Muito além dos mullets do MacGyver | Jornal Plural
24 fev 2021 - 1h00

Muito além dos mullets do MacGyver

Como a nossa memória opera maravilhosamente desordenada, com uma lógica que só faz sentido pra você

Sem nenhum compromisso, sem pretensões, sem nada previamente pensado, eu simplesmente olhei no espelho. O cabelo estava lá, ele ainda está. A genética das gerações anteriores já me prometeu que eles não ficarão para sempre por aqui. O cabelo fica insistindo em crescer e, estranhamente, não segue nenhuma das tendências estéticas ideais para ele, nem ao menos se comporta a ponto de crescerem igualmente. Pior: queima ao sol, embranquece com a idade, redemoinho, ondulando cada um pra um lado, cada um exercitando sua iconoclastia capilar, uma rebeldia só. Ali, na nuca, os cabelos um pouco mais cumpridos já podem ser chamados de um início de mullets, um nome que só aprendi muito depois nessa vida. Não fazia ideia o que seriam mullets até que veio a onda de críticas a sua existência em algum momento no final da década de 90 e no início dos 2000 – com direito a grupo de Orkut e tudo. Durante a década de 80 nem pensar! Mullets eram a última moda, algo a ser imitado e fotografado para que, no futuro, todos soubessem que você já foi um desses.

(Uma nota paralela: eu pensava que mullets era o nome do cachorro que acompanhava o Dick Vigarista quando ele perseguia o pombo-correio naquele desenho com a música chiclete “stop the pigeon / stop the pigeon/ stop the pigeon / stop the pigeon/ stop the pigeon / stop the pigeon/ stop the pigeon now”, porque eu nunca conseguia lembrar o nome daquele cachorro, só o som de suas risadas)

Olhando no espelho, minha memória de pessoa de mais de 40 anos escapa, incontrolável, e memória é que nem cabelo: cresce desordenadamente, não segue tendências ideiais, mas a genética das gerações anteriores já me prometeu que elas podem ficar por aqui se eu me cuidar. Ufa: um careca que lembrará dos dias de cabeleira.

Enfim, memória. Olha o espelho, olho o cabelo da nuca, lembro da alcunha de mullets (não é o cão do Dick Vigarista, que eu não lembro o nome… Como se chama mesmo?) e, do nada, vem música tema, vem manhãs de domingo da minha infância, vem a televisão dos meus avós que precisava esquentar pra passar alguma coisa e a voz do locutor dizendo:

Rede Globo apresenta: MacGyver!

Eu não pensava nisso há muito tempo! Onde é que eu fui parar apenas vendo meu cabelo desgrenhado (que eu escrevi “desgranhado”, mas apareceu aquela linhazinha vermelha embaixo que acerta mais vezes que erra) num espelho, sem nenhuma pretensão? É necessário fazer uma expedição ao âmago do ser para descobrir como isso aconteceu, meio que um psiquiatra desvendando os sonhos inconscientes de seu paciente. Com o agravante que não poderei colocar a culpa no imponderável do sonhar, a culpa é toda minha.

Primeiro – o mullets: Bom, esta semana eu estive com dois amigos meus que já foram cabeludos. Não foi o assunto da semana, mas certamente já foram pessoas com quem o assunto mullets aconteceu, mais de uma vez. Com ambos já fiz piadas com esse tema, certamente, até porque temos fotos que comprovam nossas fases capilares. Ok, então mullets já estava, de alguma forma, em terceiro plano no cérebro, bem ali, debaixo do cabelo desgranhado (dane-se a linha vermelha).

Segundo – o MacGyver: Acho que ele estava por ali no terceiro plano, também, por conta de algum vídeo antigo do programa de humor Saturday Night Live. Ele também sempre vem à tona quando se pensa em alguma coisa para se arrumar em que se tenha poucas ferramentas e, no comentário mais tio acima de quarenta de todos, “os jovens de hoje em dia não sabem o que é MacGyver”, como se os jovens tivessem perdido a oportunidade de ler os ensinamentos do budismo transcendental.

