Um elogio à loucura - que poderá vir | Jornal Plural
10 jan 2020 - 21h13

Um elogio à loucura – que poderá vir

Um texto sobre a loucura da censura e de governos autoritários

Erasmo era educado, Mal entrou e já soltou uma saudação.

– Oi, bom dia.
– Bom dia.
– Eu queria…
– Shhhh!

O “shhhh”, que é esse sopro com o ar fazendo biquinho, é uma espécie de cala a boca fofo. Especialmente o “shhhh” de quatro “h”. Quando os “h” aumentam, piora o nível ofensivo da exclamação. O som tinha vindo de trás da mesa, onde três homens estavam sentados, com janelões abertos por trás deles revelando mais a silhueta do que as feições de seus algozes. 

– Estou aqui pra…
– O comitê sabe porque você está aqui. Foi o comitê que te chamou, não foi?
– Sim, eu recebi a carta e…
– Shhhh!

Ainda quatro, ufa! Talvez não fosse nada, mas Erasmo tinha pedido ajuda pra um colega de condomínio que era advogado para como ele deveria se portar. Nunca teve amigo metido com esse negócio de lei, ele sempre acabava xingando e chamando a pessoa de vendido, de oportunista e o escambau. Mas esse advogado ele tinha conhecido em reunião de condomínio e, nesses eventos, ele sempre foi mais moderado. O advogado explicou, Erasmo ouviu atentamente. Ele sempre ouvia atentamente, ele era bom nisso.

– Seu nome?
– Meu nome?
– Seu nome.
– O comitê não sabe? Pensei que o comitê soubesse.

Não aconteceu um “shhhh”, mas teve uma careta. Talvez ele devesse segurar a sua onda e tratar aquele encontro como uma reunião de condomínio. Porque Erasmo era bom de ouvir, mas poderia ser considerado terrível para responder.

– Erasmo Carlos de Souza e Silva
– Erasmo Carlos?
– É, do tremendão. Meu pai era fã, minha mãe odiava, ele fez pra provocar ela.
– Sua família é dada a conflitos, então?
– Minha família costuma deixar claro que é importante brincar com tudo. Especialmente com o que acham que não se deve brincar.
– Um péssimo hábito.
– É um hábito de pessoas inteligentes, não é pra todos.

Outra careta. Erasmo fez “shhhh” pra si mesmo, dentro de sua cabeça.

– Seu Erasmo, o senhor é o autor dessa peça?
– Qual peça?
– Esta.
– Desculpe, não me deixaram trazer meu óculos. Alguma coisa sobre letalidade, metal, câmera, microfone, sei lá. Eu evito escutar teoria de conspiração, me dá preguiça.
– O senhor escreveu a peça “O Clitóris de Maria”?
– Co-escrevi.
– Escreveu?
– Co-escrevi. Não posso levar todo o crédito, a Mano escreveu comigo.
– Para constar nos altos, “Mano” é Manoela Jungfraut?
– Não sei se é exatamente essa pronúncia que o senhor falou, mas é. Essa é a Mano.
– Seu Erasmo…
– Seu Homem do Comitê.
– Shhhhh!

Cinco “h”. Este teve cinco. Não tinham vindo das pessoas atrás da mesa, de nenhuma das três, mas de um oficial fardado e armado próximo da porta.

– Seu Erasmo, o que deu em vocês para escrever tal coisa?
– É uma peça, não é uma “coisa”.
– Shhhhh! 

Era o oficial, de novo. O “shhhhh” dele era ríspido, cruzava as distâncias com precisão. Pelo “shhhhh” do oficial Erasmo percebeu que ele era bom de mira. Um péssimo sinal. Pessoas boas de mira treinaram muito. 

– …A gente começou a escrever por causa do sobrenome dela.
– Explique.
– Ela já se apresentou ao comitê, então imagino que o comitê já saiba. Acho, pelo menos, já que eu não pude conversar com a Mano nunca mais depois que…
– O senhor não deve ocupar sua cabecinha pensando o que o comitê sabe ou deixa de saber. Quando for requisitado pra falar, fale. Quando for requisitado a se calar, cale-se. Ou enfrente as consequências.

Ele lembrou do advogado do condomínio. Respirou. 

