Lia - Capítulo 43 | Plural
12 nov 2019 - 21h26

Lia – Capítulo 43

Onde Lia pensa que sua vida está prestes a começar

Se alguém estava, esteve ali com ela antes, agora tinha ido embora. Agora ela parecia definitivamente sozinha ali na… sala? Seria a sala?

Difícil determinar neste momento um horário preciso para a cena, mas a luz parece a das pontas do dia, e em Lia não se vê nada que sugira ser tão cedo. Olhos pesados ou uma aparência muito recentemente composta. Eu diria que é o fim da tarde. O fim de um dia.

A luz ainda entra no cômodo, ou no que se poderia chamar de um cômodo, com certa boa-vontade e razoável otimismo. Mas entra num ângulo raso: dourada, rasante e tocante. Lia é quem olha para fora, e deve estar vendo uma cena bonita. Seu rosto parece o de alguém que esteja vendo uma cena bonita, nos momentos em que olha para fora.

Mas estes nem são tão frequentes. Ela olha bastante em volta, entra e sai daquele “cômodo”, passa a mão pelas paredes, limpando-as depois nas calças claras. Vez por outra usa o bico fino do sapato baixo, vermelho, para afastar de seu caminho algo que daqui é difícil determinar o que seja. Chega a catar com as mãos o que definitivamente é um saco vazio, rasgado. Plástico?

Agora está de costas para a parede que nos separaria dela, se parede ali houvesse, já que apenas as outras três estão de pé. Pelo movimento de seus ombros era de se dizer que suspirava. Uma. Duas vezes. Passa as mãos pelo cabelo, sem se preocupar em desfazer algum penteado, correndo os dedos pelos fios, massageando o couro cabeludo e, num dado momento, derrubando os óculos escuros que estavam equilibrados no alto da cabeça. Plástico. Não quebram. Mas ela não os coloca de novo no rosto (e sim na bolsa bege), e mesmo que o fizesse seria difícil julgar apenas pela sua reação, vista assim de longe, se a caliça do chão tinha riscado as lentes. É bem possível, no entanto.

No gesto de voltar à posição vertical depois de pegar os óculos e metê-los na bolsa, ela joga o cabelo para trás e o prende com um elástico que aparentemente já trazia no pulso. Vira-se de novo para “nós”.

Definitivamente é um sorriso. Lia está contente.

E definitivamente é mais um suspiro.

Ela põe as mãos nos bolsos e, de maneira quase incompreensível, senta no chão num movimento lento, fluido, levado apenas pelas pernas. Senta-se de pernas cruzadas, tocando o chão com incrível leveza, sem jamais tirar as mãos dos bolsos.

E fica ali sentada de frente para o que um dia deverá ser a parede que vai fechar esse cômodo que de fato parece uma sala de estar. Ponto mais claro naquela cena cinza, difusa, que vai se perdendo na falta de luz. Único reflexo da luz dourada naquelas superfícies de cimento ainda sem acabamento. Mãos cruzadas no colo. Cabeça levemente posta de lado.

Enquanto a claridade diminui aos poucos, fazendo primeiro com que deixemos de perceber o que se estende além das duas portas que ligam o cômodo a… outros cômodos? Enquanto a claridade diminui fazendo com que o cinza das paredes vá se tornando noite, vá se fazendo pardo, deixando apenas a camisa branca e a calça clara de Lia em evidência ali no chão. Você vai se sujar, Lia. É muito pó.

Enquanto o sol definitivamente se põe e nós nos afastamos, percebendo que o escuro da caixa que guarda Lia vai se desenhando em oposição às luzes que se acendem em outros pontos da cidade. Da cidade que agora também vai conter essa mulher no seu escuro.

Últimas Notícias