23 abr 2022 - 10h14

Sujeito mulher

Não suportando o homem universal da ciência, ela multiplicou as epistemologias ao infinito, e agora ninguém mais sabe por onde pensar

As histéricas de Freud estão por aí desde Joana D’arc. Elas estão entre nós farejando o poder, vazando pelos cantos, deixando rastros. Para Hipócrates, a causa da doença era o sangue uterino que subia à cabeça. Mulheres irascíveis, como Bianca e eu.

O que quase ninguém sabe é que nossa condição não é mera insubordinação ao mundo dos homens e suas instituições. Toda histérica carrega consigo a pergunta sagrada, que costurada em segredo na dobra da saia: o que é uma mulher?

Não suportando o homem universal da ciência, ela multiplicou as epistemologias ao infinito, e agora ninguém mais sabe por onde pensar. De repente, o mundo ficou confuso e é bom que agora ninguém mais fale em sujeito, essa criatura una, masculina e universal.

Sujeito, quando se converte em sujeita, já não designa a mesma coisa. A mulher histérica cospe fogo no tribunal de Descartes. Não sou sujeita, estou.

Sim. Porque é possível ser sujeito e estar sujeito. Não como quem se assujeita, não se trata de ser passivo, senão de estar passível ao sabor do acaso e das coisas que lhe escapam.

Escapar é sempre pelas mãos.

Conheci Bianca estirada em um banco de praça, um sorriso se retribuiu ao outro e ali mesmo fomos ter assunto, sem rodeios ou valsa vienense.

Se fôssemos gorilas em estado de atração, talvez ela me cheirasse as axilas para encurtar distâncias. O cheiro é o primeiro e mais certo indicativo de qualquer coisa: impossível amar alguém que não lhe cheire bem.

Ela não perguntou do meu dia, mas pegou na minha mão como quem lesse o destino nas linhas da palma.  Mapa sobre Mapa.

“A sua mão, que engraçada. Olha só a minha, parece mais velha. Tudo bem que sou mais velha, mas é que elas são tão diferentes.”

“Devem ser as tatuagens. Você tem esses eneagramas pelo corpo, tudo isso é um tipo de inscrição, convoca alguma coisa. Se eu tivesse uma cobra tatuada no pescoço acho que seria uma outra pessoa.”

“Mas você não tem nenhuma tatuagem nem calos. Parece zerada, nua.”

Uma mão meio virgem, acho que ela estava certa. Nunca havia tocado outra mulher que não fosse Bianca.  Tocá-la então, era uma espécie de inauguração.

Ser virgem das mãos pode ser um perigo, porque nos rituais de iniciação é preciso que alguém te conduza por elas. Ser objeto de manuseio é o risco dos incautos.

Ao mesmo tempo, ela me diz: não estou aqui à disposição do seu prazer de descoberta. O que te interessa? O que deseja? O que é que diabo que vê em mim que não a sua própria curiosidade?

Bianca se defende como pode. Tem chicote na língua, caso eu não entregue as respostas que convém ao seu espelho.

“ O que desejo em você é o que não está à mostra, aí então eu te desejo.

“ Está bem” – E engole o alívio temporário de quem não se dá por satisfeita. Cessar fogo temporário, até a tarde do dia seguinte.

Ela não sabe que ser virgem das mãos pode ser uma benção divina. A mão que é virgem, lisa e sem calos, vive inaugurando o mundo que tateia.

Mas existe também o contrário. Mãos que sabem demais e tanto: excesso de tatuagem, memória, cicatriz. Viveram da vida e também da morte, examinaram com minúcia os relevos do mapa, e no entanto, desconfiam daquilo que escapa.

Uma mão assim, tão cheia de história, afirma convicta, indicadores ao alto: eu sou isso que você está vendo, que eu quero que você veja. E afia suas lâminas na bainha da saia.

Se eu lhe fizer objeto, acho que ela me furaria os olhos.

Na impossibilidade de ser qualquer coisa, recuo soldada ferida, tomo distância. Ninguém será objeto manuseável e assim evitamos o primeiro toque, o contorno da seda, a tênue-táctil definição: mulher sujeito, sujeita, passível de.

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