Macacô não! | Plural
24 maio 2019 - 6h00

Macacô não!

Felippe Aníbal relembra fobias e fala do nosso medo de cada dia

Não sei porque cargas d’água meu avô Indler inventou de ter um macaco-prego em casa. Talvez o velho, que sustentava a família à boleia do caminhão, tenha trazido o bicho de uma de suas incontáveis andanças por esse Brasil afora. O pequeno primata não havia sido o único. Longe disso. O vô já teve de tudo: galinha, pato, cachorro, gato, peru, arara, papagaio, cágado, codorna e pavão, entre muitas outras espécies, em uma fauna digna de fazer inveja a Noé. “Tudo que é criação que não dá lucro que você possa imaginar, o véio já teve”, gozava o meu pai. Entre toda a bicharada, o macaco me marcou por um motivo um tanto distinto: foi o responsável por me apresentar ao medo – e é difícil se esquecer daquilo que revela nossa fraqueza.

À época, eu era tão criança que mal conseguia articular as palavras, mas a memória me conservou uns lampejos feito filme antigo, em que o animal sempre aparece como se vivesse endemoniado. Pulava daqui pra lá, perseguia as pessoas com seus guinchos estridentes e aterrorizava quem quer que aparecesse. Era tão ordinário que dava de arremedar minha avó: pegava os panos de prato estendidos no varal e se punha a batê-los no tanque, do mesmo modo que a velhinha fazia com as roupas recém-lavadas. O bicho só respeitava mesmo o meu avô. Quando íamos visitá-lo, do alto dos meus quase dois anos de idade, eu implorava da forma como podia para que o seu Indler prendesse o símio, que para mim equivalia à encarnação do capeta. “Macacô não, vô! Macacô não!”.

Talvez por ser tão criança, nunca enfrentei este medo diretamente – no sentido de tentar travar contato direto com o animalzinho. Pudera. Felizmente, os adultos da família tiveram o mínimo juízo e, ante minha presença, o vô acabava trancando o macaco no quintal e pronto. Fim de papo. O episódio também não me deixou quaisquer traumas e, hoje, é contado na família à guisa de piada. Com o tempo, como é de se supor, outros temores me apresentaram suas caras medonhas. Alguns, bem usuais. Outros nem tanto. Como se sabe, fobia não é coisa que se explique, assim, tão facilmente e à luz da razão.

Ainda na infância, por exemplo, fui acometido por um pânico bem prosaico: o medo de assombrações. Qualquer barulho no quintal já me fazia meter a cara debaixo das cobertas e arregalar os olhos medrados. Em regra, eram gatas no cio, cujos miados lancinantes pareciam gritos de crianças – do além, eu supunha. Mas o que mais me aterrorizava era o receio de vir a topar com um lobisomem que, conforme se dizia, dava muito naquelas bandas do interior. Rezava a lenda que, se se colocasse sal diante da porta em uma sexta-feira 13, a besta-fera vinha arranhá-la, até ser possível invadir a residência. Meus amigos e eu fizemos um pacto para pôr a superstição à prova: botamos, cada um, um punhado de sal na entrada de nossas respectivas casas. Creio que ninguém tenha dormido naquela noite.

Conforme vamos crescendo, vão surgindo fobias mais complexas que chegam a soar surreais – para aqueles que não as sentem, logicamente. Na faculdade, por exemplo, havia uma colega que tinha tanto medo de cobra, que sequer podia ver qualquer representação do réptil, por mais tosca que fosse. Um mísero desenho de uma serpente, rabiscado em uma folha de caderno qualquer, já a punha em calafrios. Outra amiga tinha pavor de esponja de banho. Sim, de esponja de banho. Dizia que só entrava no box do banheiro após constatar que não havia nenhuma dessas buchas por perto. Um camarada das antigas saía em disparada quando via uma galinha. Vá entender o gatilho de cada um.

A minha fobia esdrúxula mais recente se materializava na panela de pressão, na qual eu não me aventurava a mexer nem por um decreto. Na medida que a danada começava a chiar, eu passava a suar frio, qual estivesse diante de uma bomba-relógio. Quando o cozinheiro em questão estava prestes a acionar o dispositivo que dissipava a pressão, eu me retirava ou, pateticamente, buscava guarida onde fosse possível – atrás da porta, ao lado do armário… Só deixava o esconderijo ao me certificar que havia cessado o “tsssssssssssssssss” que me era tão horripilante.

Calma! A exemplo de outras fobias, esta também tem uma explicação: quando molequinho, uma dessas panelas explodiu na cozinha de casa, lançando feijão pelos ares, feito um vulcão de ferro. Por um bom tempo, o forro de madeira ficou manchado, como prova da grande catástrofe doméstica que me incutiu o estranho pavor. Só fui superar o trauma definitivamente uns três ou quatro anos atrás, por força da necessidade. É que eu sou doido por feijão e, como moro sozinho, não houve remédio senão enfrentar o utensílio que tanto me aterrorizava. Hoje, perfeitamente curado, até tiro onda. Puxo o pino da pressão de forma cadenciada, de modo a tentar construir melodia. “Tssss-Tss-Tssssss-Tss-Tss”.

Para outras fobias, medos ou falta de jeito, tenho recorrido ao mesmo método: encarando meus demônios, quais sejam, por força da imposição das circunstâncias. Para vertigem de altura, saltar de paraquedas. Para receio de falar em público, não me negar a participar de mesas-redondas ou palestras quando convidado. Para o medo de direção, pegar a estrada ao volante. Às vezes é fácil até. Em outras, nem tanto. Tive um professor que dizia: “Chega uma hora em que é preciso agarrar o touro pelos chifres”. Cada um com seus próprios limites, mas creio que ele tenha razão. A partir de certo ponto, não dá para simplesmente clamar: “Macacô não, vô! Macacô não!”.

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