A pata da gazela | Jornal Plural
24 jan 2019 - 0h00

A pata da gazela

Cansada, numa viagem de ônibus, a cronista repara numa bota que destoa dos outros pés contra o assoalho. “No pé direito o tecido fino, social, há muito já desistira de tentar se agarrar à fina canela de seu portador.”

Entro no ônibus e me encaminho ao assento dobrável, posicionado de frente para uma das portas do ligeirinho. A área é reservada aos cadeirantes, e quase ninguém ocupa o espaço. Ao permanecer de costas para a janela do ônibus, resta-me contemplar a silenciosa existência de meus companheiros de viagem.

O cansaço do dia já pesa os olhos, e fito o piso azulado do transporte coletivo quando noto os sapatos de segurança. O par de calçados me parece deslocado em meio às inúmeras botas e tênis que se destacam do assoalho.

Vejo as saliências do solado de borracha, e as linhas brancas que unem os retalhos puídos de vaqueta preta. As meias dão um toque extra de distinção à cena: no pé direito o tecido fino, social, há muito já desistira de tentar se agarrar à fina canela de seu portador. No outro pé, fibras cinzas e vermelhas envolvem o calcanhar delgado, contornando a borda do sapato que, algum dia, já fora acolchoada.

O comprimento insuficiente das calças cinzas fica mais evidente com o corpo sentado sobre o plástico amarelo do banco preferencial. A mais de um palmo das canelas, as barras dançam ao ritmo dos solavancos que nos conduzem ao centro da cidade.

Acima da mochila que repousa sobre o colo, os braços cruzam o peito, encobertos pelo moletom azul marinho. Longos e finos, os dedos asseguram a posição, deixando à mostra a sujeira que se apossa das unhas. Em meio ao cabelo raspado e a barba por fazer, pequenas constelações de fios grisalhos contrastam com a pele negra.

O frio é intenso, mas o sono é mais – a cabeça não se incomoda de fazer da janela travesseiro. As feições vão se acendendo e apagando conforme passamos pela iluminação pública, a luz artificial ressaltando as maçãs do rosto adormecido. Há uma certa paz no cansaço silencioso que se instala nos coletivos depois das seis da tarde – uma espécie de acordo tácito de cavalheiros.

Observo a sua respiração, o movimento – suave – passa despercebido aos mais desatentos. É quase um suspiro: longo e extenso, levantando os ombros e os braços em uma cadência serena. Na calçada, os transeuntes – e seus passos apressados – parecem ignorar a sonolenta cena. São seis e meia de uma quarta-feira cinzenta, e a cidade se desdobra nas sombras dos pequenos e desinteressantes acontecimentos.

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