O Vampiro, o besouro e outras confissões | Jornal Plural
31 jan 2019 - 0h00

O Vampiro, o besouro e outras confissões

Sobre Dalton Trevisan (parabéns! 94 anos no dia 14 de junho!), um de seus amigos (sim, ele os tem)  recordou um episódio. Lá por 1970,…

Sobre Dalton Trevisan (parabéns! 94 anos no dia 14 de junho!), um de seus amigos (sim, ele os tem)  recordou um episódio. Lá por 1970, seus livros começaram a ganhar o mercado externo. Ou, como diriam mais tarde, começavam a bombar. O primeiro deles foi Novelas Nada Exemplares, traduzido para o espanhol, inglês, alemão e, quem diria, na época, holandês.

Conforme relato do próprio Vampiro de Curitiba, foi com o tradutor na Holanda que a porca (quase) torceu o rabo. Afinal,tradução traição… Em um dos contos, Dalton fala do besouro que se debate do lado de fora da janela. Besouro? O tradutor, muito compenetrado, buscou de todas as formas a mais fiel das transposições, até porque, como já se disse, tradução traição. Mas qual seria o correspondente mais próximo de besouro para um leitor da Holanda? O tradutor, sem querer ser traidor, patinava. Só chegava perto… Meticuloso ao extremo, afinal é atleticano e da velha Baixada, as traduções vinham e Dalton mandava de volta, devolvendo o texto p ara desespero do editor e, por supuesto, do coitado do tradutor.

Tudo culpa do besouro sem uma imagem correspondente. Lá pelas tantas, o Vampiro não teve dúvida: capturou um besouro, colocou o dito cujo em uma caixa de fósforos (da marca Pinheiro) e despachou o bichinho para a Holanda. Já pensou se fosse barrado na alfândega, tráfico de besouros?

Passado bom tempo, depois de acurado exame do besouro in natura e muitas acrobacias mentais, lá na Holanda o tradutor achou um inseto de semelhança e trejeitos mais indicados para transpor para a cuca do leitor holandês o que seria o tal de besouro. E ele, o leitor de bandas distantes, pôde beber água de fonte segura. Tradução sem traição.

É, parece brincadeira, mas existem 300 mil tipos de besouros, embora todos pertençam a uma mesma  família, a doscoleópteros.

Confissões do Vampiro adolescente.  Ainda do Dalton, em O Vampiro de Curitiba, reedição, 1974:

– Adolescente, meu ideal era ser corredor de 110 metros sobre barreira. Jovem de bigodinho, sonhei ser farol de dancing, o galã amado por todas as táxi girls. Nem atleta, nem bailarino de gravatinha borboleta, meu lugar é entre os últimos dos contistas menores.

 – Um herói solitário é a soma de não sei quantas pessoas. No fundo de cada personagem há um pouco de mim. Nelsinho, odelicado, é certo que sou eu. Também sou GigiNanáFirififi. Vampiro, sim, mas de almas. Espião dos corações solitários.

Um escorpião de bote armado, eis o nosso grande contista.

PS – A quem interessar possa, besouro na Holanda é conhecido como kever.

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