4 fev 2021 - 9h00

Vice-presidenta, sim!

Em sua estreia no Plural, a jornalista Ana Mira toca na polêmica e mostra que a palavra já existe no léxico da nossa língua há muito tempo

A vitória da chapa de Joe Biden e Kamala Harris para a presidência dos Estados Unidos trouxe à tona, mais uma vez, a discussão sobre o uso da palavra presidenta. O mesmo ocorreu em 2010, quando Dilma Rousseff foi eleita a primeira mulher para o cargo executivo mais importante do Brasil. Ao assumir, Dilma estabeleceu a palavra presidenta em toda a comunicação oficial, gesto que suscitou muitos comentários, várias correntes de WhatsApp mostrando o “erro” da palavra e reações enfurecidas quanto ao uso do termo.

Volto aqui a afirmar o óbvio: presidenta é uma palavra que já existe no léxico da nossa língua há muito tempo. Na edição de 1972, da Gramática da Língua Portuguesa, de Celso Cunha, o autor já explicava que, apesar de a maioria dos substantivos e adjetivos terminados em -ente ser comum de dois gêneros – ou seja, tem como indicação de feminino e masculino o uso de palavras que os precedem (O gerente/A gerente, por exemplo) – há, sim, substantivos que apresentam sua versão no feminino. É o caso de hóspede/hóspeda, gigante/giganta e a “polêmica” presidente/presidenta.

Por que coloco a palavra polêmica entre aspas? A língua portuguesa, assim como todas as outras no mundo, tem um histórico de formação e de disseminação. Aqui no Brasil, é de conhecimento geral que o português não era nosso idioma. Ao encontrarem nosso país, os portugueses impuseram sua língua e sua religião, duas das mais poderosas formas de dominação. Entre as várias línguas faladas antes de 1500, a que mais se destacou perante os colonizadores foi o tupi-guarani, falada no litoral brasileiro. Conviveu-se com o tupi (também chamada língua geral) e o português por mais de 200 anos, até que, em 1757, o Marquês de Pombal instituiu a obrigatoriedade da língua portuguesa. Em 1759, foram expulsos os jesuítas, grandes defensores da manutenção do tupi. A imposição surgiu porque era comum ter que chamar vigários de Portugal para traduzir documentos relacionados à escravização indígena do português para o tupi, a fim de que os escravizados pudessem entender sua condição – e aceitá-la. Para além disso, também há nesse contexto a inter-relação entre colonização e civilização. Os portugueses entendiam como um “marco civilizatório” a determinação da língua portuguesa como a única possível no Brasil.

A presidenta Dilma Rousseff chega ao Congresso Nacional para a posse do seu segundo mandato, em 2015. Crédito da foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

É de se imaginar que os indígenas não aceitaram de bom grado essa exigência. Se hoje temos várias palavras de origem tupi e de origem africana, devido às línguas que aqui chegaram com a escravidão, elas só se mantiveram graças a muita resistência. Fica claro com esse brevíssimo resumo que, desde o início, língua foi sinônimo de poder. E é até hoje. Marcos Bagno, em seu livro Preconceito Linguístico, afirma que “tratar da língua é tratar de um termo político”. Além disso, a língua de um povo é forjada a partir de circunstâncias muito mais numerosas e complexas, como o é a própria formação cultural de um povo.     

Dito isso, voltemos a Kamala Harris. Primeira mulher na vice-presidência da maior potência econômica do mundo, ela tem sido citada na mídia brasileira como “a vice-presidente”, termo correto e amplamente aceito pela gramática, já que presidente é um substantivo comum de dois gêneros – basta colocar um artigo ou pronome masculino ou feminino na frente da palavra para indicar o gênero. No entanto, a palavra presidente também tem sua forma feminina – dicionarizada desde 1899. O único veículo que vi se referir a Kamala como vice-presidenta foi o El País.

“Ah, mas presidenta é tão estranho”. Vamos, então, falar de estranhamento sob uma perspectiva cultural. Se disséssemos aos senhores de engenho da época da escravidão que, nos próximos séculos, eles seriam presos por possuírem escravos, eles achariam estranho. Se falássemos para uma mulher da década de 20, no Brasil, que ela poderia votar na década seguinte mesmo sendo mulher, ela acharia estranho. Se disséssemos aos assassinos de mulheres, inocentados pelo argumento da “defesa da honra”, que hoje eles seriam condenados por feminicídio, eles achariam estranho. Ou seja, o estranhamento é cultural, estrutural e temporal. Presidenta, para alguns, soa estranho porque nunca foi comum termos mulheres na Presidência – desde associações e condomínios até grandes empresas e países. Portanto, assumir o termo presidenta é dar às mulheres a representatividade tão negada na prática recente da nossa sociedade, apesar de ela já estar nos dicionários há mais de um século. Parabéns à vice-presidenta Kamala Harris. E a todas as presidentas que virão.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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