Que um puxe o outro não é nem preciso pensar tanto. Quando as piadas sobre mullets apareceram, a imagem do MacGyver via atrelada a ela quase sempre. É aquela coisa horrorosa que as novas gerações fazem de te apontar e fazer você ter vergonha de ter sido o produto a sua geração e de ter gostado de algo tão horrível. Vou falar bem baixo porque sou duplamente culpado: sou culpado de apontar pros meus pais e falar da estética do início dos anos 70 e serei muito, mais muito culpado de apontar para todos os eleitores do ano 2018 em um futuro muito próximo (sim, é uma ameaça, nem de perto tão grave quanto as ameaças que eu venho sofrendo desde 2018).

Então ali, debaixo dos cabelos, os mullets e o MacGyver estavam flutuando separadamente, cada um pra um lado. Talvez em hemisférios cerebrais diferentes, quem sabe. Mas foi uma olhada num espelho para que dentro do cérebro um dos profissionais que habitam a minha memória gritasse:

MULLETS!

– O quê?!

– Ele estava olhando pros próprios cabelos ali ó, no cabelo da nuca.

– Mas mullets? Não é bom a gente jogar uma memória do cabeleireiro?

– Cabeleireiro ele só lembra com o vídeo da “Cabeleileira Leila”, ele está tentando puxar os mullets.

– Nós não temos o mullets aqui, nas gavetas de armazenamento de memórias recentes.

– Então arpoa um mullets de longe e puxa pra cá! Aproveita e trás uma referência.

– Tipo “Chitãozinho e Xororó”?

– Não, essa dupla ele associa a Sandy & Júnior ou ao Jair Rodrigues cantando “Majestade Sabiá”. Que tal alguém de rock?

– Você acha que ele lembra alguém de rock, dos anos 80? Só se o Daniel Azulay tivesse mullets.

– Droga, ele tinha cachos, não serve!

– Tem o MacGyver…

– MacGyver tá perto?

– Tá meio no fundo, mas dá pra arpoar junto.

– Certeza?

– Vai vir coisas no pacote, mas nenhum trauma.

– Certeza mesmo?

– Sim, essas vergonhas infantis estão muito bem enterradas e, ainda bem, os pais dele não filmavam cada uma das coisas que ele fazia. Estamos salvos.

– Arpoe e puxe memórias… AGORA!

E veio tudo. O mullets do MacGyver puxou o narrador da Globo, a música, o seriado e veio muito mais:

Veio a sala de estar dos meus avós, meu irmão e eu pequenos olhando meio por debaixo de uma mesa de madeira que era pra quatro pessoas, mas podia abrir que ele virava pra seis. Logo depois da mesa a tevê de válvula, que só podia ser assistida pelas crianças se não fosse horário do jornal ou da novela.

Veio a colcha com textura sobre a cama de casal, que ficava numa garagem da casa dos meus tios em Joinville, onde a gente assistia tevês entre primos com os brinquedos espalhados enquanto o almoço não ficava pronto. O seriado MacGyver, ou qualquer outro, poderia incentivar a brincadeira que viria a seguir ou com bonequinhos ou num terreno baldio por perto.

Também a memória do sofá preto meio plastificado da minha casa e frase da minha mãe “é melhor ser assim, plastificado, que se as crianças derrubam alguma coisa e vai dá pra limpar” (mas depois eu descobri e testei o conjunto lupa, o sol e a plastificação).

Fiquei feliz pelas lembranças que vieram no conjunto, tudo no mullets. A arpoada da memória foi além do seriado e trouxe cores, cheiros de infância, parentes que não encontro desde antes da pandemia,

Eu até pensei em cortar o cabelo. Mas nesta semana, em que o cabelo e a memória estão tão juntos, melhor deixar eles crescendo soltos e desordenados por mais um tempo. Não quero ser Dalila e extraviar a força do meu passado e todos os seus pequenos detalhes que fazem de mim que sou. Quem sabe eu consigo arpoar mais alguma cois… MUTTLEY! Era esse o nome do cachorro. Ufa… e sem Google!


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