Lia - Capítulo 30 | Plural
13 ago 2019 - 15h59

Lia – Capítulo 30

Onde Lia reescreve sua metafísica particular

O tempo é uma coisa fluida. Uma coisa esquisita. Lia nunca esqueceu do dia em que a mãe lhe explicou a teoria da relatividade. Ou, pelo menos, a relatividade segundo dona Luciana.

Ela estava voltando de uma festinha de aniversário, e reclamando que o dia tinha passado rápido demais. Resmungando que a mãe tinha que ter chegado mais tarde. E foi aí que dona Luciana lhe disse que seria sempre assim; que as coisas boas parecem passar mais rápido e as indesejáveis, lentas, lentas.

Anos depois, Lia entendeu também que o caminho da volta sempre parece mais curto que o da ida. A não ser quando não há volta, claro.

Décadas depois, foi percebendo que existe algo de inexorável na compressão do dia a dia. Na compressão de cada dia. E leu em algum lugar que isso se deve ao fato de que o nosso cérebro não presta tanta atenção ao que já é conhecido, concentrando-se cada vez mais apenas no que é novo. Por isso, o dia de uma menina de três anos de idade, sempre cheio de coisas que ela nunca viu, parece infinitamente infinito, enquanto que aos trinta ela já está na verdade revendo coisas, revivendo rotinas, em meio às quais umas poucas novidades se destacam. A cada 18 horas acordada, talvez tenha percebido um total de 6 como compostas de novidades dignas de nota, de registro. Daí seu dia parecer curto. Daí a sucessão parecer veloz.

Lia, naquela idade, sabia de tudo isso.

E sabia bastante sobre os caminhos sem volta. Supunha.

Mas naquele momento, ali parada diante da cortina entreaberta, por onde entrava uma luz de fim de dia, uma luz de fim da luz, ali parada na sala cuja luz ainda não estava acesa, na sala que ia ficando escura, se apagando, ali parada em contra-luz recortada na frente do vidro tão limpo, naquele momento ela aprendeu uma coisa fundamentalmente nova sobre o tempo. Algo que até já havia intuído, cá e lá, algo sobre o qual já tinha lido, e que tinha, em outros momentos, por outros motivos, sentada numa almofada redonda, inclusive buscado por si própria, sem jamais sentir naquele grau, com aquele impacto.

Lia descobriu que o tempo pode parar.

Que de repente pode nada acontecer: imobilidade. Que de repente pode tudo se deter, silêncio, ou nem silêncio, a não memória de um dia ter havido som.

Restou ali, no intervalo não medido que antecedeu o momento em que o incômodo nos olhos a fez finalmente piscar, toldar a visão, que voltou depois disso a um mundo indescritivelmente mais escuro, horas passadas. Sol escondido tão mais.

Lembrou que o tempo das coisas boas é mais dilatado, mas descobriu que certas coisas podem de fato eliminar a passagem do tempo.

Lembrou que o caminho da ida é sempre mais longo que o da volta, exceto quando não há volta.

Lembrou que a pouca novidade dos tempos de mais idade se traduz em velocidade, mas aprendeu que certas novidades podem deter a velocidade e travar o curso de um dia.

Percebeu que a escuridão que viu depois de piscar era só o pôr-do-sol mais adiantado que, por algum motivo lá todo seu, tinha decidido ignorar a interrupção do tempo de Lia e prosseguido em sua descida de volta ao horizonte, porque todo caminho de volta é mais breve que a ida. Toda ida à escuridão, mais veloz que a luz que nasce.

A ponta da língua de Lia surgiu entre os lábios, que se redobraram para dentro quando ela voltou à boca. Engoliu em seco.

Sem uma palavra, movendo apenas o braço esquerdo, largou o telefone no gancho.

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