12 maio 2022 - 9h00

Saturação semântica

Ele me encarou e enunciou as palavras por trás da máscara com calma e cautela, de maneira séria

A reunião prometeu ser fatídica a partir dos primeiros instantes que sentei à mesa.

“Seu livro não é ruim”

Foi uma das primeiras coisas que ele me disse.  Não “seu livro não é bom”, nem “gostei do seu livro”. Apenas não é ruim.

Minha pressão caiu. Senti meu coração na garganta, mas fiz o meu melhor para transparecer calma e tranquila. Minha cabeça parecia estar pulsando, pesando no meu pescoço. 

Eu acenei com ela, com compreensão.

Olhei pro meu celular onde estava a versão digital do livro cru. Um feto, ele era. Mas era meu bebê. Meu trabalho de meses de pesquisa e produção. Geralmente diante aquelas palavras meu instinto seria de franzir o cenho. Me defender e argumentar. Ficar na defensiva sem questionar se estava certa. Aquilo era a minha criação. Algo que eu fiz com minhas próprias mãos e mente.

Mas então percebi: Ah meu Deus tem um “mas” nessa frase. “Seu livro não é ruim” não bastava, tinha que ter um “mas…” também.

“Ao meu ver ele não está pronto para publicação. Acredito que seriam necessárias algumas mudanças.”

Ele estava sentado de frente pra mim, mas seu corpo, não. Sua expressão estava inescrutável, mas sua linguagem corporal não poderia estar mais clara. Ele me olhava no olho, gesticulava com as mãos. Aliança de ouro grossa no dedo. Calça jeans, camisa abotoada e leves rugas de preocupação ou cansaço (ou ambos?) no rosto. Ele já devia ter feito isso centenas de vezes. Estava de máscara, o que me deixou consciente do fato que eu não estava usando uma. Ninguém à minha volta estava. Mas eu podia estar, apesar do decreto ter acabado. Não me encolhi. A máscara fazia com que suas expressões faciais fossem enigmáticas, o deixando em uma grande vantagem. Mas seu corpo o entregava. As pernas estavam de lado na cadeira, apenas o torso me encarava. Era como se ele estivesse pronto para fugir.

Ele calculava cada palavra cuidadosamente, o que me garantiu que, pelo menos, ele não era inexorável. Ele não quer me magoar, pensei. Claro, a rejeição deveria ser quase diária nesse ramo de negócio.

Sorri. Acenei com a cabeça. Deixei ele falar. Se eu fosse cair, que fosse graciosamente.

“Há três coisas que eu avalio antes de escolher publicar um livro:

Se vai dar lucro, se eu tenho como atrair um público com ele e se ele tem uma boa história. Seria possível sim, publicar seu livro mas precisaria de ajustes e uma polida. E não seria algo rápido, demoraria meses para tratá-lo, daria trabalho, não seria barato e não há garantia de que ele terá destaque em livrarias. Há a parte complicada da distribuição e divulgação também, que é sempre imprevisível , mas daria pra fazer.”

Ele não sorriu dizendo isso, nem mesmo com os olhos. Ele me encarou e enunciou as palavras por trás da máscara com calma e cautela, de maneira séria. Dava para ver que ele não queria erguer minhas expectativas, mas também não queria mentir. 

Mas ele era honesto e se importava em fazer um trabalho bem feito, aquilo estava transparente para mim. 

Ele se importava. Havia uma faísca de esperança ali. Nos últimos meses, eu havia entrado em contato com dezenas de editoras. A maioria havia aprovado o livro e me pressionava para publicá-lo, mas quando eu fazia perguntas sobre o que achavam da história, ninguém sabia responder. Nem sequer tinham lido, mas possuíam um orçamento pronto nas mãos. 

Ele, não.

A reunião me deixou dormente. Não sabia quantas vezes a mais poderia fazer aquilo. Sentar. Conversar. Não chegar a conclusão alguma. Você sabe o que dizem de fazer a mesma coisa e esperar resultados diferentes, não é? Toda vez que eu entrava de cabeça erguida em uma reunião dessas, eu saía com a impressão de que nada daquilo fazia sentido  mais. Como ouvir a mesma palavra vezes o suficiente até que ela perdesse seu significado. 

Andando para casa pensei em como eu devia ter me empenhado mais em habilidades diversas quando era pequena. Sempre odiei e tive  dificuldade para matemática. Esportes? Nunca tinha coordenação motora. Mas gostava da natureza, tinha curiosidade por biologia e havia até considerado seguir a área de alguma forma. Estudar animais e ajudá-los. Não sei o quão lucrativa a área é, mas pelo menos eu teria o caminho de pesquisa até chegar na parte que eu queria, pensava. Seria algo. Poderia ter entrado para Administração ou ter aprendido programação, também. Eu não ficaria boiando em um mar de incertezas como eu faço agora. Sei escrever artigos de opinião, redações dissertativas e analisar figuras e personagens em um texto desde pequena. Mas não sabia o quanto ser escritório ia me custar mais pra frente. 

Mas pelo menos nunca quis ser astronauta. Aposto que seria bem mais difícil. 

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