O vendedor que não desistia | Jornal Plural
Clube Kotter
17 jan 2019 - 0h00

O vendedor que não desistia

Em sua crônica de estreia, Felippe Anibal conta a história de um vendedor que não parava de falar das maravilhas de seu produto, mesmo sendo incapaz de ganhar um real com isso.

Postado diante da mesinha mambembe armada em pleno calçadão, o homem fatiava uma cabeça de repolho com elogiável destreza. Enquanto reduzia a hortaliça a um amontoado de tiras milimétricas, apregoava o instrumento que tinha em mãos: “Vejam que maravilha da cozinha! Descasca a cenoura, corta a verdura! Olhem como é fácil!”. Embora estivesse vestido de maneira simples – tênis gasto, calça e uma camisa que parecia um tanto maior –, tinha a elegância de um maître. O produto que colocava à venda não tinha nada de sofisticado: consistia em um cabo plástico alaranjado que terminava em uma forquilha, na qual estava afixada uma lâmina afiada. Nada mais. Mas a forma como ele o anunciava – sempre com voz clara, pronunciada com entonação de locutor e ornamentada por um sorriso de indelével confiança – fazia crer que, de fato, se tratasse de um utensílio indispensável.

Eu já havia topado com o vendedor em outras ocasiões – na entrada de um supermercado, nos arredores da feirinha do Largo ou ali mesmo, no calçadão –, mas naquele comecinho de tarde ele me chamou a atenção em especial. Talvez porque o entusiasmo com que enumerava as qualidades do item que vendia contrastava com os modos insossos de seus colegas ambulantes: uma jovem a serviço de uma operadora de celular, um rapaz que oferecia carregadores para smartphones e um homem de maus bofes, que portava uma placa em que se lia “compro ouro”. Esses pareciam estar ali a contragosto, entediados e sem o mínimo resquício de orgulho do próprio ofício, ao passo que o homem continuava a bradar as maravilhas do descascador de verduras, como se desempenhasse a mais nobre das profissões.

Não vendeu um

descascadorzinho que fosse.

Nem por isso, no entanto,

o homem esmoreceu.


Parei para contemplar. Apesar de todos os salamaleques do mercador e de sua apresentação resoluta, quase ninguém dava por ele. Nos cinquenta minutos em que fiquei ali, de butuca, apenas duas freiras e uma senhorinha desviaram o olhar para o vendedor por uns poucos segundos, mas nem sequer chegaram a parar para ver o funcionamento do utensílio fabuloso. Não vendeu um descascadorzinho que fosse. Nem por isso, no entanto, o homem esmoreceu. Resiliente, permaneceu anunciando seu produto, qual falasse para um público seleto que lhe desse plenos ouvidos. Apesar de tudo – ou melhor, do nada – ele seguia, com fé inquebrantável.

Quando o relógio me chamou de volta à rotina, parti, dividido. Por um lado, sentia pena do pobre homem, porque apesar de toda devoção que dispensava ao seu ofício, o sucesso profissional lhe passara longe. Fico me perguntando se naquele dia ele voltou pra casa com o gosto do fracasso na boca, depois de ter passado o dia em pé, gastando seu latim ininterruptamente e em vão. Não deve ser fácil. Por outro lado, no entanto, era louvável a dignidade que aquele camelô mantinha, cumprindo sua ventura e entregando o melhor de si. Creio que, apesar de tudo, naquela noite ele deve ter dormido o sono dos justos e, nos dias seguintes, persistido até tempos mais favoráveis.

Agora por esses dias, no finzinho de dezembro, lembrei-me do ambulante durante uma conversa com ela, enquanto olhávamos o ano em retrospecto, em uma espécie de balanço. Foram meses difíceis, é escusado dizer. (A vida, às vezes, nos mete em um emaranhado tal, que nem um abraço é capaz de proteger). Para ela, no entanto, o fardo parece ter sido maior. Alguns acontecimentos quase a tiraram de seu curso, enquanto, em outra seara, outros quase a puseram estática. A quantos não devem ter ocorrido dissabores em série, de forma semelhante? Ao longo da prosa, o episódio do mercador do calçadão emergiu como ensinamento. Pode soar elementar, mas em meio a turbilhões acabamos por nos esquecer do óbvio. O que eu queria que ela se lembrasse neste novo ano é de que há ocasiões em que nos cabe apenas isso, mesmo: pôr um sorriso no rosto e seguir com nosso propósito com determinada convicção e integridade. Há que persistir. Como o vendedor.

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