Lia - Capítulo 65 | Jornal Plural
25 jun 2020 - 15h19

Lia – Capítulo 65

Onde Lia nem dá as caras

Pode ser que o sentido das narrativas de ficção seja apresentar uma versão da vida vivida, da vida de cada um de nós, que possa ser reconhecida como diferente, mas que ao mesmo tempo consiga ser lida como parecida. Porque então você pode usar as capacidades que desenvolveu no dia a dia, e emparelhar a tua mente com a daquelas pessoas criadas.

Isso já estaria um passinho à frente daquela ideia tão famosa, de que as histórias inventadas servem para nos transportar para lugares diferentes, e nos fazer viver coisas que não cabem no nosso mundo. Pode ser isso, mas pra quê? E tem que se resumir a isso? Só para você ir passear na ilha deserta e viver aventuras impossíveis através de outra pessoa?

E aquela ideia servia pra dar alguma finalidade diversa. E além de tudo tirava da experiência de ler, essa aura de completo escapismo, de querer simplesmente não se estar onde se está. Eu, quando leio, nunca estou ali a passeio.

Em algum momento da vida, talvez lá perto dos vinte anos, eu li um texto de um romancista italiano, no entanto, que era uma severa admoestação (ao mesmo tempo em que era uma piada, e uma vingança) contra o quanto nós cobramos verossimilhança da ficção. O argumento do texto era que a realidade, pelo contrário, está muito pouco preocupada com plausibilidade e decência estrutural.

E a partir daí (muitos depois, na verdade, mas as coisas são lentas na minha cabeça, elas vão se juntando aos poucos e tomam forma muito depois) foi me vindo a ideia de que o que realmente separa a realidade da ficção é a existência de estruturas. A lógica.

Por mera questão de economia, e como que de consideração, você, leitora, espera que tudo que aparece num texto seja relevante. Não há porque apresentar um personagem novo na página dezessete que depois desapareça sem trazer algo de relevante para a história. Isso não quer dizer que de fato os textos se comportem sempre assim. Mas quer dizer que você espera que eles se comportem sempre assim. Daí a hiperinterpretação. Daí a gente sair catando leituras profundíssimas de um detalhe qualquer. É assim que a ficção nos acostuma. Se alguém tosse no capítulo um, deve ter morrido de tuberculose até o fim do capítulo vinte.

Na vida real, a busca de um sentido oculto, de uma relevância fundamental em qualquer detalhe se chama religiosidade. Ou paranoia. Ou, não raro, as duas coisas ao mesmo tempo.

Em outro momento da vida, lá perto dos quarenta anos, eu ouvi um cineasta americano, frequentemente acusado de fazer filmes incompreensíveis, dizendo achar estranho que as pessoas exijam que os filmes façam sempre sentido: a vida, afinal, raramente faz sentido, dizia ele.
A essa altura, eu tinha saído da postura “ler é viajar” para a postura “ler é exercitar o aparato cognitivo em um ambiente sem riscos” e depois para a postura “ler é encontrar estruturas e satisfazer a nossa necessidade de ordem”. Tudo pra cair de novo na dúvida.

Hoje eu acho que entendi ainda uma outra coisa. Que um livro, ou um filme, tem acima de tudo valor como recorte. Como suspensão do tempo e dos afazeres reais. Eu nunca gostei de parar no meio de um episódio de uma série. Nunca gostei de conversar vendo filmes. Sempre preferi ler um romance o mais rápido possível, em sessões muito concentradas. E hoje eu acho que entendo por quê.

Ler é um rito.

Você demarca o começo e o fim do processo, e durante aquela vigência você esquece do mundo. E isso não é acessório para você poder realizar a experiência. Num sentido muito profundo isso é a experiência. E tudo que você vê/lê dentro dessa moldura ganha um relevo novo. Ganha destaque.

Ou seja, isso é só um jeito complicado de dizer que ler sobre algo, ver uma cena, olhar um quadro, é prestar atenção. De verdade. É tirar algo da esfera do mundo e do fluxo do tempo e realmente olhar/ouvir, coisa que a gente quase nunca faz na vida real. E quando você dedica a tua atenção de verdade a alguma coisa, quase tudo é bonito, e quase tudo se revela cheio de sentidos, de uma certa maneira.

Cheio de sentidos múltiplos, nada sistematizáveis. O oposto da paranoia.
Cheio de um poder que te joga diretamente de volta à vida cotidiana. O oposto do escapismo.

Cheio de uma força que te mostra que nada ali existe de “seguro”, ou de experimento.

Meu irmão me diz que o sentido de se ler é o fato de que não há sentido em se ler. É prazer. Acho que ele tinha entendido bem antes de mim o que seria a Lia.

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