Precisamos falar de machismo: o curioso caso Gabi Cattuzzo | Plural
28 jun 2019 - 0h26

Precisamos falar de machismo: o curioso caso Gabi Cattuzzo

Fazer gerenciamento de crise digital também é uma forma de posicionamento de marca

Não se trata só de apagar um incêndio, pelo contrário.

A maneira como a gente lida com ele, quando acontece, diz muito sobre quem somos e qual percepção queremos passar pro nosso público e pra sociedade como um todo. 

Quase todos os meus clientes dizem que nunca vão precisar do item “gerenciamento de crise”. E a gente sempre espera que não precise. Mas não dá pra garantir.

Essa semana, a marca de produtos especializados no universo gamer Razer, deu uma aula de misoginia no gerenciamento de uma crise que começou no Twitter. Por incrível que pareça, tem muita gente elogiando.

Se você não acompanhou, eu explico:

Gabi Cattuzo é uma jovem que ganhou notoriedade entre um público bem especializado e majoritariamente masculino fazendo streaming de jogos.

Gabi é mulher.

Na semana passada, ela postou uma foto no Twitter fazendo uma piada.

Recebeu, como de costume, vários comentários ofensivos de cunho sexual. 

E reagiu. Da melhor forma? Não sei. 

Eu do alto dos meus 36 anos (ooops), poderia ter dado outra resposta. Certamente esse comentário em si não representa isoladamente só ele, mas foi uma gota d’água em um balde cheio desse tipo de comportamento cotidiano.

Ela levou a ofensa bem a sério e se excedeu na resposta (segundo ela mesma), generalizando que “todo homem é lixo”.

Reagiu com “sangue no olho”, como eu sempre digo. E foi aí que a polêmica começou.

Muitos (mas muitos mesmo) gamers começaram a cobrar um posicionamento da Razer, que tinha um contrato de patrocínio com Gabi Cattuzzo.

E o que a empresa fez? 

Além de comunicar que não renovaria o contrato com a influencer, publicou essa nota aqui:

[uma daquelas que pretendo guardar como não-exemplo de gerenciamento de crise]

“Estamos desde o começo, como gamers, enfrentando todo tipo de preconceito e estereótipo, e continuaremos lutando para que esse tipo de situação não se repita.

A empresa é totalmente contrária a qualquer tipo de discriminação seja ela de sexo, religião, partido político ou qualquer tipo de intolerância e extremismo”.

Sim, é isso mesmo. 

Num contexto do movimento global de tantas marcas abraçando a defesa das mulheres em meio a uma cultura machista e de objetificação, o posicionamento oficial da marca foi de defender OS HOMENS de preconceito.

Em nenhum momento, citou as ofensas que Gabi e outras tantas mulheres que se metem a entrar no universo masculino dos gamers sofrem TODOS OS DIAS. 

Em nenhum momento, teve qualquer tipo de tom humano de ponderar possíveis dois lados dessa história. Dizer que estava todo mundo errado.

Apenas cedeu à pressão dos “consumidores” e adicionou mais um lado errado nesse péssimo case pra todo mundo. 

Era melhor ter se calado.

Agora volte até a mesma imagem e leia os comentários. Assustador, né?

Esses comentários, essa resposta, as AMEAÇAS DE MORTE que a menina recebeu depois só mostram que precisamos e muito aprofundar essa discussão.

Precisamos falar sobre machismo.

Precisamos falar sobre a responsabilidade que as marcas têm – inclusive e cada vez mais no universo digital – de perpetuar ou mudar uma cultura que só faz mal.

Precisamos dizer que as meninas podem ser gamers sim e vão ser respeitadas por isso.

Se a Razer criasse uma campanha de valorização da mulherada, poderia ajudar de verdade porque tem muita influência. De quebra, conquistaria pontos com um público consumidor que só cresce em todos os segmentos.

Só não me venha com post bonitinho no dia 8 de março ou lançar fone cor de rosa de gatinho. 

Se não for genuíno, é hipocrisia e a internet não perdoa.

Esse TT é de outubro de 2018. 

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