Lia - Capítulo 67 | Jornal Plural
Clube Kotter
1 abr 2020 - 12h39

Lia – Capítulo 67

Onde Lia dá o que não tinha a quem o deu sem saber

A semana tinha sido um inferno. Não apenas eram os primeiros dias em que ela estava de novo sozinha para cuidar de tudo, mas o mundo tinha se esmerado para demonstrar sua capacidade de frustrar, irritar, atazanar a mais calma das Lias. Que não era sempre a nossa Lia.

Era sexta-feira, cúmulo de todo o cansaço. Lia precisava acima de tudo dormir tranquila. Esticar as pernas, descansar bastante. Descansar bastante. O que ela não precisava ter naquele momento na vida era: um pano sujo de vômito cor-de-rosa.

Terminou de enxaguar pela última vez o pano e voltou para o quarto. Quem é que teria dado leite com aquele treco de morango para a menina. É isso que dá deixar a filha de tarde. Mas a escola estava fechada, e Lia não tinha feriado. Não teve escolha.

A menina nunca tomava esse tipo de coisa. Cheia de química. De coisa ruim. Deve ter caído muito mal.

Enquanto Lia secava as mãos com a toalha que trouxe do banheiro, olhava para a coitadinha na beira da cama. Pijaminha limpo, só sujou o chão, a bonitinha. Aquela cara de sofrimento, chorando de dor e de susto. Cabelinho emplastrado, grudado na testa. Um bico gigante e trêmulo. Rosto lavado de lágrimas e as duas mãos estendidas na direção da pessoa cansada, mirrada, esfalfada que acabava de torcer vômito rosa de um pano velho esfarrapado.

Lia pegou a menina chorosa no colo e foi com ela para sua cama. A cama de casal. Antiga cama do casal.

Enxugou suas lágrimas com as mãos. Tirou seu cabelo do rosto enquanto a criança soluçava de dor, chorando baixinho. Lia se estendeu ao lado dela na cama. Cansaço. Pôs a mão na barriga da filha e sentiu. Sentiu os músculos retesados, as convulsões do intestino ali por dentro. Sentiu aquilo e ficou emputecidíssima com a própria mãe. A menina estava sofrendo por causa daquela merda que a mãe deu pra ela. O treco nojento estava se revirando dentro daquela barriguinha miúda, que ela conseguia cobrir com uma só mão.

Encostou a boca na orelha da filha e começou a sussurrar algum qualquer coisa. Tudo bem, fofinha. Vai ficar tudo bem. Enquanto pensava que tinha esquecido de trazer um balde para deixar do lado da cama. Não vomite de novo, querida, que a mamãe vai ter que enxugar o chão outra vez. Vai ficar tudo bem, meu amor. Já passou. Passou. Tentar dormir, estrelinha. Tenta dormir que já passa.

E a barriguinha, empedrada, como que transmitia pelo braço de Lia uma vontade imensa de chorar. De chorar por si própria, pela filha, pela mãe, pelo fim do casamento. Por estar sozinha cheirando a vômito rosado, responsável inteira por aquela vidinha frágil, por aquela barriga em revolta.

Respirou fundo quando percebeu que apesar de tudo a sua voz estava tendo um efeito calmante na menina. Aquela voz que vinha de um lugar onde não havia calma alguma. Mas a menina nada sabia do mundo adulto. Sabia só que a mãe estava ali com ela. Presa a ela pelo cordão umbilical daquele braço fino.

E Lia foi ganhando da filha a calma que a filha achava que ganhava dela.

E sua mão foi relaxando e adquirindo da dor a capacidade de curar a dor. A calma que podia então tentar passar à menina, o consolo contra toda a injustiça, toda a dor do mundo.

A barriga, quentinha, foi se acalmando. A voz, baixinha, seguia sussurrando.

Eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo.

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