15 out 2021 - 8h45

Raras travessas

Seriam necessárias  bússolas e mapas para achar a volta, mas nossas histórias por essas ruas prescindem de medidas, estão todas cravadas na memória

A cidade cresce e se encolhe como se fosse uma espécie de corpo disforme.

Uma via única é um tipo de assassinato e desde então a Mateus Leme se tornou mais silenciosa. 

A alfaiataria deu lugar a um brechó muito moderno. Nenhuma agulha restou no lugar. O Bar São Jorge, com sua fachada bordô desbotada, foi coberto por um grafite que eu já vi se repetir. Um novo pub surge na cidade. Um conceito, uma assinatura, uma nova geografia da qual eliminaram os relevos. 

Neste instante todas as ruas levam ao Angeloni, a antiga ruela foi tomada pelo tráfico e no fim das contas acredito que dê tudo na mesma.

Se a cidade fosse um plano todos os caminhos estariam destinados a uma via de mão única pela qual jamais teríamos nos visto por mais de cinco segundos,

e os prédios espelhados refletiriam esse profundo cansaço

Você me pergunta do mistério, mas entre o reles acaso e o destino colossal, talvez seja melhor contar com a boa sorte, e é de fato uma sorte que nossos descaminhos tenham se encontrado num pequeno lapso de tempo que não o de uma via única, nem das paralelas ou das perpendiculares, mas das ruas sem saída onde me detenho na paragem e percebo que seu sorriso é mais bonito do que havia reparado. Talvez não tivesse visto bem o bastante, não sei.

Já estamos na metade de outubro e venho contando as semanas para que nos floresça a primavera. Os vestidos estão ansiosos em vinte tons de vermelho, e nesse dia lhe tirei pra dançar. Passou por mim uma brisa desconhecida e agora tento a orientação. Seriam necessárias  bússolas e mapas para achar a volta, mas nossas histórias por essas ruas prescindem de medidas, estão todas cravadas na memória.

Na Barão de Antonina, eu me lembro. Há uma casa escondida desprovida de toda graça, não fosse o quintal de milagres ao fundo. Uma década de festas sem patrocínio, improvisadas como a tentativa do alvará, em eterna negociação com as imortais do São Francisco. 

João me disse que viver é uma espécie de povoamento, acho que ele estava certo.

Dessa cidade, evito os cartões postais. As imagens que carrego são dos lugares por onde dancei e só por isso já me vale esse corpo. Que ele por vezes tropece no seu, é de uma sorte tremenda.

Que uma travessa seja destino e paragem

em meio às tantas vias de mão única

sessenta quilômetros por hora

edifício Manhattan

prédios espelhados 

e essa gente toda espalhada pelo chão,

 acho digno de um milagre.

Como é milagroso o fato de que na Rua Professor Fernando Moreira

em frente a uma casa Rosa

Exista a presença da Rita, que cultiva Rosas amarelas em frente a janela

Enquanto o resto do mundo se entretém com as costelas de Adão.

Não sei se Rita é um convite à cidade

Naquilo que na cidade é o gesto o mínimo detalhe

Ou se a cidade encontra seu paradeiro em frente a casa de Rita

E ali se redime de querer ser tanto

do desejo inconfesso de que a casa Rosa

abrigue um empreendimento mais valioso do que as Rosas

Sim, a cidade nos contorna por todos os lados

enquanto nós brincamos de traçar outros paradeiros

escrutinar a novidade das madrugadas acesas

desencaminhar o sentido das ruas

Esboçar vestígios dessa sutil passagem que se dá a passo lento.

Falhar melhor requer muita pontaria, portanto, cuidado.

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Neste episódio os textos e ideias prazerosas de Otto Leopoldo Winck, William Cruzoé Teca, Guilherme Zarvos, Sergio Viralobos, Edilson Del Grossi, Gabriele Gomes, Bernardo Pellegrini, Amarildo Anzolin, Francisco Cardoso de Araujo, Marielle Loyola, Flavio Jacobsen, Maurício Popija, Adriano Samniotto, Leonard Cohen, Wally Salomão, Natalia Barros, Trin London, Daniel Quaranta, Marcelo Brum-Lemos, Michel Melamed, Julio Cortazar, Mauricio Pereira, entre outros não menos alvissareiros.

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