Lia - Capítulo 47 | Jornal Plural
10 dez 2019 - 23h10

Lia – Capítulo 47

Uma filha fala

Como que era a minha mãe… Nossa. É difícil, né? Eu acho muito difícil, sabe? Desculpa. Ela… tem tanta coisa. Eu acho sempre estranho quando as pessoas vão lá e cravam uma definição de alguém. E eu sei pra lá de bem que na verdade os pais da gente são quem mais “sofre”, assim entre aspas mesmo, com esse tipo de coisa. A gente meio que passa a vida definindo quem que são os nossos pais, como que eles são, o tipo de coisa que eles são, que eles foram no mundo. No nosso mundo. E a gente nem se dá conta do quanto essas definições vão mudando ao longo da vida, né? E do quanto isso no fundo quer dizer que a gente nunca teve como dar uma opinião definitiva. Não tem opinião definitiva. Muito menos sobre as pessoas que a gente conhece mais de perto. Puxa, vida… Mais a fundo. A mãe era um monte de coisa. Continua sendo. Pros fregueses dela, pros colegas de trabalho. Cada casa que ela desenhou. Cada casinha. E elas vão ficar aí anos, ainda. Décadas, quem sabe. As pessoas vão morar lá no que a mãe inventou. No fruto da cabeça e do trabalho dela. E os alunos. Foram pouquinhos, mas foram. E os outros arquitetos que ela treinou no escritório. E que vão continuar fazendo casas pra mais gente. Do jeito deles, com o jeito dela também. Tanta coisa. E eu. E a minha vida toda. E a Lu. A Lu. Não sei como que ela vai lidar com isso. Agora ela não entende. Nem tem como. Eu só fico enrolando, dizendo que a vó está meio doente. A Lu vai ser um pouco da mãe no mundo. Sempre teve os olhos: iguaizinhos. Mas ela nem vai lembrar direito. Ou será que vai. Mais uma coisa. Menos uma coisa, uma certeza a menos. A mãe no mundo… O que é que o mundo vai pensar dela, pelos onze minutos em que o mundo ainda pensa na gente depois, se o mundo não é nosso filho. Porque depois disso, e graças a Deus, acho que simplesmente é como se nada. Como se a gente não tivesse sido. Eu que vou saber? Só o que a gente fez. Mas que vai ser do mundo, nem vai ser da gente, nem tem marca. A gente não é mais, daí. Não é mais nada. Nada desse monte de coisa que um dia a gente foi e que deixou tão difícil a nossa filha dizer quem que a gente era assim de uma pancada só. Quando acaba talvez fique fácil… de dizer. Fulano era assim. Fulana era aquilo. Eu lia mais que ela. Eu que era das Letras. Sou. Eu que sou das letras. De mortuis nil nisi bonum. A gente fala só coisa boa de quem morreu. E vai ver que nem é etiqueta. Taí. Mais uma coisa que eu estou aprendendo. Mas se depois que acaba é que a gente entende, é que a gente vê, de repente o que a gente vê é esse bem, esse só-coisa-boa. E vai que é por aí mesmo? A verdade. Ela era foda. E ela era de foder também. Eu não sei. Ainda acho difícil. Ainda acho meio injusto, na verdade. Passar essa régua assim na história toda dela. Acho que ela ainda está em suspensão. E vai ver é isso mesmo. Eu que não quero acabar com ela. Tipo, desligar os aparelhos. Cortar esse fio. Contar a história do fim pra trás, com sentido, organizada e com sentido. A mãe era uma pessoa, né. Não é mais. Dona Lia. Minha mãe é uma pessoa. Ela está viva. Ela está viva, eu tenho que lembrar ainda.

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