Lia - Capítulo 36 | Plural
23 set 2019 - 22h48

Lia – Capítulo 36

Onde Lia finalmente toma a palavra e explica o que sente

O consultório fica sempre naquela penumbra. Sempre aquele lusco-fusco. Pretensão de deixar o ambiente mais aconchegante? Não funciona.

A mesma coisa quanto às cores da decoração, os objetos sobre a mesa e as prateleiras, entre os livros cuidadosamente selecionados. A mesma coisa até no que se refere ao estranho cheiro de aromatizador de ambiente que está sempre ali. Como se alguém sempre peidasse no fim da consulta anterior, e fosse necessário desinfetar o ambiente.

Isso nós sabemos que de fato era algo que Lia pensava.

O resto…

— Você quer voltar àquilo que a gente estava discutindo na semana passada, Lucília?

— Claro que faz diferença.

— Não sei se é assim mesmo, Lucília. Mas se você sente que eu tenho determinado essas escolhas, talvez a gente precise conversar sobre isso tam —

— Como você quiser.
[silêncio]
— Voltamos ao assunto da semana passada, então?
[silêncio… um suspiro]
— Se você não —

— Vamos tentar. De novo.

— Eu não posso te dizer se isso é “normal”, Lucília.

— Porque não é assim que funciona.

— Porque eu não sei o que é “normal”. Ninguém sabe. A questão é saber o que te incomoda, e como lidar com isso.

— Não.

— Não, eu sei, Lu —

— Não, não é uma coisa que aconteça com todo mundo. Mas nada é, no final. Cada pessoa é um —

— Não. Eu não posso te dizer isso. E não sei que diferença ia fazer você saber se uma coisa dessas já aconteceu com outro paciente meu. Não ia mudar nada.

— Não, não ia. Você ia continuar sozinha com você mesma, e ia continuar não-sozinha aqui, porque eu estou com você.

— É claro que eu entendo, Lucília. Mas que importância tem isso?

— Não. O que é importante é saber se você entende. Se você perdoa?

— Não! Eu não estou dizendo que você precisa ser perdoada! O que eu estou dizendo é que parece que você sente que precisa de perdão. E é só você que vai poder se dar esse —

— Não é uma questão de saber se ele “merecia”. A questão é saber se você merece isso que você está se fazendo viver por causa de uma coisa de anos atrás.

— E faz diferença, Lucília? Mais ou menos tempo passado ia fazer você mudar o que você acha disso tudo?

— E ia fazer diferença também?
[silêncio]
— Você ainda pensa nisso? Hoje?

— Com ele, ou qualquer outra pessoa? Essa vontade ainda aparece?

— Mas —

— Não. Você só vai agir se escolher agir. Contemplar a ideia não precisa ser indício de nada. De “doença” nem de “saúde”. A não ser que você faça planos concretos. Imagine as situações em detalhe mesmo. Ideia é uma coisa. Ideação é bem outra. A gente já falou disso.

— Ninguém está cem por cento seguro, Lucília.

— É claro que eu não posso garantir. Não me parece que você me dê elementos pra desconfiar, pra ficar em alerta. Mas é injusto você me pedir uma “garantia” desse tipo de coisa, Lucília. Eu não teria como —

— [silêncio]
[silêncio]
— O que é que você quer dizer com isso?

— Porque você nunca usou esse tipo de linguagem aqui comigo.

— Não. Não. Não vejo conexão.

— Ok. Talvez seja melhor a gente interromper esse tratamento.

— Eu podia te dizer a mesma coisa!

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