Tempo de espera | Jornal Plural
13 abr 2020 - 19h06

Tempo de espera

Porque a hora chega pra todo mundo

Imagine uma sala de espera, dessas de médico, da melhor forma que você conseguir imaginar essa sala. Há um sofá com três lugares, de frente a uma parede com alguma patna que saiu de moda há umas duas décadas e, no meio dela, uma impressão de um quadro de Salvador Dali. O lugar do meio está mais novo que os da ponta, aquela prova que ninguém gosta de sentar perto de um desconhecido. Isolada, uma poltroninha completa um “L” com o sofá. Entre a poltroninha e o sofá, onde seria o ponto da conexão das linhas do “L” maiúsculo, há uma mesinha com duas revistas novas, algo incrível para um desses espaços. No sofá, na extremidade longe da mesinha, está sentado Armando. Está com as pernas cruzadas, seu cotovelo repousa sobre o braço do sofá e ele olha para frente, sem grandes expressões faciais. Entra Roberto, tirando um grande fone das orelhas, apertando um pause no celular e se dirigindo para a outra extremidade do sofá (novamente o centro será poupado)

– Boa tarde.

– Boa tarde – responde Armando, acompanhado de um sorriso não forçado de boas vindas.

Silêncio por alguns instantes, enquanto Roberto tenta desvendar por conta própria os mistério da sala. Ao não conseguir, busca auxílio em Armando.

–  Não tem ninguém?

–  Tá lá dentro.

– Sei… Negócio é esperar né?

– É exatamente isso… Primeira vez?

– É sim, primeira. Primeirona. Ficou muito na cara, né?

– É normal.

– Achei que estava na hora.

– Sim, essa hora chega pra todos nós.

– Você… Digo, eu queria… Bom..

Armando entendia perfeitamente o que se passava com Roberto naquela hora e interrompeu a tortura que ele estava passando de encontrar as palavras corretas.

– Aqui é bem tranquilo, sossegado. E não se preocupe: você consegue. 

– Obrigado… Quanto tempo você já vem aqui?

– Faz só uns dois meses, sou relativamente novo.

– E… Tá funcionando?

Armando descruzou as pernas, retirou o cotovelo do braço do sofá para virar pra Roberto e se esforçar, ao máximo, tanto em ser honesto quanto para não assustar o recém-chegado.

– No começo, não… Cheguei a perder as esperanças. Era muito doloroso, todo o processo. Mas, em algum momento, parece que tudo fez sentido. 

Roberto sorriu, num misto de agradecimento e de medo perante o desconhecido. Armando resolveu complementar.

– Se eu puder te dar uma dica…

– Por favor!

– No fim das contas, o que nos resta é aguardar. Porque a hora chega pra todo mundo.

– Mesmo a minha?

– A sua e a de todos nós.

– Obrigado. Essa é toda a minha esperança.

Uma moça de uns 27 anos, com uma prancheta na mão, roupa branca de enfermeira e cabelo castanho preso num coque entra na sala. Ela olha diretamente pra prancheta e diz.

–  Armando Carvalho Pereira?

– Eu.

– Seu Armando, já são duas e meio. O seu tempo de espera acabou.

– Não te disse? – ele fala, olhando pra Roberto.

– Semana que vem o senhor gostaria de esperar o mesmo tanto ou prefere uma sessão mais curta?

– O mesmo tanto, faço questão de esperar todo o necessário. Só assim eu alcanço.

– Perfeito, já deixei o senhor no mesmo horário.

– Então, com licença.

Armando se levanta e faz um leve menear de cabeça de “adeus” para a enfermeira e para Roberto, saindo da sala.

– Você é?

– Meu nome é Roberto, eu tinha agendado pelo telefone.

– Deixa eu ver aqui… Sr. Roberto, primeiro dia né? Chegou cedo, sua espera começa às 14h45. Se importa de esperar um pouquinho?

(baseado em texto de Adriano Magalhães)

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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