– O sobrenome dela. Não era pra ser esse, mas essas coisas de imigrante falando o nome no Brasil. Ela já me contou como era o original, eu sempre esqueço. Quando eu conheci a Mano eu perguntei se ela estava de boa de ser eternamente virgem. Por causa do sobrenome. Em alemão “jungfrau” é virgem. É muito perto do sobrenome dela.
– Continue.
– Esse papo rolou por anos e a gente sempre falava sobre ser eternamente virgem, da merda e da bênção que isso poderia ser. Aí a gente começou a falar sobre tradição cristã e…
– “Tradição cristã” soa quase como uma crítica, seu Erasmo.
– …

Ele ia responder, mas o seu próprio “shhhh” dentro da cabeça veio antes.

– …A gente começou a falar sobre Maria, mãe de Deus, concepção imaculada. Falamos por anos, era uma brincadeira nossa. Até o dia que resolvemos sentar pra escrever a peça. É isso. Essa peça é o fruto de uma relação imaculada de anos que eu tenho com uma grande amiga minha.
– Quando foi isso?
– Sou amigo de Mano há 14 anos.
– Não, seu Erasmo. Quando vocês começaram a escrever a peça?
– Uns 7 meses atrás.
– Ou seja: dentro do período em que já estavam proibidos textos desse tipo de natureza.
– Qual natureza? A natureza escrita? Porque todos os textos são dessa natureza!

Havia “shhhh” na cabeça de Erasmo, mas ele tava fingindo não ouvir.

– O senhor sabe muito bem do que eu estou falando.
– Não sei, não.
– De blasfêmia.
– Não há blasfêmia alguma.
– Como não, seu Erasmo! Vocês falam aqui, nesta execrável peça, do clitóris da mãe de Deus!
– Mas ela tinha clitóris! Toda mulher tem, o senhor não sabia?
– SHHHHH!
– Ela tinha, ela era mulher! Mulher tem clitóris, a mãe de Jesus tinha clitóris, mamilo, umbigo, não mentimos! A gente não sabe se Jesus tinha isso, afinal uma inseminação artificial bíblica pode ter efeitos nocivos.
– SHHHHHH!
– A gente nunca ouviu falar sobre “a sagrada placenta de Jesus”, que talvez fosse muito mais nutritiva do que as placentas das outras crianças!
– SHHHHHH!
– O comitê, na sua caça as bruxas, quer que a gente esqueça dos fatos e nos proíbe de falar até o mais óbvio.
– SHHHHHHHHHH! 
– Essa peça não comete nenhuma heresia! Ela fala sobre as mulheres, a quem não é permitido ter prazer, não importa em qual nível! Porque até a mãe de Deus foi privada da sua sexualidade para virar uma mera barriga de aluguel. É uma crítica ao Estado Patriarcal e como ele ataca e prejudica as mulheres. Não é uma heresia, é uma coleção de fatos científicos. Talvez por isso seja considerado uma heresia por este comitê, afinal fatos – quando a gente não tem capacidade para entendê-los – soam místicos demais e não obedecem cegamente a um…
– Cle-quec.

O som de um “cle-quec” se fez ouvir naquela sala. Os “shhhh” eram duros de se ouvir, os “h” acumulados doíam na alma. Mas o “cle-quec”era pior, pois vinha do engatilhamento de uma espingarda. Erasmo não conseguiu identificar se o som vinha do comitê ou do oficial fardado. Ele se esqueceu que ninguém dava importância mais ao número de “h” que um “shhhh” pode ter, porque quem mandava no comitê e em tudo já tinha parado de ouvir há muito tempo. Ele olhou pra baixo, pensou em Mano e nas piadas que faziam um com o outro, na estreia do espetáculo com urros da plateia, os aplausos de pé, a segunda apresentação que nunca aconteceu por intervenção estatal no teatro, o recado em áudio de Mano falando sobre ir ao comitê com batidas fortes na porta ao fundo. Ele lembrou também o quanto seu pai colocava discos do Erasmo pra ele ouvir quando criança e de sua mãe chiando, lá da cozinha, dizendo o quando aquilo era horrível e ameaçando o pai com divórcio. Seu pai olhava pra ele e dizia:

– Uma boa piada é aquela pela qual você enfrenta o mundo.


Erasmo ouviu seu pai, claramente. Erasmo ouviu muita coisa em sua vida. Pena que a última coisa que tenha ouvido foi uma onomatopéia patética de sete letras, separada com hífen. Uma pena que o mundo tinha parado de ouvir, porque Erasmo teria muito mais pra dizer. 

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