21 maio 2021 - 2h36

Que fim levou o Voe Paraná?

Programa de incentivo à aviação regional operou por seis meses e governo não conseguiu convencer companhias aéreas a retomá-lo

Quando o avião Cessna Grand Caravan da TwoFlex decolou do aeroporto Afonso Pena, em São José dos Pinhais, às 12h15 de 22 de outubro de 2019, com destino a Guaíra, era lançado oficialmente o Voe Paraná, o plano de incentivo à aviação regional do governo do Paraná.

Além de Guaíra, outras nove cidades passaram a ser atendidas regularmente com voos vendidos pela Gol. Seis meses mais tarde, porém, o programa foi suspenso e até agora não foi retomado.

A paralisação do Voe Paraná tem duas explicações claras. A primeira foi a pandemia de coronavírus, que em março de 2020, deixou a grande maioria dos aviões no chão. Somente uma malha mínima operou no início da pandemia. Praticamente ao mesmo tempo, em abril, a Azul concluiu a compra da TwoFlex por R$ 123 milhões, finalizando, assim, a parceria desta com a Gol.

No período em que funcionou, o Voe Paraná ligou as cidades de Arapongas, Campo Mourão, Cianorte, Cornélio Procópio, Francisco Beltrão, Guaíra, Paranaguá, Paranavaí, Telêmaco Borba e União da Vitória, com a capital Curitiba. E transportou 7.557 passageiros em 2.639 voos, dando uma ocupação média de 32% — a capacidade dos aviões Caravan é de nove passageiros. Uma taxa muito inferior à de qualquer outra rota comercial que opera nos outros aeroportos do estado, que ficava acima de 70% no período pré-pandemia.

A questão é que o tempo passou e os aeroportos dessas dez cidades do interior voltaram à mesma pasmaceira de antes. Só que enquanto isso ocorria por aqui, outros estados conseguiram dar prosseguimento com a Azul — por meio da agora Azul Conecta — a programas semelhantes que já tinham em conjunto com a Gol ou diretamente com a TwoFlex. São os casos do Ceará, Espírito Santo, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo.

Um exemplo emblemático é do Rio Grande do Sul, que já havia retomado algumas rotas regionais em 2020, mas que neste ano ampliou a capilaridade da malha aérea. Em fevereiro, a Azul e o governo gaúcho fecharam parceria para oito novos destinos a partir de maio, chegando a um total de 15 cidades servidas pelo transporte regular de passageiros.

A questão é: por que o Paraná não conseguiu retomar os voos regionais, agora em parceria com a Azul?

Aqui é preciso voltar um pouco no tempo e esclarecer como o Paraná conseguiu atrair a Gol e a TwoFlex em 2019. Desde o governo Beto Richa, o estado passou a dar incentivos às companhias aéreas que ampliassem as rotas no estado. Os incentivos, basicamente, se resumiam à redução da alíquota do ICMS sobre o querosene de aviação. Quanto mais destinos, menos ICMS, mas com um limite mínimo.

Rapidamente a Azul começou a ampliar as bases no estado, voando para Pato Branco, Ponta Grossa e Toledo. A Latam, por não ter aviões para operar em aeroportos menores, ampliou o número de voos para outros estados e mesmo fora do Brasil, a partir de Foz do Iguaçu e Curitiba (a rota para Santiago não chegou a ser operada devido à pandemia). E a Gol, também por não possuir aeronaves menores, encontrou o caminho pela TwoFlex e o Voe Paraná.

Agora, com a Azul operando aeronaves ainda menores, as únicas capazes de pousar e decolar de aeroportos como Paranavaí e Guaíra, uma ampliação de destinos pela Azul Conecta não faria tanto sentido, já que os destinos operados atualmente dariam à companhia aérea os benefícios do ICMS. Não precisaria, portanto, ampliar o número de cidades.

E é nesse ponto que entra o poder de negociação do governo do Paraná que precisa ir além da questão dos benefícios fiscais. Sem essa carta na manga, é preciso mostrar à Azul que é interessante, especialmente do ponto de vista financeiro, voar para as cidades menores. O problema é a taxa de ocupação que citei acima.

E há ainda outro problema: a frota da Azul Conecta. Hoje, a companhia tem 17 Caravans voando pelo Brasil, cumprindo voos de passageiros, mas também de transporte de carga. E todas estão ocupadas para operar as rotas atuais. Ou seja, ou a Azul investe em mais aviões para voar para o Paraná ou ela cancela rotas para atender o estado.

O governo do Paraná garante que está em negociação com a Azul e mesmo com outras empresas. No entanto, as conversas ainda não evoluíram. Foi o que disse o secretário estadual de Infraestrutura e Logística, Sandro Alex.

“Estamos prontos para retomar, já temos negociação adiantada com as empresas, mas neste momento delicado ainda não há como avaliar precisamente o retorno. Mas assim que tivermos uma estabilização da Covid-19, não temos dúvidas de que estaremos novamente com o programa em ação”, garantiu em 20 de abril.

Aguardemos.


Para ir além

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

2 comentários sobre “Que fim levou o Voe Paraná?

  1. Não sei qual o interesse do governo ficar incentivando essas linhas, isso é interesse privado. Se houver procura as empresas privadas tomam a iniciativa de implantá-las.

  2. Esse estado é uma grande fazenda, até Santa Catarina tem todos o seus aeropostos funcionando só aqui que as coisas não funcionam.

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