VDM edição extraordinária: Dia da Mulher | Plural
9 mar 2019 - 21h05

VDM edição extraordinária: Dia da Mulher

Melina Santos traz exemplos positivos e polêmicos de ações criadas para homenagear as mulheres no dia 8 de março


A edição extraordinária da coluna VDM começa com uma notícia bombástica:

NENHUMA MARCA É OBRIGADA A FAZER CAMPANHA DE DIA DA MULHER.

Ufa, isso por si só deveria ser um peso fora dos ombros de quem não entendeu nada do propósito da data.

Mas lá vem mais uma: NÃO É UMA DATA COMERCIAL. Também, na minha opinião, não é lá muito comemorativa. Na verdade, é de dia de tretar mesmo pra mudar comportamentos, atitudes e visões que estão aí 365 dias por ano.

Mas claro que as marcas estão de olho no potencial de consumo e decisório de compras das mulheres. Só que nem todas querem fazer a reflexão e rever posturas. Pra muitas, mudar a vitrine ou o site pra cor-de-rosa já resolve. Não tem problema nenhum com a cor, as flores, os chocolates, esmaltes, nada disso. O PROBLEMA É QUANDO É SÓ ISSO.

Se não tem uma atitude coerente por trás, a campanha é vazia.

Embora a boa intenção exista (em boa parte dos casos), esse é um momento em que algumas ações nascem destinadas ao VDM*.

Eu até consigo visualizar um gerente pró-ativo que tenha pensado em fazer uma homenagem carinhosa. Mas jura? Dona de casa por habilidade? Mãe por instinto? É uma sequência de lugares comuns super limitadores e que não ajudam em nada a criar uma consciência de que “mulher é” muito, mas MUITO mais que isso.

Essa parece ter sido uma iniciativa pontual de uma loja (até pela simplicidade do papelzinho grampeado ao pacote do lanche), mas no ano passado o Mc Donalds se envolveu em outra polêmica maior: em “homenagem” à data, escalou equipe 100% feminina em algumas lojas. Adivinha quem ganhou folga? Este ano, uma ideia parecida foi colocada em prática pela Polícia Militar em Curitiba. A PM diz que partiu das próprias policiais, mas ficou esquisito.

Há aquelas ideias inofensivas, mas que dão uma vergonha alheia… Em 2018, semáforos de Curitiba receberam cílios gigantes em homenagem às mulheres (oi?)

O mais comum é quem pinte a loja inteira de cor de rosa, com interesse mesmo em vender. Tanto que pouco importa qual produto.

Outras campanhas chegam na malandragem mesmo. Na promoção de Dia da Mulher do Hopi Hari, mulher acompanhada de um pagante entra de graça.

A ação foi criticada porque, na prática, para que a mulher vá de graça mesmo, provavelmente ela teria que estar acompanhada de um homem pagante. Se duas mulheres fossem juntas, uma até poderia pagar e a outra não. Mas isso equivaleria a ser uma promoção de 50% de desconto ou duas entradas pelo preço de uma. E adivinha? Essa já existe, para o mesmo dia, inclusive!

Ah, também teve o concurso com a temática “Mulheres na Fotografia” que escolheu um homem como ganhador.

Depois de muita reclamação nas mídias sociais, os organizadores refizeram a seleção e escolheram uma ganhadora mulher.

Uma agência digital de Blumenau fez um post com o argumento “se dê o respeito”. Difícil entender o propósito, mas a publicação foi apagada. Não há na página nenhuma explicação ou pedido de desculpas. Sumiu.

Na arena política, aquela maravilha de sempre…

O presidente Bolsonaro, que já disse lááá atrás que a única filha mulher tinha sido uma fraquejada, voltou a polemizar ao dizer que seu ministério é o mais equilibrado na história:

“Pela primeira vez na vida o número de ministros e ministras está equilibrado em nosso Governo. Temos 22 ministérios, 20 homens e duas mulheres. Somente um pequeno detalhe, cada uma dessas mulheres que estão aqui equivalem por dez homens”.

Damares, a ministra VDM ambulante, também trouxe sua pérola ao dizer que o governo vai ensinar os meninos a abrirem a porta do carro pras meninas.

Porque, claro, é disso que a gente precisa.

Espancamento, feminicídio, misoginia. Tudo isso vai se resolver quando os meninos começarem a abrir a porta do carro.

E olha que a falta de noção no 8 de março não é exclusividade dos brasileiros.

Um panfleto da Liga da Itália provocou alvoroço ao listar o “papel natural das mulheres” é dar suporte às famílias (qual seria o papel dos homens?), além de criticar vários avanços como as cotas criadas para diminuir as desigualdades de oportunidades no mercado de trabalho e até casais do mesmo sexo.  

Em Londres, uma aula de culinária pra comemorar o Dia das Mulheres foi cancelada depois das reclamações. Um recital de piano pra comemorar a data, com um solista homem, também foi alvo de protestos.

E poderia continuar listando vários exemplos de fiascos nesse tema nos últimos anos.

Mas, pra encerrar, escolhi mostrar alguns exemplos positivos de quem fez a lição de casa e conseguiu passar alguma mensagem consistente no 8 de março.

Nos Estados Unidos, a Budweiser CORRIGIU antigos anúncios sexistas, como um mea culpa e uma atualização mesmo na forma de encarar o público feminino.

Aqui no Brasil, a marca de cerveja lançou a campanha “Troco Flores por…”, com a proposta de colocar homens no lugar as mulheres. Assista aqui ao vídeo com Karol Conka, Tássia Reis e Ciara. A cervejaria Bastards, de Curitiba, colocou três funcionárias reais em 2018 pra ler comentários machistas da internet e o resultado ficou muito engraçado, mas cheio de significado.

O Grupo Pão de Açúcar deu um presente diferente às colaboradoras da sede: oficinas de elétrica, hidráulica e furadeira com as meninas do Agiliza Lab.


((Claro que nem todas as funcionárias podem ter esse interesse ou habilidade: mas o que quero frisar é a postura de propor algo fora do estereótipo,))

Infelizmente, não achei nas páginas oficiais do banco digital Next, mas vi nos grupos de redes sociais vários funcionários mostrando que, no Dia da Mulher, foram distribuídos para todos – homens e mulheres da equipe – cópias do livro-manifesto Sejamos Todos Feministas.

Nem todas essas experiências (positivas ou polêmicas) do Dia da Mulher começaram nas redes sociais. Mas desde que esse universo aqui se expandiu, é na internet que elas reverberam pro bem e pro mal.

Que tal pensar um pouco diferente pro ano que vem? Que tal praticar um pouco de empatia e entender de uma vez por todas que um homem atrás de uma mesa NÃO SABE a diferença que faz uma palavrinha a mais, uma imagem escolhida de qualquer jeito, uma brincadeirinha que parece inofensiva. Isso vai dar merda.

Que tal envolver mais mulheres na decisão do que fazer para o seu público e a sua equipe no Dia da Mulher?

Não precisa fazer ação de Dia da Mulher se você acha que tudo isso é mimimi. Mas, se decidir fazer, é bom fazer direito, sem hipocrisia.

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