16 maio 2022 - 9h00

Monólogo interidiomático

Somos só nós e eu tenho certeza de que vocês estão plenamente cientes de tudo o que acontece

É impossível que nenhum de vocês entenda o que eu digo – e mais impossível ainda que nunca, enquanto estivermos todos aqui, nunca haverá diálogo.

Somos só nós e eu tenho certeza de que vocês estão plenamente cientes de tudo o que acontece. É o que demonstram quando ficam quietos e imóveis porque sabem que eu preciso falar sem interrupções, quando se deitam comigo para esquentar a cama há tanto tempo vazia e gélida, quando trocamos olhares e eu apreendo exatamente o que eles me dizem.

No fim das contas, penso que é nisto que se baseia nossa relação: uma compreensão mútua que não exige que falemos a mesma língua ou saibamos nos comunicar verbalmente. É poético e melancólico, na mesma medida, que a fortaleza que construímos se sustente sobre o silêncio. Mas é verdade que eu gostaria que este sinal de compreensão, cuja demonstração parece sempre iminente, se manifestasse de uma vez por todas.

É como se vocês soubessem e, a bem da verdade, fizessem de propósito. Sabem que eu fico indignada quando digo A, vocês me lançam olhares com muita seriedade e atrevimento, fazem B e depois fogem.

Outro dia foi assim, graças a essa insistência ingênua em relação às brincadeiras com as plantas, que nunca dá em nada porque eu não permito, vocês bem sabem.

Trouxe para a casa uma calathea, aquela que eu queria há tanto tempo, certa de que vocês estariam dispostos a tratá-la bem. Foram muitas as conversas que havíamos tido até então, muita paciência, muitas explicações dadas e, eu pensava, absorvidas. Mas há coisas contra as quais não se pode lutar, e estou cada vez mais convencida de que instinto é uma delas.

Em pouco tempo, você, você mesmo, que até então nunca havia demonstrado o menor interesse nas plantas da casa, que costumava acompanhar atento o processo de rega e adubação, que chegava perto, mas sempre mantinha uma distância controlada, resolveu abocanhar as folhas com muita vontade e um certo desespero, como um esfomeado que vê um prato de comida pela primeira vez em bastante tempo.

Tratei de afastá-lo sem violência, mas com a firmeza necessária para que você entendesse que não se pode agir assim.

Foi aí que você me olhou como nunca antes, penetrante, pungente, mordaz, um olhar de revolta, de incompreensão e de desgosto.

Haveria de ser ali, naquele momento, que você falaria comigo. Por dentro, eu gritava: é agora! É agora! Tenho certeza de que é agora, diante dessa troca de olhares, que você, você mesmo, me dirá qualquer coisa, uma palavra, qualquer que seja, que demonstre que nos entendemos tão bem quanto sempre me pareceu. Vá, desembuche, expresse sua frustração diante da minha tirania, grite comigo, me xingue, desentale o que está preso!

E você desembuchou, sem mais nem menos, com pouca vontade, mas muita determinação:

– Miau.

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