O mendigo pós-eleitoral | Plural
31 maio 2019 - 6h00

O mendigo pós-eleitoral

Há quem diga que, por terem um desapego material extremo, alguns mendigos estão efetivamente voltados às virtudes, em estado bruto

Eu estava completamente absorto em Os Trabalhadores do Mar, quando fui surpreendido pela pergunta disparada à queima-roupa, embora em tom educado: “Votou em quem, gente boa?”. Assim que levantei os olhos do livro, dei com  um jovem senhor negro, que lembrava Coltrane na capa de A Love Supreme, mas que vinha enfiado em um blusão de moletom preto, desses com capuz. Perplexo com a inquirição improvável, titubeei a me manifestar, o que fez com ele se adiantasse, inferindo a resposta. “Não foi no Capitão, não, né?”. Apenas balancei a cabeça negativamente, confirmando as suspeitas do meu interlocutor. “Boa! Você não tem uma moedinha pra me ajudar a pagar a passagem? Qualquer coisa serve.” Cismado com a peculiaridade do figura e de sua abordagem, dei-lhe cinquenta centavos e ali, à entrada da estação-tubo do Centro, fiquei a observá-lo com detida curiosidade.

Por umas quantas vezes, repetiu o mesmo modus operandi. Interpelava os passantes, sempre com bons modos, perguntando pelas últimas eleições. Alguns não lhe davam ouvidos, outros torciam o nariz, mas havia quem parasse e, com espanto semelhante ao meu, lhe desse conversa e lhe deixasse uma moeda. Descobri que aquela pesquisa pós-eleitoral não se tratava de uma desculpa para que o nobre personagem pudesse se achegar às pessoas, mas, sim, tinha um motivo prático: aferir a quem devia pedir dinheiro. Se a pessoa assentisse ter votado em Bolsonaro, o homem agradecia a atenção e partia para a próxima. Somente àqueles que declaravam voto em qualquer outro candidato é que ele apresentava sua humilde demanda por uma esmolinha qualquer.

Assim que juntou o suficiente, o homem pagou o cobrador de forma solene e passou pela catraca. Admirado com o episódio incomum, decidi tirar a história a limpo. Fui ter com o sujeito enquanto ele vasculhava os títulos disponíveis na “tuboteca” (uma pequena biblioteca instalada em algumas estações de ônibus de Curitiba). Quis saber o óbvio: por que cazzo ele abdicava de pedir à turma do Capitão? “Dessa gente, não quero nada. Nem dinheiro. Não é porque tô nas ruas, que eu não tenho princípios, meu caro”, respondeu, de modo tranquilo, e diametralmente oposto à dureza que as palavras sugeriam.

Ainda tentei insistir na prosa: “Mas por quê?”. Ele, no entanto, pôs fim ao breve interrogatório de modo sagaz. Apontou para o livro que eu carregava em mãos e disse: “Você lê Victor Hugo, parceiro. É claro que ‘cê tá ligado no que eu tô falando”. Ato contínuo, alcançou um exemplar de Helena Kolody na prateleira, fez-me uma leve mesura e embarcou no Ligeirão que, como por um puro acaso, parava na estação naquele preciso instante. Antes de o ônibus arrancar, ainda me legou um leve aceno através do vidro da porta 2 e me deixou um sorriso enigmático.

A medida que o expresso se afastava, eu me lembrava de uma passagem narrada por Eduardo Galeano, em O Livro dos Abraços. Em “Crônica da cidade de Santiago”, o escritor versou sobre o Chile da ditadura militar de Pinochet, em uma época em que os chilenos eram “cada vez menos”: “A economia os amaldiçoa, a polícia os persegue e a cultura os nega”, esmiuçou o autor. Lá – como aqui – proliferavam mendigos, que, apesar das tentativas de limpeza étnica, continuavam a esmolar. O “melhor dos mendigos chilenos”, escreveu Galeano, era um que tentava comover seus concidadãos a lhe dar um trocado, argumentando: “Sou civil! Sou civil!”.

É bem verdade que estamos distantes de uma ditadura à lá Pinochet – talvez não porque o presidente não tenha inclinações totalitárias, mas por não ter cacife para tal. Por outro lado, cá padecemos de alguns sintomas parecidos: com a economia a nos amaldiçoar, a polícia a nos perseguir e a cultura a nos negar (ou a nos negarem a cultura?). Há quem diga que, por terem um desapego material extremo, alguns mendigos estão efetivamente voltados às virtudes, em estado bruto. Entendo perfeitamente os rígidos princípios do “Coltrane do ônibus”. Não me admiraria, contudo, se amanhã ou depois algum pedinte fizer o movimento inverso e, em vez de perguntar em quem as pessoas votaram, simplesmente passar o chapéu, tentando sensibilizar os transeuntes: “Eu não votei no Bolsonaro! Eu não votei no Bolsonaro!”.

Para ir além

Os Trabalhadores do Mar, Victor Hugo, Editora Martin Claret, 440 págs. R$ 44,90.

O Livro dos Abraços, Eduardo Galeano, L&PM Editores, 272 págs. R$ 24,90.

A Love Supreme, John Contrane, 1965.

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