24 ago 2021 - 8h00

A história do avião que o caminhão levou

Boeing 727 que pertencia à Rio Linhas Aéreas foi colocado sobre uma carreta para ser levado de São José dos Pinhais a Cuiabá. Pode ser o fim de uma longa jornada

Todo avião tem uma história. Pode ser um grande destaque, pode ser só mais um na multidão aeronáutica, pode ter um fim glorioso ou pode ter um fim trágico. O passar dos anos vai definir se aquela máquina, aparentemente sem vida, viveu plenamente e atingiu todas as suas aspirações.

Hoje vou contar a história de uma aeronave que virou notícia na última semana em Curitiba e região porque o seu charuto (o corpo principal do avião) estava sendo transportado sobre um caminhão em São José dos Pinhais – as asas e o restante seguiam em uma carreta atrás. O destino, via terrestre, será Cuiabá, no Mato Grosso.

Obviamente chamou atenção. Naquela velocidade das redes sociais, chegaram a dizer que havia sofrido um acidente e que aquilo era o que tinha restado da máquina. Por sorte não foi isso.

Antes de subir no caminhão, esse avião em questão já tinha rodado muito, especialmente nos Estados Unidos e, claro, no Brasil. Para começo, trata-se de um Boeing 727-200 – para os mais exigentes, um 727-264F. Uma aeronave com uma tradição enorme na aviação comercial nos anos 1960, 1970 e 1980 e que virou nos anos 2000 uma máquina de fazer dinheiro com o transporte de carga.

Esse espécime do caminhão subiu aos céus pela primeira vez em 26 de janeiro de 1983 a partir de Renton, no estado de Washington, nos Estados Unidos – lá ainda é uma das linhas de montagem da Boeing. Ele levou o número 23014 no crachá, o seu registro de nascimento, por assim dizer. Vinte dias depois, foi entregue para seu primeiro dono: a USAir, que depois foi US Airways, que foi comprada pela America West Airlines e que foi incorporada pela American Airlines.

O 23014 quando vestia as cores da American Trans Air. Foto: JetPix/Wikimedia Commons.

A aeronave ficou com as cores da USAir até 1993, quando foi repassada para a American Trans Air, outra companhia aérea americana que não existe mais. Por lá voou durante oito anos, quando foi devolvido para a empresa de leasing BATA. Parecia que seria o fim. Parecia.

Nessa época, o Boeing 727 não era mais o queridinho da aviação comercial de corredor único. O irmão mais novo 737 e a linha europeia Airbus A320 já dominavam esse mercado. Mas na vida é preciso se reinventar. E foi assim com esse 727 e tantos outros nesse período.

Em 2003 passou por uma cirurgia daquelas. Todas as poltronas dos passageiros foram embora. Uma nova porta, maior, foi instalada na lateral esquerda. Alguns reforços estruturais também foram realizados. Foi então que, oficialmente, o 23014 se transformou em um avião cargueiro.

E seu primeiro trabalho foi com a Astar Air Cargo, outra empresa que não existe mais. Carregava na sua fuselagem as cores amarela e vermelha e a marca da famosa transportadora DHL.

Foi assim até 2010, quando ganhou novos ares. Aliás, ares bem diferentes. Foi quando veio para o Brasil vestir o uniforme da Rio Linhas Aéreas, então companhia aérea cargueira com base no aeroporto Afonso Pena, em São José dos Pinhais. O amarelo e o vermelho deram espaço para o branco e o verde.

Últimos suspiros do 23014 no aeroporto Afonso Pena. Foto: Melo Araújo/Wikimedia Commons.

Durante vários anos, esse avião cruzou os céus do Brasil durante as noites, cumprindo as rotas da Rede Postal Noturna (RPN) dos Correios, levando pra lá e pra cá milhares e milhares de cartas, documentos, encomendas, jornais, revistas, e muito mais. Fez isso durante quase sete anos.

Em 2017 a Rio parou suas operações cargueiras. E desde então, o 23014 estava largado e entregue ao relento em um dos pátios do Afonso Pena. Fazia companhia a outros aviões que, infelizmente, estavam na mesma situação. Uns seguiram em diante, outros ainda esperam.

Para ser transportado pelas estradas do Brasil até Cuiabá, precisou ser mutilado. Asas e todas as estruturas de voo foram arrancadas. Trem de pouso, idem. Tudo para que pudesse ser levantado e encaixado sobre a carreta.

Pode ter sido o fim do 23014. Digo pode porque ainda não se sabe o que será dele no Mato Grosso. Mas essa operação extremamente complexa e cara dá algumas pistas. Dificilmente alguém gastaria tanto dinheiro com isso para botar fogo ou terminar a mutilação.

A melhor hipótese é que as partes dele se reconectem e ganhem um belo banho de loja. Que seja colocado sobre um suporte e seja transformado em um espaço para visitação, puramente para apreciação da aviação. Não seria um fim. Mas sei que há uma tentação enorme em transformar aviões em bares e restaurantes. Não seria um fim, mas quase.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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