A carne mais barata | Plural
22 fev 2019 - 0h00

A carne mais barata

Felippe Anibal relata o racismo brutal que viu nos seus dias de repórter policial

Em um domingo qualquer de verão, eu caminhava em direção à pensão em que morava, na Rua São Francisco. O ano era 2009, de modo que a via ainda estava a alguns anos de passar pelo festejado processo de “revitalização” que atrairia uma dezena de bares de classe média e uma legião de jovens descolados. Àquela altura, a rua continuava a ser uma espécie de cracolândia: uma viela obscura e inóspita, com vultos maltrapilhos se esgueirando pelos cantos, cachimbos improvisados à mão. À noite, sempre que eu descia para usar o orelhão, dava de cara com algum desvalido encolhido, estourando crack em pipadas rápidas. Nunca me dirigiram palavra pra pedir uma moeda que fosse.

Naquele domingo, contudo, o sol ainda não havia se posto e eu ia tranquilo, proseando com o Galão, que me acompanhava. Uns metros atrás, vinham dois rapazes como nós, com uma única diferença: eram negros. Só demos por eles instantes depois que passamos por uma equipe policial que os abordou com truculência ostensiva, com direito a safanões e armas em punho. Voltamos e questionamos os agentes sobre os motivos da revista, já que os rapazes nada tinham feito, além de transitar pela rua como qualquer um. “Fica na sua! Eles têm aparência criminal”, resumiu um dos soldados, com frieza e rispidez. Permanecemos ali, como se a nossa presença pudesse lhes garantir a integridade física. Após o esculacho, sem razão para mantê-los, os militares liberaram os jovens. Enquanto tornávamos a caminhar, Galão observou: “Ser preto deve ser foda…”.

A frase do meu amigo sempre me ecoa nas ideias, principalmente porque resume uma verdade que se tenta manter oculta: vivemos em uma sociedade tingida por um racismo estrutural. Nos anos em que exerci a função de repórter policial (aquele que cobre segurança pública, de delegacia em delegacia) isso se tornou mais evidente. Quando havia “locais de morte” (jargão para ocorrência em andamento, com morte violenta), quase sempre eu me deparava com um cadáver negro crivado de balas (eles representam 74,5% das vítimas, segundo o Atlas da Violência 2017). Quase sempre, a carnificina se dava na periferia, onde predominam moradores de pele escura, como se, por uma condição histórica, tivessem sido impelidos para lá, longe dos cartões-postais e das vistas dos “cidadãos de bem”. Às expensas dos meus esforços, as matérias não rendiam comoções: eram pretos e pobres, distantes dos ares nobres do Batel.

Em um desses plantões, fui parar em um dos rincões da CIC (se não me falha a memória, na Vila Sabará), após a polícia ter informado que havia um “Código 4” (ocorrência com morte). Quando cheguei, por detrás da linha de isolamento do IML, vi que a vítima era um menino negro, que jazia dentro de um bar, perto do balcão. Tinha oito anos de idade e havia sido atingido por uma bala perdida, disparada por alguém que abriu fogo contra o botequim. O garoto morrera segurando a nota de dois reais com a qual compraria uma coxinha. Naquela tarde, até o delegado – um dos bons, por quem tenho respeito – engoliu seco. Tinha um filho da mesma idade da criança assassinada e a comparação lhe foi inevitável:

“Meu filho é branco e mora em um bairro bom. Nunca vai passar por isso. Já esse povo daqui, é como se já nascesse marcado, predestinado à tragédia”, desabafou, ainda no local do crime. Um pouco adiante, enquanto o IML recolhia o corpo do menino ao rabecão, outros dois moleques – ambos negros – brincavam de carrinho ao lado da fita de isolamento, indiferentes ao sangue, como se nada de extraordinário tivesse acontecido. É como se já estivessem acostumados à violência e à morte. (Como cresceriam?). Quanto a mim, ainda sonho com o garotinho negro assassinado.

Em outra ocasião, a PM fez descer do camburão um homem negro, algemado com as mãos para trás, e o posicionou em frente ao paredão da Delegacia de Furtos e Roubos, apresentando-o como “ladrão” de um estabelecimento comercial. Enquanto cinegrafistas o filmavam, o preso alegava aos repórteres de tevê que era inocente. O oficial, então, o puxou de canto e ordenou que ele se calasse. Talvez tenha o ameaçado, porque, de fato, o acusado não disse mais nada. No dia seguinte, no entanto, o rapaz teve sua voz ouvida. Constatou-se que havia sido preso por engano, confundido com um ladrão, porque estava vestido de modo humilde, porque estava correndo na rua, atrasado… e porque era preto.

Se nas carceragens das delegacias e nas celas do sistema penitenciário eles são mais de dois terços, contam-se nos dedos os negros que estão do outro lado do balcão. Quando estão, chega-se a duvidar deles, como se causasse estranheza o fato de terem uma caneta em mãos – e não um par de algemas. Um desses casos que cobri se tornou emblemático: a advogada Andreia Vitor foi detida e torturada por policiais, ao questionar abusos em uma abordagem, no Bairro Alto. Quando informou que era advogada, foi ironizada – e talvez isso tenha lhe doído tanto quanto as agressões. “Advogada? Com essa corzinha?”, disse-lhe o PM. O processo contra os policiais corre até hoje.

Outro que sentiu na pele o fardo de ser negro foi o advogado Renato Freitas. Quando era candidato a vereador, o jovem foi abordado pela Guarda Municipal, preso por desacato e sofreu humilhações e torturas psicológicas. Em seu depoimento, relatou que os guardas se referiam a ele como “negrinho” e que falavam que gente como ele não chega a advogado. “Diziam que as músicas que eu estava ouvindo eram de favelado e que minha carteira da OAB era falsificada”, contou-me à época, ao ser libertado. Freitas ainda passou por outros maus bocados com a polícia, mas, pelo que pude conhecer dele, sei que vai continuar a peitar o racismo, apesar do preço que paga. Renato é “zica”.

Na quinta-feira da semana passada (14), você deve ter lido por aí ou assistido na tevê: Pedro Gonzaga, de 19 anos, foi imobilizado por um segurança do supermercado Extra, que o estrangulou por mais de cinco minutos, até a morte. Muito já se escreveu sobre o episódio, que teve repercussão nacional, de modo que eu – branco, de classe média e privilegiado – pouco tenho a acrescentar ao debate. Mas é inevitável que me lembre de tudo isso que relatei acima e de muito mais. É diuturno. São muitos Pedros, Andreias e Renatos, a cada dia e em cada canto deste país. Não é possível que consideremos normal que eles continuem morrendo – agora, talvez, sob justificativa de “escusável medo, surpresa ou violenta emoção”. Como disse meu amigo: “Ser preto deve ser foda…”.

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