Lia - Capítulo 18 | Jornal Plural
20 maio 2019 - 21h41

Lia – Capítulo 18

Onde Lia lembra que um dia lembrou o que não devia lembrar, ela acha

Ela devia ter uns doze anos…?

Sua primeira comunhão foi bem tarde. Coisa de pais que não tinham exatamente grandes convicções religiosas. Fruto de uma decisão dela mesma, de alguma espécie de crise espiritual dos doze anos.

Ela quis fazer o cursinho, a “catequese”, e se preparar num grupo cheio de crianças bem menores. Quis estar ali e acabar fazendo as perguntas mais constrangedoras para a professora.

Mas a grande perplexidade ela nem chegou a comunicar à Tia Vânia. Foi coisa só dela. Dela sozinha um dia em casa, antes de dormir, olhos abertos grudados no teto, estanhados. Foi quando ela de fato lidou com a ideia da mortalidade de uma maneira, talvez, rebelde. Foi quando percebeu a ligação entre a ideia de um Deus eterno que cria seres “livres” para passarem alguns anos no que lhes parece ser uma vida, um mundo inteiro, mas que no fundo é mera passagem rumo a alguma coisa que poucos deles de fato vão poder atingir… e… e a importância que cada dia dessa vida parecia ter para esses seres. Para ela.

Foi quando percebeu que sabia, sem nem saber de onde, da existência da palavra “títere”.

Porque foi como ela se sentiu. Como um boneco manuseado por uma divindade invisível. Uma divindade que ainda por cima teve o capricho cruel de dar ao boneco a sensação de que ele era livre, era autônomo e tinha poder de decisão. Livre arbítrio.

O boneco saía da caixa, fazia o espetáculo e, durante esse tempo, imaginava que tinha existência plena, e então era recolocado na caixa escura. Sem mais nem menos.

Lia se viu assim. Entendeu que era assim. Foi o primeiro fim da sua crise espiritual dos doze anos.

Ela ainda participou da comunhão. Seria uma vergonha muito grande voltar atrás depois de tanto insistir com a mãe e o pai por causa dessa decisão algo estranha. Foi em frente. Confessou-se. Comungou. Mas tinha rompido com Deus. Tinha decidido que Ele não podia ser, se fosse assim.

Hoje, décadas depois, ela lembra disso não sem um sorriso.

Títeres.

Aos doze anos não tinha percebido que se livrar daquela imagem de Deus era também se livrar da imagem do boneco. Era ganhar a autonomia que imaginava que tinha sido roubada. Não tinha levado essa ideia até o fim. Talvez por medo.

Aos doze anos ela matou seu Deus e decidiu que céu e inferno não faziam sentido. E achou que com isso a vida toda perdia uma espécie de orientação.

Aos doze anos ela ficou chocada ao concluir que a vida que tinha neste mundo era como que mero intervalo entre um nada e outro nada. Uma espécie de presente do acaso, sem sentido, sem origem e sem destino.

Agora, décadas depois, quando se vê de novo pensando no assunto e lembrando aquela noite pavorosa no quarto escuro, ela não conseguia mudar o resultado da equação. Deus continuava ausente. A vida continua sem essa forma exterior. Esse sentido em outro lugar. A vida que Lia tinha neste mundo continuava lhe parecendo um mero intervalo entre um nada e outro nada. Uma espécie de presente do acaso, sem sentido, sem origem prévia e sem destino posterior.

Só que hoje isso lhe parecia preciosíssimo. Hoje a palavra que lhe restava daquele resumo era “presente”. Hoje ela não precisava de outro sentido além deste.

Hoje foi o segundo fim da sua crise dos doze anos. Décadas depois. E o resultado foi finalmente uma grande paz. Ou nem isso. Uma pequena paz. Uma paz. A única possível.

E foi só então, depois de ter levado até o fim tanto a lembrança da cena de anos atrás quanto as ideias que disso acabaram lhe surgindo, foi só depois de ter esquecido de títeres e deuses e pensado somente no presente de estar por acaso neste intervalo entre nadas, neste único mundo possível e curto, bem curto, foi só então que decidiu levantar daquela poltrona incômoda ao lado do leito do hospital, decidiu acender a luz do quarto escuro, alongar o pescoço, piscar algumas vezes, tirar o cabelo do rosto e sair para o corredor em busca de uma enfermeira.

Era preciso comunicar o óbito.

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