa, pesou de novo as mãos imensas no tampo e baixou o corpo todo como que para encará-la firme do outro lado, suado, amarrotado, descomposto, ela estava calma. Firme. Via bem. Já mal queria saber.

E calma, calma, calmamente, disse apenas. — Ela nem é tua filha, cachorro.

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