Lava Jato: causos, heróis e pixulecos | Plural
21 jun 2019 - 6h00

Lava Jato: causos, heróis e pixulecos

Felippe Aníbal fala de jornalismo, Moro e Lava Jato

Quando a Lava Jato começou a ganhar repercussão estratosférica, eu era repórter de política local da Gazeta do Povo – em uma época em que a Gazeta ainda não tinha essa feição de panfleto ideológico. Como a editoria se debruçava sobre os poderes de Curitiba e do Paraná, escapei de ser escalado como setorista da operação que tinha dimensões nacionais e, conforme se dizia, limparia a corrupção encalacrada no país. Ufa! Respirei aliviado. Não que eu me opusesse a se investigar políticos e empreiteiros sobre os quais pesavam torrentes de acusações de desvios de dinheiro público, mas não me seduzia, profissionalmente, a perspectiva de atuar como um operador do jornalismo declaratório e devorado pela urgência das hard news.

Não se trata – que fique claro – de uma crítica aos colegas que cobriram com afinco a operação e cuja rotina incluía esperas semelhantes a um purgatório, aguardando coletivas ou nacos de informação. O que sempre me incomodou foi o modelo de cobertura da Lava Jato, em que a imprensa funcionou como uma espécie de porta-voz de juízes e procuradores e quase como uma extensão da assessoria de imprensa da Justiça Federal e do MPF. Não me apetecia o papel de segurar o microfone para que só os procuradores sacramentassem sua versão. Muito raramente, vi matérias de fôlego que apontassem inconsistências na acusação ou eventuais excessos cometidos pelas autoridades. No mais das vezes, eram os releases “cozinhados” nas redações, com o prazo a bafejar na nuca do repórter.

Pudera! Basta levar em conta a dinâmica de cobertura e a precarização das redações, cada vez mais enxutas e cujas diretrizes avançam para onde levam os clicks da audiência. Imagine só, não devia ser fácil: está lá o repórter em sua equipe diminuta e, de repente, anuncia-se uma nova fase da operação e, com ela, a pressão por “subir” a matéria no ar antes da concorrência. Haveria tempo para quê? Quantos puderam, de fato, ler os documentos do processo, estabelecer conexões, fazer uma análise crítica ou identificar brechas? Mesmo os eventuais “furos” parecem ter surgido a partir de vazamentos seletivos e cirúrgicos, de acordo com os interesses da força-tarefa.

Em uma análise no âmbito micro, o que os jornalistas, em linhas gerias, faziam era reportar os fatos oficiais a cada fase da Lava Jato. Legítimo, não? Basta ampliar o foco, no entanto, para ver que Sergio Moro e seu time de procuradores (o pronome possessivo é proposital) souberam se valer da imprensa para torná-la uma engrenagem indispensável à operação. Afinal, eram eles que detinham as cartas. Massacrada pelo timming das hard news, as redações se viram obrigadas a comer na mão das autoridades – e, por conseguinte, a reproduzir seu discurso oficial. A estratégia, aliás, não era nada nova. Na Itália, a operação Mani Pulite – de quem Moro é fã confesso – usou os jornais e as tevês para ganhar a opinião pública.

Estou longe de querer chutar cachorro que está cambaleante. Minhas impressões à Lava Jato são bem anteriores à série de reportagens do The Intercept, que vem revelando conversas privadas e nada republicanas de Moro com seus procuradores. Em 2016, por exemplo, fui convidado pela repórter-fotográfica Isabella Lanave a participar de uma mesa-redonda por ocasião do lançamento de seu documentário Sob Terras Vermelhas. Na época, quando a operação ia para o seu auge, palpitei que no máximo dentro de uma década a cobertura da Lava Jato seria tão estudada nas universidades de Jornalismo quanto o “Caso Escola Base” e que o efeito manada – sem versões dissonantes – poderia convertê-la num case de anti-Jornalismo. Exagero? Quem sabe. A “Vaza Jato” acelerou o processo. Em breve, veremos.

