Ansiedade crônica | Jornal Plural
28 fev 2019 - 0h00

Ansiedade crônica

Ana Justi conta como é sofrer um ataque de pânico em pleno Centro de Curitiba

A palpitação no peito acompanha o ritmo do embrulho que, aos poucos, se forma no estômago. Mais um período de manifestação aguda de ansiedade se anuncia. A respiração começa a ficar entrecortada. Ainda que não seja perceptível, nem todo o ar do mundo seria capaz de encher plenamente os pulmões. Logo em seguida chega o mal-estar, a sensação exasperada de incapacidade.

Tento manter a calma, e retomar o controle do meu ritmo respiratório – peça chave do controle da crise, como me ensinou um socorrista do SAMU. Mas já é tarde, a cada novo pensamento a ansiedade aumenta – se acumula a cada expiração. Os pulmões parecem não sorver o ar. Vai me engolir.

Levanto-me da cadeira, decidida a deixar meu café preferido para trás e correr de volta para casa. Esses tipos de sofrimento só parecem adequados para o silêncio e a privacidade do quarto. Peço gentilmente ao atende que encerre a conta, e que a torta cheesecake – tão adorada – seja transferida para um isopor. Sequer tive tempo de tocá-la. Já é tarde, e são muitas as coisas que ainda precisam ser feitas.

Diante do caixa, os primeiros sinais externos começam a aparecer – os pés inquietos: incomoda-os essa imobilidade da espera. Os músculos da panturrilha parecem não se importar com o movimento frenético, importa-os apenas não suspender a ação.  

A exaltação me impele ao lado de fora, talvez por uma crença inconsciente de que um ambiente aberto contenha mais ar. Há, ainda, mais uma espera: pelo carro do aplicativo, preso em alguma parte do trânsito curitibano. Da calçada, escuto os sons da fonte da Praça Santos Andrade: a água sobe e cai em arcos ruidosos. São quase oito da noite e o ritmo frenético que se exprime durante o dia, sob o sol quente de uma quase primavera, já é mais lento.

Com a temperatura amena, ameniza-se também a pressa dos passos, alivia-se a tensão das feições dos transeuntes. Escuto os carros rolando sob o asfalto, o som da borracha contra o betume acompanha a queda ritmada das águas da fonte. Enquanto observo a ação daqueles ao meu redor, a harmonia dos movimentos da cidade me acalma. A respiração se abranda, aos poucos a mente acompanha o ritmo mais ameno. Casais passeiam com as mãos dadas. Alguém acende um cigarro enquanto espera por alguma coisa na soleira do hotel O’Hara. Um cão de porte grande rola na grama, observado de perto por quem, pressuponho, seja seu dono. Ainda bem que Curitiba tem essa mania estranha de sempre me fazer companhia.

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