Lia - Capítulo 95 | Jornal Plural
16 jul 2020 - 19h48

Lia – Capítulo 95

Onde Lia tira os pés do chão

O espaço entre eles vinha diminuindo constantemente. De metros na sala de aula a centímetros nos corredores. Semana a semana. Agora dia a dia. Na véspera anterior, numa hora de se despedir, o rosto do menino tinha de fato tocado o dela, quente, macio, e demorado um nada a mais do que o necessário para se afastar. Hálito doce. Um estremecimento do ar em torno.
Agora estavam sozinhos.

Naquele momento estavam sozinhos naquele lugar. Ela hoje não consegue lembrar. Como se a cena toda tivesse se apagado. Ela mal tem uma lembrança geral de todo ambiente. Que lugar. Sensação de luzes apagadas, sons abafados, transformados no zumbido distante e compactado de uma estrada muito longe. Hoje, ela precisa das fotos para sequer lembrar do rosto do menino.

Mas ao mesmo tempo parece capaz de quase sentir com os dedos a presença, o formato, a tensão, a densidade e o calor do espaço delimitado pelo rosto dele ao se aproximar do seu. Sente de novo a pulsação das veias na boca, como sentiu na hora, e pensa sentir que esse movimento vinha também dele, ao mesmo tempo. Parece poder tocar com os dedos a pressão do ar que se comprime entre os dois à medida que se aproximam.

Dedos que de fato estiveram ali, quase entre os dois, num gesto um tanto incerto de subir por tocar aquela pele, da mandíbula até orelha, roçando o cabelo fino, um gesto que por meros instantes quis se ver como alerta, impedimento, barreira, mas que, desviado pelo corpo do espaço apertado entre os dois se fez afago de dedos que aos poucos se entreabriram para tocar mais daquele rosto, se abriram exatamente ao mesmo tempo em que se abriam os dentes.

Aqui ela certamente já tinha os olhos fechados.

E é assim que lembra de tudo. No escuro. Ela toda feita tato e palato. Ele era mais baixo. Eles todos eram mais baixos.

O primeiro toque foi do lábio superior que mal roçou o dela, quase um nada, gerando no entanto uma curta inspiração repentina. Um quase susto. Aspiração. No minúsculo, mínimo instante seguinte aquele lábio já tocava nos dentes de Lia, enquanto os dela tremiam e sentiam de pronto o contato de toda a boca do menino já sem rosto, enquanto o lábio inferior de Lia se sentia preso entre dentes lisos e úmidos. Contente.

Não era um beijo.

Não ainda.

Pode ser que ele já achasse que sim. E que pronto. Estava imóvel. Vibrava aceleradamente. Tinha mãos?

Mas não era um beijo.

Lia soube. E sem saber como soube, soube o que lhe cabia.

Foi ela quem seguiu adiante. Foi ela quem saiu por entre os dentes no momento exato em que saía também seu alento preso desde antes. Leve, também ele adocicado, quase certo. Foi ela quem saiu por entre os dentes sem chegar entre seus dentes por roçar em outra boca, aquele lábio ali entre os seus. Saliva, viva, movimento, uma carícia incerta em toques breves, como testes, na ponta da língua. E foi como se o menino derretesse.
Lia lembra de cada detalhe deste mero menos que um segundo. Que sentiu como se voasse.

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