Lia - Capítulo 56 | Jornal Plural
Clube Kotter
25 fev 2020 - 19h53

Lia – Capítulo 56

Onde o amor descobre a mãe

Nada mais na casa tinha sido reformado de verdade. Móveis novos, vez por outra, ou trocados de lugar. Almofadas. Uma demão de tinta anos atrás. Pequenos consertos. O único lugar que passou por obras, foi refeito e repensado do começo, inteirinho, foi o banheiro. Logo depois da mudança.

Não havia por onde. O banheiro estava um caco e precisava daquela reforma. Uns azulejos horrorosos, louça velha, lascada, encardida. A pia tinha uma torneira daquelas de gramado, de jardim, toda craquenta e enferrujada.

Levou dias, foi um estorvo. Tiveram que tomar banho na vizinha e tudo, lembra?

Mas ficou bonito. Ficou exatamente como queriam que ficasse. E se agora a casa podia até ter cara de cansada, certa idade, o banheiro era a joia engastada no fundo do corredor da entrada. Novo e reluzente, mesmo depois de já passado algum tempo.

Verde.

Diversos tons de verde, do risco que juntava o teto branco aos azulejos, indo até ao acrílico da porta do box. Jateado? Crespinho. De correr.

A pia, a patente e a banheira, de um verde mais claro, da parte interna de um abacate maduro, quase. Quase maduro. E o bidê, claro. O banheiro tinha ainda um bidê.

O piso era quase tão claro, mas puxava para o azul, de certa forma, enquanto as paredes (tanto externas quanto na divisa de box e banheira) estavam recobertas daqueles azulejos de um verde mais denso que eram a verdadeira cara do banheiro. De esmeralda. De safira.

Um verde com nadinha de vegetal. Um verde todo aquático, submarino.

*

No exato momento em que ela entrou no banheiro naquela manhã, às oito e vinte e um, essa atmosfera de mergulho estava ainda mais nítida, tornada mais densa pela quantidade de vapor que estava no ar. Névoa espessa em meio à qual de início ela enxergou somente o vermelho bem vivo da toalha pendurada antes do banho. Agora mais frouxa, molhada, inerte.

A água ainda jorrava do chuveiro elétrico. Barulho constante que em circunstâncias normais seria tranquilizador.

— Mãe?

Havia uma fresta entre a porta do box e a parede. Mas o espelho da pia, logo à frente, não revelava o que podia, embaçado. E ela teve que entrar. Olhos bem abertos. Cantos da boca virados para baixo. Lábios entreabertos. Mãe? Por algum motivo sentiu a necessidade de apoiar a mão direita na pia antes de usar a esquerda para deslizar o painel de acrílico do box. Mais um passo à frente. Aos poucos o box se abriu como uma concha enquanto ela ressabiada descia os olhos pela parede, sem deixar de registrar que a prateleira onde ficava o shampoo tinha caído. Arrancada dos parafusos que a seguravam ali desde a reforma. Jogada no chão.

Equilibrada entre piso, parede e tornozelo.

Apoiada na perna clara da mãe, a centímetros dos dedos da mão esquerda que aparentemente tentou se agarrar ali.

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