Isolamento social dia 165⠀ | Jornal Plural
28 ago 2020 - 22h12

Isolamento social dia 165⠀

Então meus colegas se deparam atualmente com estes momentos surreais, em que a cada aceite para um novo trabalho é um arriscar-se na beirada do precipício

Querido diário: nossa profissão, a de ator, não é compatível com isolamento social. Sim, eu sei, há os experimentos e lives e outros em que os atores estão isolados em casa fazendo seu trabalho. Eu sei. Mas teatro em seu jogo mais amplo (de estar em contato com o outro ator, técnicos e de estar em contato com a plateia) ou no seu trabalho em vídeo (em cinema, tevê propaganda, em que há demanda de todos os outros profissionais envolvidos) o isolamento torna tudo mais impossível.

A não ser que você decida não se isolar. ⠀

Eu ouvi em maio, acho, que havia o “protocolo de cinema”. Algumas produções estavam avançando, mas tomando uma série de cuidados. Sabemos que tomar uma série de cuidados é sempre eficiente, afinal nunca morre ninguém de infecção num hospital. ⠀

Sim, querido diário, foi uma ironia.⠀

Então meus colegas se deparam atualmente com estes momentos surreais, em que a cada aceite para um novo trabalho é um arriscar-se na beirada do precipício. Pode não dar nada, você pode sobreviver e ser reconhecido como aquele corajoso que enfrentou a morte bravamente. Ou pode ser o seu último trabalho. Ou, se você tem “histórico de atleta” e tenha a sorte de ser assintomático, talvez você sem querer possa ser o veículo de transmissão para alguém no palco, no set, em casa.⠀

O Hamlet de 2020 está no solilóquio de: trabalhar e/ou morrer e/ou matar: eis a questão. Na versão original, Hamlet matou e morreu (*spoiler de 400 anos), mas ele não tinha que trabalhar porque era príncipe. Nós não somos… Quer dizer, alguns de nós fazem príncipes da Disney em eventos! Toda a nossa plebe artística encara a pergunta.⠀

Aos meus colegas de profissão, eu desejo “merda”, a expressão que usamos no teatro que tem duas funções: não dizer “boa sorte”, porque se você disser pode dar merda, e também porque (antigamente) se tivessem longos rastros de merda de cavalo nas ruas que levam ao teatro isso demonstrava que a noite tinha sido um sucesso financeiro.⠀

(Bons tempos em que rastros de merda levavam às artes. Hoje, rastros de merda estão sempre apontando para palácios de governo, onde nossos príncipes da Dinamarca insistem em não trabalhar.)⠀

Evoé.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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