A lapiseira da escuta | Plural
18 abr 2019 - 9h00

A lapiseira da escuta

Uma ferramenta de escrita pode ser sinônimo de ouvidos abertos? Ana Justi mostra que, para um livreiro inusitado, pode sim

Não me recordo de detalhes da primeira vez que o vi: que roupas trajava, ou se fazia frio. Lembro apenas das pequenas ações, e dos sentimentos que me despertaram. Creio que olhei primeiro para os livros – havia um amontado de pessoas de pé, ao redor dele, o homem que gesticulava com um punhado de lapiseiras plásticas nas mãos. Sentado no chão de concreto, a figura central não parava de falar um segundo. Um cão, devidamente encoleirado, estava deitado próximo ao homem. Um jogo de cena bastante incomum para a entrada de uma farmácia 24 horas, mesmo para Curitiba.

Os exemplares estavam espalhados pelo chão, em frente a um carrinho plástico amarelado. Elásticos sustentavam, ainda, penduricalhos como chaveiros ou coisas similares. O que me marcou foram os livros, eu parei por eles. Sempre paro. O homem, até então um completo desconhecido, interrompeu a conversa com seu público – voltou sua cabeça para o meu lado e disse, sorrindo: “Veja! Veja! Leve um livro!”. “Quanto custam?”, arrematei, já tendo interrompido de vez o meu movimento de entrar no estabelecimento.

“O que você quiser”, anunciou – para a minha surpresa. Abandonando completamente a missão que havia levado meus pés até a entrada da farmácia, me voltei para os livros, analisei título por título, entreouvindo a conversa com o restante do grupo. Quando dei por mim, estava eu mesma sentada no concreto, as pernas cruzadas, e as mãos a acariciar a pelagem do vira-lata, chamado Vader. Alberto é de Guarujá, veio a Curitiba sem muita coisa além de muitos sonhos. É cabeleireiro, mas não atua há algum tempo com isso.

O que levou àquele homem a entrada da farmácia 24 horas, ali em plena capital paranaense, foram duas paixões: livros e cachorros. Aceita doações de todos os tipos de leitura, vende os livros pelo valor colaborativo que a pessoa quiser dar. É para cuidar dos cachorros, que são também de todos os tipos: abandonados, atropelados, doentes, filhotes, idosos. A maciez da pelagem de Vader, toda preta, não o deixa mentir. O animal o acompanha com o carinho e a lealdade de quem é, de fato, bem cuidado.

Não levo nenhum livro – nesse dia – já não ando mais com dinheiro nos bolsos. “Escolhe uma lapiseira! Eu insisto! Para todo mundo que para pra me ouvir eu dou uma lapiseira. É uma forma de agradecer pelos ouvidos”, me diz estendendo o amontoado de meia dúzia de ferramentas para escrita. Enquanto procuro a mais sóbria, ele vai me contando: “Comecei a vender os livros com um monte dessas lapiseiras, a cada pessoa que me escuta, vou dando uma – em Curitiba quase ninguém para pra escutar”.

Escolho uma de corpo roxo, com os detalhes em amarelo berrante. Tenho minhas dúvidas quanto ao “Faber-Castell” grafado em branco no objeto, mas isso pouco importa. Embora jamais tenha usado o item, guardo-o junto às minhas canetas e outros itens de valor emocional.

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