Foi uma escolha muito difícil? | Jornal Plural
27 jan 2021 - 9h00

Foi uma escolha muito difícil?

Uma breve discussão consigo mesmo sobre decisões políticas em momentos importantes da nossa história

Poderia ser ficcional? Poderia. Mas decido ser autobiográfico sobre um momento da minha vida e que, acredito, talvez tenha acontecido simultaneamente com você.

Você, leitor, talvez não se lembre disso com detalhes, mas o momento na história que falarei aqui foi numa eleição presidencial no Brasil, muito polarizada, pouco tempo atrás. Soa familiar? Você também lembra?

A coisa foi feia. A briga entre os partidos fez com que a gente recebesse um monte de notícias falsas, as opiniões eram dadas de maneira agressiva, estragou o Natal de muitas famílias, ninguém queria nem tentar ouvir seus opositores.

Porque não interessava ouvir: interessava ganhar.

Eu sempre comparei o comportamento político dos brasileiros ao estranho hábito psicológico apresentado nas torcidas de futebol. A paixão, ou seja lá qual doença for, supera qualquer lógica.

– É falta!

– Não foi falta. Você tá vendo no replay, eles nem se encostaram.

– Não interessa!

– Mas você tá vendo que não foi falta! Tá ali, ó!

– Eu SEI que encostaram.

– Mas tem sete câmeras, todas com Inteligência Artificial da NASA, tem um volume financeiro para controlar os movimentos de um jogo que não tem em nenhuma universidade que esteja desenvolvendo futuras vacinas!

– Não interessa nada disso! Vou defender que meu time sofreu até as últimas consequências. Vou xingar todas as rodas de conversa na televisão. Vou xingar quem falar o contrário nos fóruns de internet. Todos vocês são contra o meu amado e perseguido time!

– Você torce para um dos times mais ricos de São Paulo, que já ganhou de tudo! Como é que você pode se considerar perseguido?

– Viu? É perseguição pela inveja!

Quando um político é pego em roubo, o eleitor, no mesmo raciocínio, sente-se obrigado a defender seu voto e o seu eleito da mesma forma. Não é nada estranho, se você passou a vida, regularmente a cada semana, defendendo o indefensável.

Era o que acontecia aquele ano. O tal partido, que representaria os trabalhadores, estava sendo acusado de uma série de crimes. Havia a impressão que muitas dessas acusações ganhavam um outro nível de espetacularização para que os crimes de uns fossem os crimes de todos. Estava funcionando, muitos acreditavam que todos do partido estavam manchados.

Do outro lado, a direita conservadora aprumava-se, tentando deixar cheiroso algo que fedia à corrupção, nepotismo e uma vida na política com baixos resultados reais. Prometendo arrumar o país, exaltando os tempos imemoriais de outrora quando tudo era mais lindo graças ao poder mágico do conservadorismo. Ninguém parecia apontar, exatamente, que ano tinha sido esse, mas ele tinha existido – se você não lembra é porque foi estragado pelo seu ensino universitário.

No meio desse fogo cruzado, eu. E muitos outros como eu. Olhando a gritaria, olhando a raiva, tentando entender que ideias realmente serviriam ao país, mas sofrendo com o ilusionismo dos marqueteiros. Nossas eleições viraram grandes shows de mágica.

– Olá, eu queria entender a proposta do candidato sobre…

– Oh, não! Veja só o que o outro candidato fez contra a própria mãe em 1972. Você não vai acreditar ao abrir este vídeo.

– Não, espera… Eu queria mesmo era saber da proposta de…

– Veja este meme! Não é engraçado pensar na oposição derrotada igual a Argentina num jogo de futebol?

– A proposta…

– Olhe: uma notícia chocante sobre uma pessoa remotamente ligada a um parente de um assessor de alguém que talvez faça parte da campanha do adversário!

– Eu qu…

– Aceita um adesivo? Aceita? Afinal, você é contra todo o mal do mundo, né? Posso colocar esse adesivo no seu carro pra provar que você é contra todo o mal do mundo?

– Eu… Aceito.

– Mais um outdoor gratuito aqui, gente!

E quando finalmente chegou o dia da eleição, eu realmente fiquei congelado, em frente a urna, sem saber em quem votar. Eu tinha visto gritos e acusações e imbecilidades e equívocos e corrupções ligadas a ambos os lados, me deixando muito desconfortável com tudo o que estava acontecendo. Pelas minhas tendências de esquerda, deveria votar no tal partido dos trabalhadores. Deveria fazer pelo time. Faz de conta que você não viu as faltas cavadas na grande área, faz de conta que toda e qualquer acusação de impropriedade é tudo fantasiosa, aperta o nariz e vota. VOTA!

Não consegui. Apertei “branco” e fui pra casa.

No caminho, a apreensão era imensa. Porque, por mais que eu não quisesse fazer de conta que meu time era o mais puro e santo, o temor pelo o que aconteceria se o outro partido ganhasse – privatização, descuido do setor cultural, entreguismo subserviente a grandes potências, falta de investimento na educação, saúde e moradia das pessoas mais carentes – me deixava em pânico.

Cheguei em casa, temendo o retrocesso que viria. Para um certo alívio, pelo menos por aquela noite, eu até sorri quando chegou o resultado da vitória da Dilma.

Não era dessa eleição que você tinha lembrado?

Depois tudo degringolou. E, desde 2014, a gente fica com o estranho sabor na boca de que votar na esquerda pode ser ter que chamar uma ex-presidenta de mãe e que votar na direita é ter que defender que uma pessoa estuprada não pode abortar porque sim.

E eu sempre lembro de como foi difícil decidir em 2014. Porque em 2018 era muito fácil. Mas a torcida organizada apertou o nariz pra deixar a incompetência, a tortura, o ódio, a misoginia, o racismo entrar no centro do governo.

O ódio venceu. Nós perdemos. E ainda não paramos de perder.


Para ir além

Últimas Notícias