Lia - Capítulo 54 | Jornal Plural
4 fev 2020 - 21h28

Lia – Capítulo 54

Onde Lia se distrai e depois demora a entender

— Me dá a tua menina. Me dá ela aqui. Deixa que eu cuido. Pode me dar.

Estranho. Tudo muito estranho. Um círculo apertado de pessoas em volta dela, luz forte lá no teto tão longe. Luz fria. Lia demorava a entender qualquer coisa. Enjoada a ponto de vomitar. Enjoada a ponto de vomitar. E a dor. Nossa Senhora do céu que dor. Um rasgo, um fio quente que passava do pé até quase o meio das costas. Difícil ficar de olhos abertos. Mas precisava. Ela precisava ficar de olhos abertos. Se desmaiasse podia perder a filha. Perder a filha para sempre. Todo mundo sempre dizia o quanto ela era linda. Todo mundo sempre falava. A filha linda ali do lado, perplexa também, mas sem chorar. Era incrível, a menina. A mãe desmoronada no chão, provavelmente lívida, certamente tonta, quase inconsciente. Dezenas de estranhos em volta gritando, de mãos estendidas. Meu Deus, de mãos estendidas. Eles querem pegar a menina. Eles querem pegar a tua filha, Lia. Mas por quê?

— Eu não sei. Eu só ouvi um barulho bem alto. Um estalo. E aí um grito.

— Isso. Eu tava ali do lado no outro corredor e ouvi também.

— E aí a moça caiu.

— Isso, eu também. A moça caiu e a cesta espalhou tudo no chão. Um estardalhaço…!

— E ela gritando que ia virando um gemido.

— Parecia um uivo.

— Isso. Bem isso.

— E com a mão no tornozelo.

— E a menininha segurando a outra mão dela.

— Isso. Isso mesmo.

Ela não entendeu nada daquilo. A linha que a prendia à segurança da mãe ainda não tinha sido cortada. Momento algum. Só que a mãe estava antes mais em cima, como sempre, conversando com ela, e de repente no chão, mais baixa que ela, estendida. E chorando. Mas sem largar da mão. Mão fria de uma hora pra outra. Grudenta.

— Chamaram alguém aqui do mercado?

— Já. Eles tão vindo.

— Deixa que eu fico com a menina.

Sempre estava na televisão aquela história. Do menino que sumiu pra sempre. E a filha dela era tão linda. Todo mundo sempre falava. Lia não conseguia imaginar a dor daquela família. Perder todo contato. Perder toda a certeza. Simplesmente perder o filho. A filha era tão linda. Olhinho claro e tudo. Chamava tanta atenção. A mulher queria roubar. Queria roubar a menina pra sempre, roubar a filha dela. Não. Não. Isso não.

A dor, a náusea, a confusão.

Estava muito difícil pensar. Estava muito difícil entender. Nem mesmo o que tinha acontecido com o tornozelo ela tentava entender. Andando tranquila num momento e… será que escorregou? Alguma coisa no chão? De repente uma dor fortíssima que parecia que era um prego quente furando a perna inteira desde o calcanhar. De repente o osso do tornozelo estava encostando no chão e a perna dobrava para o outro lado. Quase separando o pé do corpo.

A dor, náusea. Desorientação.

Tudo na Lia queria desmaiar. Era fácil. Era só se deixar apagar. A dor sumia, a náusea desaparecia. Era só se deixar levar. E ela quase não tinha mais força para resistir. Por que alguém não podia apagar aquela luz gelada lá no alto. Lá tão longe. Tão forte. E aquele zumbido. Era a luz que zumbia assim tão forte? Estranho…

(Lia acordou no hospital. Levaria meses para voltar a andar direito. A filha ficou semanas com seus dedos impressos em roxo na pele do ombro. Só com a sedação conseguiram separar as duas.)

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