Precisamos falar da (in)tolerância nas redes sociais | Jornal Plural
24 maio 2019 - 8h00

Precisamos falar da (in)tolerância nas redes sociais

Melina Santos toca na ferida e fala do ódio, preconceito e arrogância presentes nas redes sociais

A gente não respeita a vida sexual do outro. Não tolera que ele acredite em Deus de um jeito diferente do nosso. A gente não admite que o gosto musical do vizinho não seja tão refinado quanto o nosso. Não deixamos passar o erro humano durante um programa ao vivo. A gente desconsidera a manifestação política que tem bandeira da cor diferente da nossa. A gente não respeita o luto do outro, o castigo do outro, a história dele, a roupa que o outro veste, a dor de quem está ao nosso lado fisicamente ou do outro lado da tela.

Condenamos o aborto, a homossexualidade, o divórcio, o casamento, a amizade entre pessoas que achamos que não podem ser amigas, as causas ideológicas, colocamos todos os crentes na mesma sacola. Confundimos discordar com atacar.

A gente, na verdade, é muito melhor do que qualquer outro. Vem pra rede social e responde ódio com mais ódio. Preconceito com mais preconceito. Arrogância com mais arrogância.

Quando se estuda pouco tempo atrás, no surgimento das redes sociais, falava-se do empoderamento das pessoas até então conhecidas como audiências dos meios de comunicação e do quanto isso poderia ser bom. E é mesmo. Mas também é assustador, do quanto nos tornamos mais intolerantes porque somos donos do nosso próprio espaço pra dizer o que a gente quer, sem filtros. Sem pensar direito. Escancaramos a nossa intolerância – que provavelmente já existia – em cada post, em cada comentário, em cada compartilhamento.

E enquanto isso, no mundo real, lá fora, ninguém sabe se vai conseguir se aposentar, o desemprego só aumenta, investigações apontam desvios absurdos de dinheiro público. Assuntos que têm muito mais a ver com a nossa vida do que a vida sexual do vizinho. Enquanto isso, 169 agrotóxicos foram liberados somente este ano no Brasil. Enquanto isso, em média duas crianças são abusadas sexualmente todos os dias em Curitiba. Enquanto isso, nos distanciamos mais daquilo que realmente importa. Enquanto isso, vamos ficando cada vez mais sozinhos.

 

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