30 abr 2021 - 11h48

Vírus verbal também mata

Quando relembramos as frases ditas por Jair Bolsonaro, ao longo dos últimos 14 meses de emergência sanitária, conseguimos entender por que chegamos a esse número tão absurdo de mortes

Ao pesquisar o conteúdo para a coluna de hoje, deparei-me com um termo bastante apropriado para o que vamos abordar: vírus verbal. Desde março do ano passado, convivemos com o coronavírus, mas também com o vírus verbal vindo de lideranças do país, especialmente do presidente. O termo explica bem o quão destrutivo é o discurso de um líder quando proferido sem pensar. Chegar à triste marca de 400 mil mortes pela Covid-19 não é responsabilidade única do vírus. É também resultado de um discurso que desconsidera a ciência.

A liderança, entre outros fatores, é forjada também na comunicação. Considero, inclusive, a principal. Não sou nem eu quem diz, é Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão, que enunciou a teoria da ação comunicativa. Muito resumidamente, essa teoria indica que não há ideia de sociedade sem comunicação, já que esta é central no processo de dar significado às relações sociais.

Tudo isso está diretamente relacionado: liderança, pandemia e discurso. Quando relembramos as frases ditas por Jair Bolsonaro, ao longo dos últimos 14 meses de emergência sanitária, conseguimos entender por que chegamos a esse número tão absurdo de mortes. As palavras têm um poder muitas vezes subestimado pelas pessoas e, pior ainda, por líderes. Obviamente, a própria ideia de liderança é questionada quando vemos como a linguagem é usada por aqueles que deveriam ser mais que meros gerentes da coisa pública. Uma das diferenças, inclusive, entre um gerente e um líder é justamente como se emitem mensagens em meio a uma situação de conflito – como a que vivemos com a pandemia. O líder, ao contrário do gerente, tem noção de que tudo que se fala e se escreve vai ser seguido por milhares de pessoas – algumas vezes, até de forma fanática. O líder pensa nas pessoas; o gerente, no sistema e nas estruturas.

Apesar desse abismo entre gerenciar e liderar na ação do atual presidente, é interessante observar que, segundo estudos de liderança, particularmente do alemão Max Weber, Bolsonaro pode ser considerado um líder carismático. Para uma parcela da população, ele representa exatamente isso. No livro Economia e Sociedade, publicado em 1922, Weber elabora três tipos de dominação legítima de alguém que alcança o poder. Um deles é a carismática, sendo que “seus tipos mais puros são a dominação do profeta, do herói guerreiro e do grande demagogo”, como escrito à página 135 do referido livro. Fica a cargo do leitor entender em qual item o presidente se encaixa. Weber diz que se pode adquirir o título de carismático a partir de várias formas, e uma delas é “por um apostolado ou um séquito carismaticamente qualificados, aos quais se soma o reconhecimento pela comunidade religiosa ou militar, conforme o caso”. O que é triste e perigoso ao mesmo tempo é perceber que esse carisma (um conceito sociológico) foi conquistado à base de fake news, negacionismo e manipulação do discurso nas redes sociais, no caso de Bolsonaro. O apelido de “mito” nada mais é que resultado desse conjunto devastador de fatores, que tem como pano de fundo a linguagem.  

“Gripezinha”, “não sou coveiro”, “o povo brasileiro não será cobaia de ninguém” (ao se referir a vacinas comprovadamente eficazes), “eu não vou tomar vacina e ponto final, problema meu”, “já tenho anticorpos, pra que tomar vacina de novo?” – foram tantas declarações de cunho negacionista que é até difícil acreditar que uma pessoa no maior posto de representatividade de um país não tenha dimensão do impacto que isso causa na população que governa.

Sem nenhuma surpresa, ouvi histórias de pessoas que passaram a considerar a hipótese de se vacinarem apenas pelo pronunciamento em rede nacional do dia 23 de março deste ano, quando Bolsonaro mudou radicalmente seu discurso e disse que sempre foi a favor das vacinas. Palavras e ideias, apesar de serem subjetivas, têm grande influência quando proferidas por quem lidera. A comunicação deve ser a área tratada com mais cuidado em um governo. Quando isso não acontece, o resultado é o que vemos diariamente nas declarações do presidente: a letalidade de um vírus verbal, também invisível e igualmente nocivo em curto, médio e longo prazo.


Para ir além

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