Vou escrever sobre o que eu quiser? | Jornal Plural
Clube Kotter
3 out 2019 - 22h05

Vou escrever sobre o que eu quiser?

Agradeço ao Seu Plural pelo convite de escrever sobre teatro e
aceito-o, humildemente

Fui convidado a escrever pro Plural sobre teatro, aquela arte a qual
você pode ser um assíduo frequentador ou que você vai obrigado quando
alguém da sua família está no elenco.

Quando recebi o convite, respondi de cara.

– Desculpa, Seu Plural, eu não quero escrever críticas teatrais. Não
me sinto capacitado a avaliar o trabalho dos meus colegas.

– Não precisam ser críticas teatrais, não. Você pode escrever relatos,
ensaios, crônicas sobre o assunto. Você pode escrever da maneira que
quiser.

A parte “da maneira que você quiser” deu um eco retumbante dentro da
minha cabeça.

– Certeza, Seu Plural?

– (de maneira pouco enfática) …certeza, Andrei.

– Você vai se arrepender disso..

– O que foi?

– Nada, seu Plural! Nada.

– Você disse alguma coisa…

– É só impressão sua.

– Andrei, nossa conversa está escrita. Eu posso ler ali em cima.

– Não precisa, está tudo bem! Não olhe pra cima, olhe aqui! Vou
escrever aquele meme de pontuação que todo mundo mais ou menos entende o que ele é:
 ¯\_(ツ)_/¯

(Memes são ótimos, eles distraem as pessoas de coisas importantes)

Da conversa pulamos pra hoje, que é a estreia da coluna. Hoje é a
estreia da coluna que eu posso escrever “da maneira que você quiser”
(ouço com um eco retumbante de novo, enquanto escrevo). O que parecia
ser uma bênção virou rapidamente uma maldição. A minha liberdade de
criação tornou-se uma corda ao redor do pescoço, apertando lentamente,
enchendo o peito de medo da impressão que as pessoas terão sobre esta
coluna.

Estreias são extremamente extressantes. São tanto, mas tanto, que
acabei de escrever “estressantes” com “x” e, se você reparou, talvez
você tenha ficado estressado – ou extremamente extressado. Talvez o
erro seja pelo nervosismo, pela vontade de que comece logo, pelo medo
de que todo mundo odeie e grite “FECHEM ESTA COLUNA!”, pela vontade de
acertar. Mas talvez não seja um erro, talvez seja uma nova palavra
brasileira em que estamos muito estressados num momento em que só
queremos nos expressar. Então, igual misturar o nome dos pais pra
batizar o filho e obrigando a pessoa a explicar o significado pelo
resto da vida, hoje parimos “extressar” – e que os puristas me
perdoem.

Eu sei que as suas estreias também não foram fáceis. Nascer, por
exemplo, uma estreia clássica, em que o que abre não são exatamente
cortinas. A sua primeira vez na escola. A sua primeira vez viajando
por conta própria. A sua primeira vez… em tudo!

Estreias são extressantes e aqui, nesta coluna, enfatizaremos a
estreia cênica. Foram meses de preparação, todos eles carregados de
suor, lágrimas, dedicação. Tem o trabalho de cada uma das pessoas
envolvidas, a criação de muitos artistas e suas decisões, todos
querendo que o seu trabalho seja bem recebido, que o público goste,
que a crítica ame, que os premiadores enalteçam, que os festivais
convidem, que o circuito internacional exija a sua presença! E é por
todos esses sonhos e essa dedicação é que eu não tenho a menor vontade
de criticar trabalhos dos meus colegas.

Pra criticar de verdade você tem que estar apto a colaborar e a
continuar o processo da montagem, porque os criticados estão ansiosos
para te ouvir e isso pode abrir portas. Tem que abrir para além do
gosto pessoal, pois temos criadores de múltiplas linguagens e todos
merecem o espaço em um veículo PLURAL como este. Tem que ter o
conhecimento técnico, artístico e outros etcs necessários e, apesar
dos quase 35 anos de carreira, não me sinto confortável em fazer isso.
Só de pensar já fico eXtressado.

Agradeço ao Seu Plural pelo convite de escrever sobre teatro e
aceito-o, humildemente. Em tempos em que espaços teatrais estão sob
risco de censura, toda chance de ter liberdade para falar merece
celebração, ainda mais num espaço pra se falar da maneira que quiser –
ouço o eco retumbante, de novo, mas tudo bem: talvez daqui um tempo a
total liberdade não nos assustará mais.

PS – Nesta coluna, quando estava falando sobre estresse e expressão,
comecei a pensar na arte do barista. Será que, quando ele cria, ele se
“espressa”? Chega de neologismo por hoje!

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