To Stream or not To Stream | Plural
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13 jan 2020 - 22h46

To Stream or not To Stream

Um filme com finais para todos os gostos

– E chegamos a isso aqui.

– Sim, a bomba está completamente desativada. Nós salvamos o mundo, Brenda.

– A humanidade vai ter a oportunidade de cagar com tudo de novo!

– Sim e…

PAUSA.

O escrito apareceu gigante, no centro da tela, entre os dois personagens meio ensanguentados, suados, mas claramente muito sexys. O homem tinha uma mecha de cabelo estrategicamente posicionada sobre uma parte do olho esquerdo e mostrava braços tão meticulosamente exercitados que era difícil imaginar que este halterofilista era um cientista do MIT. Ela, ao final de uma das piores experiências de sua vida – com direito a terroristas, ninjas, nazistas com implantes biônicos – estava ainda com batom nos lábios, um decote que revelava muito e rasgos na calça que deixavam suas coxas a mostra. O diretor do serviço de vídeo protestou:

– Mas parar assim, agora, no final do filme.

– Então, é que agora… – o produtor fez uma pausa dramática e olhou pros seus comparsas, com a certeza da boa surpresa – é que vem a grande sacada dessa película.

– … só vai passar em streaming. Não tava na hora da gente parar de falar em película?

– Verdade, senhor. Mas veja só que sacada. O filme é exatamente igual para todas as pessoas do mundo até este ponto. Mas, daqui pra frente, um algoritmo do seu serviço vai diferenciar a experiência das pessoas.

– Como?

– Alterando a versão que elas vão assistir. Esta aqui é a primeira.

– …tudo graças a você.

– Não, foi graças a você.

– Graças a você, idiota!

– Graças a você, seu bruto!

Os dois se beijam lascivamente. A câmera sobe. Quando ela desce de novo os dois personagens estão casando. Presentes na cerimônia estão vários personagens que apareceram no filme e ordenando o casamento está o oficial de espionagem que colocou os dois juntos pra trabalhar. Eles se casam, começa a festa, tudo está lindo. Chega o bolo de casamento.

– Esse aqui você vai gostar muito. É de abacaxi.

– Eu odeio abacaxi.

– Não, você ama abacaxi, você me disse.

– Eu te disse o contrário.

– Não, eu… Você está ouvindo?

– É como se fosse um tic-tac.

– E vem dentro… do bolo! Vem!

Eles pulam para atrás de uma mesa e o bolo explode. Ele tira uma pistola de dentro do paletó, ela tira uma que estava num coldre na perna. Ele tira o paletó, ela rasga o vestido como se fosse para ter mais mobilidade. Eles estão na mesma posição em que estavam ao desarmar a bomba, só que em vez de sangue agora eles tem pedaços de bolo pelo rosto.

– A gente pode discutir a questão do sabor do bolo mais tarde?

– Claro!

Se beijam. Eles engatilham as suas armas. Se preparam. Mas antes:

– Amor?

– Sim?

– Por favor, não quero saber de nenhum tiro “sem querer” na direção do meu pai.

– Mas e se tiver um mecano-nazista perto? Acidentes acontecem!

– Amor…

-Tá bom… Vai.

Eles saem de trás da mesa atirando. A imagem congela. Sobem créditos.

– Adorei. Final clássico, ótimo. 

– A gente sabe. O algoritmo selecionou esse final para o senhor.

– Quantos finais tem.

– Vários.

– Me mostra os outros, por favor?

O pessoal da produção troca os arquivos e começa a passar o filme a partir do ponto da pausa de antes. 

– …tudo graças a você.

– Sim, eu sei. Você me atrapalhou bastante.

Ele se levanta e olha para o pôr do sol. Ela se levanta e olha na mesma direção. Ele olha para ela e diz:

– Sabe… acho que este seria o momento ideal para que a gente se beijasse.

– Tipo que nem nos filmes?

– É.

– Bom, ainda bem que isto aqui é real e, no mundo de verdade, quando um homem e uma mulher fazem um trabalho juntos eles podem ser colegas ou bons amigos, não é verdade?

– É verdade. Uma tristeza que sejamos sempre soterrados por clichês banais.

– Foi um prazer trabalhar com você.

– O mesmo

O telefone dela toca e ela atende.

– Pois não, general… Sim, acabamos de desativar, pode ficar descansado… Ele está aqui comigo… O quê? Tem mais uma célula mecano-nazista em Kuala Lumpur? Estamos a caminho.

Ela desliga o telefone. Ele diz:

– Vai ser ótimo que a gente não seja um casal.

– Por quê?

– Porque parece que vamos ter que conviver muito mais pelos próximos anos.

Ambos engatilham suas armas e vão em direção da câmera. Eles começam a caminhar, mas ela para e diz:

– Acho que não é seguro a gente andar com armas engatilhadas e a viagem até a Malásia é longa.

– Verdade, você tem toda a razão!

Eles desengatilham as armas e vão na direção da câmera. A imagem congela. Sobem créditos.

– Olha, adorei também. Até vejo qual o grupo demográfico que vai gostar mais desse final. Tem mais?

– Tem sim.

– …tudo graças a você

– Tudo graças a nós dois.

– Mas, se a gente ver bem, nós somos partes do problema.

– Sim, nossa existência é uma ameaça ao mundo. 

– Então… adeus.

– Adeus.

Eles colocam as armas em suas próprias cabeças e atiram. A câmera observa os corpos de cima, estirados ao lado da bomba, numa posição meio como o Tao. Ouvimos ao fundo a música, mas também notícias de jornais dizendo que o mundo está mais a salvo hoje, que pessoas estão tomando atitudes mais responsáveis, que o planeta vai sobreviver a tudo de ruim que está acontecendo. A câmera vai voando até mostrar o planeta azul, da estratosfera. Sobem créditos.

– Vocês têm certeza que tem gente que vai gostar desse final?

– Sim senhor, ele foi apontado em pesquisas como um final bem sólido. Aí temos finais que são variações: mais melosos, com mais tiros, com menos tiros, finais preto e branco, finais com K-pop de música de fundo, etc…

– Fico muito feliz que vocês não tenham nenhum comprometimento artístico com a obra de vocês. Isso facilita muito a nossa vida. Só por curiosidade: tem algum final bem bizarro?

– Bem, senhor… Sim, tem um final que é bem bizarro. Mas a gente fez mesmo assim, depois de discutir muito.

– Ah, fico curioso. Me mostra.

– …tudo graças a você.

– E tudo de errado graças aos malditos INSIRA NOME DE PARTIDO OU DE TIME DE FUTEBOL DA SUA PREFERÊNCIA!

– Maldito! Nunca vencerão!

– Nunca!

Eles rasgam uma bandeira completamente verde, daquele material que é usado no cinema para ser trocado depois por computador. Aparece uma multidão vestida com camisetas verde-substituição-por-computador executando uma coreografia tosca e cantam uma canção cujo refrão é “A culpa é toda do INSIRA NOME DE PARTIDO OU DE TIME DE FUTEBOL DA SUA PREFERÊNCIA!”. Eles param numa pose. Sobem créditos.

– …É a coisa mais idiota que já vi.

– Concordo, senhor. Mas o algoritmo disse que faria sucesso com muitos dos nossos clientes.

– Como isso é possível? Como alguém pode querer ter um final tão simplista assim, em que toda a culpa de algo seja exclusivamente de INSIRA NOME DE PARTIDO OU DE TIME DE FUTEBOL DA SUA PREFERÊNCIA.

– Bem senhor, o algoritmo fez uma pesquisa bem complexa e chegou a uma conclusão: idiotas têm acesso a internet.

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