Lia - Capítulo 76 | Jornal Plural
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14 out 2020 - 10h43

Lia – Capítulo 76

Onde Lia não sai de cena

Os aplausos tinham acabado não de modo brusco, mas com aquele corte que primeiro deixa duas, três pessoas sozinhas batendo palmas. Sempre difícil determinar quem foi o último a aplaudir. Quais foram as duas últimas mãos a se juntar. Talvez como sempre a coisa tenha tendido ao som de uma única mão.

Luzes acesas desde o fim do bis, plateia toda à vista para que do palco se pudessem ver os rostos, os sorrisos, os olhares de carinho e agradecimento. Alguns desses olhares se mantinham mesmo agora, momentos depois. Durante conversas com acompanhantes, gestos lentos e meio desordenados de pegar um casaco, juntar uma bolsa, dobrar um programa. Outros desapareceram em instantes, trocados pelo foco vago de quem voga rumo à porta. Pensando no horário do ônibus, do estacionamento.

O ruído dos passos dos espectadores, engargalados nos estreitos corredores, esperando aquela eterna senhora obesa, o incontornável adolescente desligado, era muito menos evidente que o som dos pés dos músicos, mais de uma centena, que seguiam todos pelo palco largo antes de encontrarem seu próprio funil numa das duas portas laterais, nos fundos, que lhes davam acesso aos bastidores.

A madeira do palco, alçapões escondidos, o peso dos instrumentos que alguns dos músicos carregavam (o coro era quase tão grande quanto a orquestra), o necessário arrastar de estantes de partituras e cadeiras para permitir a passagem, tudo gerava um caos considerável, quase desconsiderado, no entanto, pelos espectadores, que equivocadamente (na ausência de uma cortina) imaginavam que o espetáculo tinha se encerrado.
Ignoravam também que os olhares dos músicos, no palco, eram muito mais felizes que os seus. Na média. Digamos.

Um violinista tropeçou na perna de uma cadeira. A mocinha da primeira fila, a quem o regente entregara o buquê de flores que recebeu no palco, tinha um sorriso gigantesco, e seu namorado olhava preocupado para a chave do carro, que já tinha na mão.

Quatro moças com ar muito cansado seguravam abertas as portas do auditório, sem trocar palavra, mas com olhares que, afeitos a todo o ritual, já conheciam sem nem mesmo reconhecer. Do lado de fora, ao perceber a movimentação no átrio do teatro, taxistas começavam a se mexer, prontos para abrir a porta para alguma senhora obesa ou certo adolescente desligado. Na praça, logo em frente, dois pombos retardatários ciscavam a calçada sem nada saber de Beethoven.

As fileiras de poltronas iam esvaziando com o fluxo de espectadores que rumavam para os corredores. Quem estava mais no atrás pôde sair mais rápido e as fileiras mais próximas do palco tinham o passo travado pelo congestionamento dos corredores laterais. Daí que quando a trompista chegou à metade do palco e olhou para a plateia, viu um vê de poltronas de veludo que se abria da primeira fileira até a última, como o foco de um holofote vermelho.

Na última fileira do fundo, bem no centro, cercada de assentos abandonados Lia, cabeça baixa, chorava convulsivamente.

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