Em um passe de mágica | Plural
8 set 2019 - 12h35

Em um passe de mágica

Quando ele me alcança estamos no cruzamento. “Moça, bom dia. Não é assalto, prometo!”

Ele sorri assim que percebe a minha aproximação. Descola o corpo da parede amarelo ovo, os olhos fixos em mim. É sábado cedo, e quase não há pedestres ocupando a calçada da Barão do Cerro Azul. As poucas pessoas presentes se resumem aos artistas de ruas, em geral viajantes, que ocupam os faróis do Centro com seus truques e malabares.

Quando ele me alcança estamos em frente ao numero 245, a Lanchonete Sincheng, no cruzamento com a 13 de Maio. “Moça, bom dia. Não é assalto, não é sequestro, prometo!”, ele sinaliza. Sigo andando até a esquina, paro porque o sinal está aberto e os carros passam. Rio, me questionando se algum assaltante se vale de técnica similar. De qualquer forma, eu quase nunca ando com dinheiro. 

Ele me acompanha e para ao meu lado. Deve estar na faixa dos 20 e poucos anos – a pele clara ressalta algumas tatuagens que marcam o rosto. Observo uma espécie de escrita sobre uma das sobrancelhas, outros traços se distribuem pela face do rapaz – não consigo distingui-los com clareza. 

“Meu nome é Alisson, venho de São Paulo”, continua enquanto me questiona se pode fazer um truque de mágica. Digo que sim, mas que ele precisa ser rápido: é o semáforo que determina o tempo que lhe resta. Preciso ir. Ele saca um baralho surrado de um dos bolsos da bermuda – as cartas parecem mais com um tarô do que com um jogo comum de baralho. Ele as embaralha com agilidade, depois me pede que faça o mesmo. 

Devolvo o maço, um olho no truque, outro no sinaleiro. Ele me diz que hoje em dia quase ninguém tem tempo para mágica. Me pergunta se gosto de truques. Digo que sim, embora a pressa esconda o verdadeiro apreço que eu poderia ter por aquele momento. Ele pede que eu escolha uma carta qualquer, de forma que apenas eu veja qual foi a sorteada. Levanto um nove de ouros, as formas redondas e amarelas simbolizando a prosperidade. 

Devolvo a carta ao monte, e as mãos hábeis movem o baralho mais uma vez. “Você acredita em mágica, ou em magia?”, me questiona enquanto finaliza o truque. Digo que a pergunta é difícil, uma resposta que ele talvez não estivesse esperando. “Por quê?”, retorna. “São coisas distintas”, respondo contrariando a definição do dicionário, que coloca os termos enquanto sinônimos. 

Ele concorda, mas não sem antes anunciar que a carta que agora se encontra no topo do baralho ainda não é a carta escolhida. Com os dedos, desvira-a provando que está correto, e me pede para conferir a segunda carta – o meu nove de ouros. Alisson sorri antes mesmo que eu confirme, talvez com uma certa alegria, que o truque deu certo. A essa altura, o sinaleiro já fechou, mas antes que eu vá, há mais uma carta na manga. “Eu não peço dinheiro, mas se você puder me comprar um pastel aqui, de três reais, tem mais uma magia que eu preciso fazer hoje”, declara apontando para a lanchonete.

Me volto para a fachada amarela que emoldura cenas do cotidiano curitibano: eu nunca havia entrado ali, embora sempre observasse da calçada os seus fregueses. Com um breve “vamos lá” selo nosso acordo, e o mágico de rua se sente livre para confessar qual é o grande truque do dia: “Ainda preciso tentar conquistar uma amiga minha”, conta. “Taí uma magia para a qual você vai precisar de sorte”, brinco enquanto nos aproximamos do caixa. 

Por fim, ele diz que vai me fazer uma última pergunta, que faz para todos aqueles que topam o seu acordo: “Você sabe a diferença entre a cor e o brilho?”, sinalizo que não, movendo minha cabeça negativamente. “Cor tem em todos os lugares, brilho é o que vem do seu sorriso”, declara. Dou outra risada, a cena toda é bem ensaiada, mas um pastel de três reais não se nega a ninguém.

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