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Em uma das únicas vezes que fui escalado às pressas para cobrir algo relacionado à Lava Jato não me deparei com uma nova fase, mas com algo parecido com um circo. Uma comitiva de artistas (Susana Vieira, Luana Piovanni, Victor Fasano, Lucinha Lins e Raimundo Fagner) havia se desabalado a Curitiba para entregar a Moro um pendrive com um abaixo-assinado (50 assinaturas) em apoio às “Dez Medidas Contra a Corrupção” – projeto, então, encampado pelo magistrado. Após a audiência, os notáveis fizeram um mise-en-scène no saguão da Justiça Federal, onde deram rápidas declarações à imprensa. De longe, a mais animada era Susana Vieira, que cruzou o cordão de isolamento, posou para selfies com manifestantes e, no epicentro do frisson, cunhou a célebre frase: “Eu acho que as pessoas do Nordeste não têm conhecimento do que está sendo feito aqui”, disse, em referência à Lava Jato. (Detalhe: Fagner, que estava ali, é cearense. Mas, né…)

Decidido a levar a pauta a sério, tentei interpelar Victor Fasano. É que, conforme havia apurado, o ator tinha sido secretário de Promoção de Defesa dos Animais do Rio de Janeiro, na gestão de César Maia. Na ocasião, acabou condenado por improbidade administrativa (e recorria da decisão) por ter contratado uma ONG da qual ele mesmo era presidente. Eu quis saber se Fasano não considerava incoerência protestar contra a corrupção tendo sido condenado por corrupção, mas ele não respondeu. Fechou a cara e saiu, seguido pelos outros artistas. Paciência.

Mas foi uma pena, porque eu também tinha uma questãozinha para o Fagner – que um pouco antes havia cantado “Guerreiro Menino” (de Gonzaguinha), oferecendo-a a Moro. O cantor já foi filiado ao PSDB e nunca negou sua relação direta com o tucanato. Em 1995, chegou a se mudar para Fortaleza, com vistas a se lançar na disputa pela prefeitura. Era pré-candidato com apoio de Tasso Jereissati, um dos caciques da legenda. Nas eleições de 2014, havia encampado publicamente a candidatura de Aécio Neves. Queria levantar a questão, mas não houve tempo.

É claro que a comitiva de artistas não foi a única a afagar Moro. Três anos atrás, o juiz e a Lava Jato eram quase uma unanimidade. Mesmo os colegas que atuavam na cobertura da operação, em regra, faziam coro à narrativa da força-tarefa. Não era pra menos. A operação era louvada em verso e prosa e Moro, seu expoente máximo, adquiria um status de semi-deus. E tome filme, série, livro… Fã da banda Capital Inicial (o que não me surpreende nem um pouco), o magistrado chegou a ser ovacionado em um dos shows. O prédio da Justiça Federal se tornou em ponto de turismo e ergueram um acampamento na praça adiante, onde senhorinhas usavam camisetas amarelas, estampadas com a cara do juiz.

Agora, no entanto, parece que os diálogos revelados pelo The Intercept iniciaram a desconstrução do mito do herói – que, aparentemente, se colocou acima da lei, como se, às expensas de acabar com a corrupção, tudo soasse legítimo. Nesta última semana, revistas tradicionais (inclusive a Veja) já trouxeram o juiz na capa, sem o verniz de paladino da Justiça. Para mim, foi sintomático que Moro tenha aberto mão da magistratura para se tornar ministro (sabe-se lá, se de olho numa cadeira do STF). Nessa jogada, no entanto, parece ter empenhado sua própria história. Não me admiraria se o boneco inflável caracterizado de Super-Homem se tornasse um Pixuleco. Bem… não se poderia esperar muita coisa de um pretenso herói cuja biografia foi escrita por Joice Hasselmann, não é mesmo? Aguardemos os próximos episódios.

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